e-BOOK – GESTÃO ORÇAMENTÁRIA DE EMPREENDIMENTOS

setembro 2, 2018

A Gestão Orçamentária eficiente é um dos principais fundamentos que contribuem para o alcance dos resultados financeiros de um Empreendimento de Construção. A padronização dos processos e diretrizes da Gestão Orçamentária visa conferir maior previsibilidade e transparência à contabilização dos resultados dos empreendimentos, facilitando e agilizando a tomada de decisões relacionadas aos seus custos.

Clique no link e baixe gratuitamente o e-book que descreve processos e diretrizes da Gestão Orçamentária (estruturação, controle e manutenção orçamentária) de Empreendimentos de Construção, visando equalizar a coleta e a alimentação de bases de dados, o uso padronizado de sistemas de informação, bem como a consolidação e a análise (situação, progresso e previsão) do desempenho dos custos, permitindo a tomada de decisões mais adequadas ao sucesso dos empreendimentos.

GESTÃO ORÇAMENTÁRIA DE EMPREENDIMENTOS

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#gestãoorçamentária #gestãocontratual #contratos #construção #obraspúblicas #engenharia #gestão #blogdosoler

Anúncios

e-BOOK – GESTÃO DO CONHECIMENTO NO AMBIENTE DE CONSTRUÇÃO

agosto 26, 2018

Gestão do Conhecimento é um conceito que se fundamenta no processo de aprendizagem organizacional. Trata-se de um trabalho através do qual a empresa gera internamente (ou adota), absorve e reutiliza o conhecimento, visando buscar a excelência e alavancar seu desempenho operacional de modo eficiente.

A Gestão do Conhecimento fundamenta-se no princípio de que é economicamente mais vantajoso para a empresa reutilizar o conhecimento extraído de suas próprias experiências, da bagagem de conhecimentos tácito de seus Colaboradores e do conhecimento considerado adequado quando disponibilizado pelo ambiente externo do que, a todo o momento, ter que redescobrir novas soluções para problemas sistêmicos e arcar com o ônus de repetir erros já cometidos anteriormente.

A Gestão do Conhecimento visa impactar positivamente o desempenho operacional e o incremento do Capital Intelectual da empresa, o que, por consequência se estende aos resultados financeiros e à sua valorização de mercado.

Além disso, a formalização das experiências, bem ou mal sucedidas, e das competências e habilidades adquiridas pelos Colaboradores durante seu aprendizado, acabam por permanecer e se enraizar dentro da empresa.

Clique no link e baixe o e-book Gestão do Conhecimento que sintetiza as principais definições e processos pertinentes ao tema ao longo do fluxo de geração, coleta, armazenamento, manutenção, disseminação e reutilização de novos conhecimentos, visando a sua incorporação à Cultura e a contabilização ao Capital Intelectual da empresa.

GESTÃO DO CONHECIMENTO

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

 

#gestãodoconhecimento #gestãocontratual #contratos #Construção #Obraspúblicas #Engenharia #Gestão #Blogdosoler


e-BOOK – GESTÃO CONTRATUAL DE OBRAS

agosto 13, 2018

A gestão Contratual trata da observância ostensiva dos termos estabelecidos num contrato de execução de um empreendimento de Construção.

O fundamento básico de um contrato, tal como definido pelo artigo 66 da Lei nº. 8.666/1993, que dispõe de normas gerais sobre licitações e contratos da Administração Pública, estabelece que o contrato “deverá ser executado fielmente pelas partes, de acordo com as cláusulas avençadas e as normas das respectivas leis, respondendo cada parte pelas consequências de sua inexecução, total ou parcial”.

Entretanto, devido às complexidades intrínsecas que acercam os empreendimentos de construção, via de regra, esse tipo de contrato dificilmente é executado dentro da totalidade dos parâmetros estabelecidos, propiciando desvios, necessidades de mudanças e potenciais litígios entre as partes.

A Gestão Contratual é a maneira mais adequada para que as partes garantam o cumprimento de todas as suas obrigações, exercendo os seus direitos e recebendo tudo a que se faz jus pelos serviços prestados e recebidos.

A gestão contratual aborda, o acompanhamento, o controle e a fiscalização da execução das obras, e se estende, desde a concepção do edital da licitação até a entrega e o recebimento integral do objeto contratado

Clique no link e baixe o e-book Gestão Contratual que sintetiza o escopo da Gestão Contratual em cada fase do Ciclo de Vida típico de um empreendimento de construção.

GESTÃO CONTRATUAL

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#gestãocontratual #contratos #Construção #Obraspúblicas #Engenharia #Gestão #Blogdosoler


O PAINEL DE INDICADORES GERENCIAIS DO EMPREENDIMENTO

agosto 5, 2018

O Painel de Indicadores Gerenciais (ou, dashboards) é uma componente fundamental de gestão dos empreendimentos de construção. Através da compilação de números, gráficos e cores dispostos em poucas telas de fácil manuseio e visualização, o gestor dispõe de uma visão consolidada periódica das informações de desempenho do seu empreendimento proporcionando subsídios concretos para a avaliação da situação atual e da tendência de desempenho futuro do empreendimento, subsidiando a tomada de decisões preventivas e corretivas compatíveis com os objetivos de sucesso de sua gestão.

Atualmente, mais do que a consideração de modismo tecnológico, o Painel de Indicadores Gerenciais representa um diferencial para as empresas de construção.

Indicadores de Desempenho

Os indicadores que compõem um painel refletem os interesses estratégicos e operacionais de desempenho que se almeja alcançar por um empreendimento e costumam ser agrupados sobre duas perspectivas: (a) Perspectiva de desempenho Físico, Econômico e Financeiro e, (b) Perspectiva de desempenho Estratégicos.

A tabela abaixo ilustra o agrupamento de alguns indicadores representativos em ambas as perspectivas:

Blog - Figura 1

A Identidade dos Indicadores de Desempenho

Para que possam ser coletados e analisados de forma comparativa periódica, cada um dos indicadores que compõe o Painel de Indicadores Gerenciais deve ser detalhado e normatizado. A Identidade do Indicador sintetiza sua descrição de forma padrão. A tabela abaixo ilustra a representação de uma dessas identidades:

Blog - Figura 2 a

Blog - Figura 2 b

Compromissos de Gestão

O Painel de Indicadores Gerenciais costuma ser utilizado, ainda, como fundamento principal, objetivo e transparente, do acompanhamento e cálculo dos compromissos e acordos de participação nos lucros e resultados, promovidos pela empresa de construção com a equipe gerencial do empreendimento, em contrapartida ao alcance dos resultados combinados.

Fortalecimento da Boa Governança

Em sintonia com a frase icônica de Deming “não se gerencia o que não se mede, não se mede o que não se define, não se define o que não se entende, e não há sucesso no que não se gerencia”, o Painel de Indicadores Gerenciais, devido à sua objetividade e transparência, representa o fortalecimento da boa governança e o retorno do empoderamento da competência e da eficiência profissional dos Gestores do empreendimento em substituição às manipulações obscuras realizadas na gestão dos contratos de construção.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#paineldedesempenho #Construção #Obraspúblicas #Engenharia #Gestão #Blogdosoler


NA OBRA, A TECNOLOGIA É BEM-VINDA, MAS NÃO SE BASTA

julho 29, 2018

Passada a tormenta que assolou o segmento de negócios e a quase extinção das grandes obras de infraestrutura nos últimos anos, retomei esta semana o trabalho em uma grande obra rodoviária de dimensões exponenciais no histórico nacional – o maior túnel, a maior extensão de túneis, etc.

Curioso e apaixonado pelo trabalho no canteiro e pelo projeto em si, procurei analisar as diferenças desde a última vez que calcei as botas de EPI há dois anos atrás.

Governança e Compliance

 Em primeiro lugar, é nítida a observação de processos relacionados à governança e ao compliance – a rigorosidade dos detalhes e das exigências, a transparência das negociações, o cuidado com as relações pessoais e o extremo profissionalismo aplicado às contratações. Seriedade e respeito ao bem público e seus benefícios à sociedade que nunca deveriam ter faltado.

Tecnologia disruptiva

Foi maravilhoso perceber a obra pela ótica da utilização de novas tecnologias. Equipamentos extremamente sofisticados, importados e caros realizam de modo autônomo o trabalho que antes era feito por dezenas (centenas??) de profissionais contratados. Salas de comando e controle que monitoram de modo remoto o avanço e a qualidade da obra a partir de dados emitidos por sensores remotos e drones que se revezam na supervisão do desempenho. Sistemas complexos que analisam dados coletados, avaliam automaticamente condições adversas e emitem alertas técnicos e de gestão – sinalizadores coloridos, gráficos, curvas e sons que antes eram elaborados e processados por profissionais experientes, agora emergem dos monitores indicando com grande precisão o que deve ser feito a seguir. Um novo mundo construído à semelhança das novas regras e exigências da atualidade. Mais limpo, direto, rápido e menos sujeito as subjetividades e intemperanças humanas.

Tinha gente também!!!

Mas não pensem que só percebi mudanças inovadoras disruptivas. Lá estavam, ainda, mais de 2 mil trabalhadores, de carne, osso, botas e capacete. Tal como sempre convivi, trabalhavam incansavelmente instalando, conduzindo e posicionando equipamentos, manuseando ferramentas, carregando, puxando, cavando, batendo, executando tarefas de diferentes níveis de complexidade, sinalizando a segurança, gerindo os recursos, supervisionando, etc. … tomando decisões.

A obra do futuro

Os novos ares, do novo canteiro me fez reavaliar minha visão sobre o futuro. Erra quem acredita que a obra do futuro se limitará apenas à utilização de tecnologia. Dificilmente a máquina será capaz de trabalhar em equipe, acumular experiência, produzir e utilizar o conhecimento tácito, se motivar, pensar e agir como o trabalhador profissional, humano!

Erra quem aposta apenas nas mudanças promovidas apenas pelas novas gerações digitalmente nativa e empoderadas pelas inovações tecnológicas disponíveis. Há que se valorizar a experiência de quem já fez um dia e a sua capacidade de lidar com os imprevistos. Uma grande obra de construção de infraestrutura não se limita ao algoritmo previsível de um programa de computador.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Construção #Obraspúblicas #Engenharia #Gestão #Blogdosoler


REALIDADE VIRTUAL NA EDUCAÇÃO

julho 22, 2018

Cena 1: Numa escola pública nos rincões do país

Um grupo de estudantes de pé, no centro da sala de uma escola pública do sertão, como que surfando em uma onda atemporal, distante de grandes centros e carente de todo tipo de recurso, se transporta virtualmente para o centro do conflito da Síria, experimentando os horrores da guerra em um campo de refugiados, caminhando pelas ruas, observando as tendas, ouvindo os sons originais do local, cruzando com moradores e passantes, observando crianças brincando e vendedores oferecendo mercadorias.

Por dez minutos, os estudantes do sertão brasileiro tiveram a sensação de vivenciar a realidade cruel da guerra, o que lhes proporcionou uma experiência emocional incomparável, tal como o seu professor de história sempre quis ensinar, mas se sentia impossibilitado pela restrição de material didático adequado. Os estudantes estavam tendo a sua primeira experiência com Realidade Virtual a partir do documentário Cloud Over Sidra do artista visual Chris Milk, disponível gratuitamente no Youtube – eles usavam óculos 3D de papelão, fabricados por eles mesmos na escola e um aparelho celular comum, emprestado de um professor.

Realidade Virtual – um teletransporte às novas experiências

A Realidade Virtual é um conjunto de tecnologias interativas (tais como óculos especiais e monitores adaptados) que permite a um usuário enxergar objetos ou cenários tridimensionais, proporcionando o seu envolvimento pessoal e sensação de estar presente, levando-o a interagir e vivenciar experiências simuladas artificiais como se fossem reais. Um verdadeiro teletransporte ao mundo virtual, “enganando” os sentidos e democratizando as possibilidades de compartilhamento de novas experiências, ampliando e transformando a mentalidade do usuário e capacitando-o a resolver desafios.

Como assim?

A tecnologia permite, por exemplo, que um professor leve seus alunos aos pólos da terra, ou ao centro de um vulcão, ilustrando o conteúdo apresentado em sala de aula, que passeiem juntos pelo Coliseu Romano, pela Floresta Amazônica ou pelo distrito de Bento Rodrigues, logo após o desastre da represa em Mariana. Permite visualizar de maneira interativa e gameficada as moléculas orgânicas de uma planta, o funcionamento de uma célula, as formações de cadeias carbônicas e todas as funções e anatomia do corpo humano. Permite visitas à beira de um córrego, observando o cenário de entulho, lixo e água parada, a procura de ambientes propícios para a proliferação do Aedes Aegypti. Permite simular situações de risco em medicina, construção civil, segurança do trabalho, treinamentos militares, etc. Um novo mundo de possibilidades que se abre! Tudo sem sair de dentro do ambiente seguro da sala de aula (como no filme Avatar!).

A Realidade Virtual e a nova Educação

O aluno da nova educação do Sec XXI é um nativo digital. Sua vida está intimamente associada à tecnologia e o novo professor deve saber tirar proveito disso, ao invés de alimentar o embate contra os dispositivos eletrônicos nas salas de aula. Nesse contexto, a Realidade Virtual situa-se como sinônimo de modernização e inovação, revolucionando os métodos de ensino sob novas perspectivas e apoiando a transição para a nova era da educação.

Considerando que a Realidade Virtual facilita experiências imersivas e interativas, ela tem o potencial de alavancar o processo de aprendizagem bem como de sua vivência, melhorando a motivação dos alunos e sua consequente compreensão e apreensão dos conteúdos trabalhados em sala de aula.

É preciso se emocionar para aprender

Segundo alguns filósofos da educação, além do visual e do auditivo, a emoção é componente fundamental do processo de aprendizagem. O francês Gilles Deleuze, menciona que o despertar do aluno numa aula acontece quando esta provoca sua emoção: “Uma aula é tanto emoção como inteligência. Sem emoção não há nada”. Em sintonia, o especialista em pedagogia Malcolm Knowles acrescenta que aprender deve ser também “uma aventura, temperada com a excitação da descoberta”.

Nesse sentido, a Realidade Virtual posiciona o aluno como protagonista de seu aprendizado, individualizando suas percepções, sua curiosidade e suas emoções, tornando a experiência de aprendizagem mais envolvente, inspiradora e transformadora de sua vida.

Startups de Realidade Virtual

No Brasil, a Realidade Virtual tem se popularizado e se infiltrado nos sistemas de ensino, privados e público. A dimensão exponencial do mercado nacional de educação e o potencial disruptivo da tecnologia vem chamando a atenção de startups dedicadas ao tema que começam a lançar seus produtos e garantir fatias desse mercado. Dentre estas, três empresas se destacam por sua proposição inovadora de valor: a Beenoculus, a Evobooks e a Uptime.

A Beenoculus é criadora do Beenoculus, um aplicativo que transforma o smartphone em óculos de Realidade Virtual. A Evobooks se propõe a criar experiências de aprendizagem significativas e inovadoras, investindo nas melhores práticas educacionais aliadas à evolução da tecnologia. Já a Uptime é a primeira escola de inglês do mundo a oferecer o aprendizado através de experiências em Realidade Virtual e aumentada.

A boa luta de gigantes

Mas a Realidade Virtual na Educação não é apenas epifania de jovens empreendedores de Edtechs. A briga chegou ao centro do império com Google, Microsoft e Facebook disputando posições no cabo de guerra das plataformas educacionais.

Por um lado, a Google saiu na frente com seu Google Expeditions, aplicativo que compõe a plataforma Google Suite for Education. O Expeditions é uma ferramenta de ensino baseada em Realidade Virtual através da qual os estudantes podem explorar o mundo sem sair da sala de aula. Já são mais de 500 expedições disponíveis, que vão desde a Estação Espacial Internacional, ao Machu Picchu ou ao fundo do mar cercado de tubarões, que já foram acessadas por mais de 2 milhões de estudantes pelo mundo.

Por outro lado, a Microsoft potencializou a sua plataforma Office 365 para Educação, anunciando uma parceria com o projeto WGBH’s Bringing the Universe to America’s Classrooms, para distribuição nacional em Realidade Virtual de conteúdos sobre Ciência da Terra e Espacial e para serem usados em salas de aula por meio de recursos de aprendizagem digital.

Já pelo lado do Facebook, Mark Zuckerberg anunciou a compra da empresa que produz o Oculus Rift, um programa de Realidade Virtual que deverá disputar mercado de escolas e universidades contra o Google Cardboard e o HoloLens da Microsoft.

Tecnologia acessível. Só que não! #sqn

Algumas questões devem emergir dessa discussão de uso da Realidade Virtual na Educação: a primeira diz respeito ao alinhamento dos recursos da nova tecnologia ao projeto pedagógico do curso. Apesar de fomentar o lúdico, a Realidade Virtual não deve ser tratada apenas como um recurso recreativo em sala de aula.

A outra questão importante diz respeito aos custos da adoção da tecnologia. Embora a Google ofereça seus óculos a baixo preço e grande parte do material produzido estar sendo disponibilizado gratuitamente para escolas, resiste a necessidade de se dispor de um smartphone para executar a tecnologia, o que dificulta a adoção da Realidade Virtual nas redes públicas do país.

A tecnologia da Realidade Virtual aplicada à nova educação do Sec XXI já é um fato, este sim, real. Mas até quando o seu custo será considerado inviabilizador da democratização do ensino de qualidade e da inclusão?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Realidadevirtual #IA #blogdosoler


A TECNOLOGIA E O FIM DO EMPREGO

julho 16, 2018

Atualmente, a adoção de novas tecnologias no ambiente da produção e do trabalho tem sido associada às palavras mudança e disruptura, numa alusão à travessia ao novo, ao mais adaptado e ao melhor – a Indústria 4.0 veio para ficar. Nessa nova era, a tecnologia avança rapidamente sobre o emprego e devora postos de trabalho com apetite voraz.

Preocupação com o futuro do mercado de trabalho

Uma visão do que será o mercado de trabalho daqui a alguns anos assusta trabalhadores, sindicalistas, dirigentes públicos e entidades não governamentais, preocupados com o que será feito com hordas de pessoas sem emprego formal e, consequentemente, sem renda, no mundo. No Brasil, já se contam 13 milhões de desempregados, muitos deles não nativos e desatualizados tecnologicamente e, por isso, encontram dificuldades para retornar ao mercado de trabalho tal como o conheciam há tempos atrás.

A competição dos robôs por postos de trabalho

Alguns exemplos significativos, oriundos dos EUA, ilustram essa perspectiva: caminhões autônomos já cruzam o país, de costa a costa, experiência que ameaça o emprego de milhões de trabalhadores envolvidos com o transporte terrestre de pessoas e de cargas no mundo. O Porto de Los Angeles já opera integralmente sem a ajuda de Estivadores que, outrora, chegaram a somar mais de 16 mil empregados. A Amazon já opera todos os seus armazéns e centros de distribuição por meio de milhares de robôs programáveis, provocando a demissão de mais de 170 mil postos de trabalho nos últimos anos. A indústria automobilística já está quase que integralmente automatizada por robôs, assim como a FoxCom, fabricante do iPhone, que anunciou estar substituindo todos os seus funcionários humanos por robôs em suas fábricas na China. Ainda da China, percebe-se a substituição do homem pela máquina também no segmento da construção civil, através da adoção massiva de construções impressas, de fabricação e montagem de pré-moldados padronizados e com o uso de sensores automatizados em substituição a inspeções tradicionais.

Previsão apocalíptica

Numa visão estritamente econômica, o barateamento exponencial da tecnologia da informação e da robótica viabilizam a substituição da mão de obra humana operacional por robôs de controle automático, proporcionando a extinção de postos de trabalho e do emprego, criando uma visão catastrófica para o futuro do emprego e da humanidade.

Alguns dirão que essa previsão apocalíptica já foi experimentada antes, durante a revolução industrial, quando o artesão perdeu seu lugar para a máquina a vapor e para as linhas de produção, e que tudo se trata apenas de uma questão de ajuste e acomodação das habilidades do trabalhador às novas necessidades. Há ainda quem prefira considerar a situação sob a ótica do otimismo ingênuo, baseado na crença de que tudo se ajusta e se resolve naturalmente, devido a incapacidade de superação humana pela máquina – o ser humano não é, ainda, capaz de brincar de Deus e dotar a máquina de sua inteligência e humanidade.

Novas teorias sociais e econômicas

Extremismos a parte, o emprego, como fonte de geração de renda individual e de sustento familiar, nunca esteve tão ameaçado quanto tem sido atualmente, proporcionando campo fértil para a criação de novas teorias sociais e econômicas, incluindo aquelas que pressupõem o fim do trabalho humano braçal e operacional, abrigo de profissionais pouco qualificados, a prevalência do trabalho criativo de alta especialização e a remuneração assistencial da ocupação pelo ócio. Soluções que, apesar de oferecerem encaminhamentos adequados, tendem a gerar efeitos colaterais danosos, por exemplo, no que tange à discriminação entre os trabalhadores qualificados criativos e os ociosos mantidos pelo estado.

A demonização da tecnologia

De qualquer modo, a tecnologia não deveria ser demonizada por provocar ruídos na estabilidade do modelo vigente de emprego pois, por outro lado, dela advém novas possibilidades e perspectivas de trabalho diferentes e nem sequer imaginadas. O trabalho, a ocupação e as profissões serão outras, não comparáveis ao que experimentamos no passado e no presente. Sem mencionar ainda, as melhorias significativas, decorrentes de sua adoção e em favor do ser humano, aos problemas da fome, da saúde, da expectativa e da qualidade de vida, da segurança, etc.

Educação – o alicerce da edificação da nova sociedade

Apostando em uma perspectiva otimista, resta tecer considerações sobre um dos fatores que compõe o modelo geral de previsão do futuro do emprego – a Educação. Poderia ser ela o alicerce sobre o qual se edificaria uma nova sociedade e novos modelos sociais e econômicos que regulariam as relações evitando caos e catástrofe?

Trazendo a discussão para a realidade do Brasil, é notória a complexidade de se educar e se aculturar uma sociedade já tão defasada e desprovida de competência no assunto. Seria factível contar com essa Educação em extensão e prazo compatíveis aos “estragos” proporcionados ao emprego pela adoção das novas tecnologias? Uma sociedade que não conseguiu erradicar o analfabetismo e cujas estatísticas de analfabetismo funcional são alarmantes, seria capaz de reverter suas deficiências e se posicionar aceitavelmente na nova era da Indústria 4.0?

Se as respostas forem positivas, urge a ação prioritária de estender a educação aos brasileiros de modo massificado e disruptivo, com a mesma voracidade que vimos adentrar a tecnologia em nossas vidas. Só com educação sustentaremos a nossa sociedade.

Prioridade na pauta das discussões

Deve-se sim, priorizar as discussões sobre o futuro do emprego e sobre a educação mais adaptada à nova era, na pauta da sociedade, proporcionando a criação de políticas públicas afirmativas capazes de enfrentar o problema de forma ampla e eficaz. E que se faça uso da própria tecnologia em apoio à busca e ao encaminhamento dessas soluções.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Tecnologia #Trabalho #Emprego #Gestão #Blogdosoler


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: EDTECHS, SOLUÇÃO E OPORTUNIDADE

julho 11, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica Project Design Management – https://projectdesignmanagement.com.br/blog/edtechs-solucao-e-oportunidade/

A tecnologia é a base das mudanças que vêm acontecendo na educação de modo global representadas pelo foco no processo de aprendizagem individualizada do aluno, respeitando suas diferenças neuro e psicológicas; pela significação dos conteúdos baseada na realidade geográfica e social do aluno; pela disponibilização ampla do acesso à educação de qualidade em qualquer lugar e em qualquer tempo (on-learning) e pelo aprendizado contínuo durante toda a vida (long life learning)…

Continue a ler em https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

Gostou do artigo? Deixe seus comentários, compartilhe com os amigos e acompanhe semanalmente o Blog do Soler pela plataforma WordPress, ou pelo Facebook e LinkedIn.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Inteligenciaartificial #IA #blogdosoler

 


OBRAS PARALISADAS – UMA PAUTA NACIONAL

julho 8, 2018

Estatísticas oficiais do Ministério do Planejamento (Junho/2017) revelaram 2.796 obras paralisadas no Brasil que, na época, já haviam consumido mais de R$ 10,7 bilhões, deixando de oferecer qualquer benefício ou retorno devido à sociedade. Destas, 18,5% (517) referem-se a obras de infraestrutura (Saneamento, Aeroportos, Ferrovias, Hidrovias, Obras de Mobilidade Urbana, Portos e Rodovias), muitas das quais (191) foram paralisadas próximas de sua conclusão com grau de execução superior a 50%.

Diálogo da Indústria com os Candidatos à Presidência da República

O tema foi incluído em um conjunto de propostas elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e entregue, na última quarta-feira (04/julho) aos Candidatos à Presidência da República. A gravidade do problema expõe a ineficiência da gestão pública no trato dos investimentos em infraestrutura e sugere a inclusão do tema na pauta estratégica das prioridades nacionais.

O documento esclarece que os principais motivos das paralisações de obras referem-se a problemas técnicos, abandono pelas empresas e dificuldades orçamentárias/financeiras, e recomenda 6 medidas para fazer frente ao problema, tanto dos projetos já iniciados que necessitam de um equacionamento imediato, quanto da mitigação do risco de paralisação de novos projetos. São elas:

1. Macroplanejamento

O documento menciona a atual precariedade do planejamento prévio de engenharia, prazos e riscos durante a seleção dos projetos, impactando na superficialidade das estimativas de seus custos e benefícios. Recomenda que o governo desenvolva melhores mecanismos de macroplanejamento multianual, envolvendo o controle social da decisão de viabilidade e atratividade dos projetos, assim como a consideração de diretrizes setoriais público-privadas, mitigando interferências políticas na seleção dos projetos.

2. Seleção da modalidade de execução do projeto

O documento menciona a atual falta de objetividade na justificativa de escolha do arranjo organizacional dos projetos. Sugere que a escolha da modalidade de execução do projeto, tal como uma obra pública, contratação integrada, concessão, PPP, etc. seja precedida de estudos objetivos de viabilidade, discutidos e tratados de forma transparente, adequada e nas esferas apropriadas de governo.

3. Microplanejamento

O documento recomenda atenção especial ao planejamento detalhado das obras em termos de seus projetos de engenharia, cronogramas, orçamentos, fontes de financiamento e avaliação de riscos, etc., extensível ao planejamento das desapropriações, das licenças ambientais e das potenciais interferências com os demais órgãos públicos intervenientes, assim como, o equacionamento das despesas e das responsabilidades de operação após a fase de inversão.

4. Fortalecimento das equipes responsáveis pelos projetos

O estudo sugere que as equipes de projeto sejam fortalecidas em termos de recursos humanos, softwares e equipamentos, potencializando melhorias no planejamento e no controle dos projetos.

5. Equilíbrio contratual

O estudo recomenda atenção na elaboração dos contratos evitando cláusulas e ponderações financeiras de serviços que potencializem desequilíbrios e, consequentemente, a geração de reinvindicações e litígios judiciais, assim como, o abandono intempestivo das obras pelas empresas contratadas.

6. Fortalecimento do controle interno

O estudo menciona o mau funcionamento dos órgãos de controle interno das instituições executoras como um problema potencial aos atrasos e custos adicionais observados. Recomenda, portanto, o fortalecimento desses órgãos e o estreitamento de suas relações com órgãos de controle externo.

Enfim…

O documento da CNI entregue aos presidenciáveis, em parte, fortalece a tese defendida por este blog que faz o advocacy da sociedade em favor de maior eficiência no trato com os investimentos públicos em obras. Por outro lado, o documento não oferece qualquer proposta diferente que fuja do conservadorismo típico do segmento, que se possa ser caracterizada como inovadora e que, realmente, traga algum alento à solução do problema.

Peca a CNI ao flertar com o aumento do poder de órgãos de controle interno e externo, esquecendo-se de mencionar que a burocracia imposta por tais instituições também são apontadas como causas relevantes de atrasos e paralisações de obras públicas. Não apenas isso, mas também, a rigorosidade como são tratados os desvios naturais de execução das obras pelos órgãos de controle, tende a promover o constrangimento do agente público contratante e a consequente judicialização da gestão contratual, desconsiderando o fato de que o planejamento de uma obra de infraestrutura, por melhor que seja realizado, ainda se constitui num exercício sujeito a imprecisões e a mudanças decorrentes de premissas e condições adotadas.

Peca ainda a CNI ao não levantar a bandeira da imediata adoção de novas tecnologias no encaminhamento do problema. A era da indústria 4.0 já está presente nos meios e modos de gestão do segmento da construção internacional e, atualmente, tende a ser visto como principal aliado da pacificação das relações entre o poder público contratante e interveniente, e seus contratados privados, potencializando a garantia de maior eficiência das obras, maiores retornos e benefícios à sociedade e ao contribuinte.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Construção #Obraspúblicas #Engenharia #Gestão #Blogdosoler

 


O PROFESSOR ARTIFICIAL

julho 3, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica Project Design Management – https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

 

Em pleno debate sobre a Educação do século XXI, muito se especula sobre o papel do novo Professor e sua provável (??!!) substituição pela máquina dotada de Inteligência Artificial (IA). Em primeiro lugar, é importante frisar que perspectivas “catastróficas” nesse sentido ainda não encontram respaldo na tecnologia vigente e muita água ainda terá que rolar antes que um algoritmo aprendente, por melhor que tenha sido programada a sua evolução, consiga superar as singularidades humanas no papel de mediador de linguagens e oportunidades educativas…

 

CONTINUE A LER EM: https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Inteligenciaartificial #IA #blogdosoler


“CODE IS LAW” – A POLÊMICA DO HOMEM DEMITIDO PELA MÁQUINA

julho 1, 2018

Esta semana foi marcada pela polêmica envolvendo a demissão injustificada de Ibrahim Diallo, um desenvolvedor de software de Los Angeles, CA. Por esquecimento, seu chefe não renovou o contrato no novo sistema da empresa, disparando assim, um processo automático e implacável de demissão à revelia da vontade de ambos (https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-44600350).

A polêmica

Três semanas após o ocorrido, Diallo foi reincorporado pela empresa que reconheceu os erros e a imprudência do sistema. Vitimado pelas circunstâncias, Diallo acusou a máquina de “desalmada” e de o tratar com “sede de sangue”, aproveitando a trama para lançar um alerta sobre os perigos da automação e da relação homem-máquina.

O sistema no banco dos réus

Não tardou até que a “máquina” fosse conduzida à condição de ré pelas redes sociais, propiciando debates acalorados em sua defesa e acusação.

Pelo lado da defesa, tecnólogos argumentam que a “máquina” apenas cumpriu aquilo que estava programado e que as falhas percebidas foram, de fato, falhas de origem humana, decorrentes do descumprimento de uma regra explícita do processo, o que levou o sistema a disparar, previsivelmente, uma sequência automática de atividades operacionais que culminaram no “gancho” de Diallo por 3 semanas em casa até que o “estrago” fosse corrigido: cancelamento do acesso ao prédio e ao restaurante, cancelamento de acesso aos sistemas corporativos, exclusão da matrícula da folha de pagamento, pagamento de direitos trabalhistas, encaminhamento legal da demissão, etc. – o custo do estrago foi grande!

Por outro lado, a acusação alega a frieza do encaminhamento dado pela “máquina” no trato de tema tão complexo quanto a demissão de um funcionário – pragmatismo mudo que não possibilitou a manifestação dos protagonistas, nem a consideração de alternativas intermediárias de curso de ação ou redundâncias, desafiando a essência humana da tomada de decisão.

Os defensores da “máquina” contra argumentaram discordando de sua culpa no ocorrido, alegando que a suposta falta de “humanidade” devesse ser atribuída ao designer dos processos da empresa que automatizou decisões e rotinas operacionais.

Os smartcontracts – “code is law”

Na verdade, no centro da história da demissão de Diallo reside a automação de um workflow simples que pode ser entendido como um smartcontract, códigos de computador programados para serem executados de modo independente e autônomo, capazes de automatizar rotinas burocráticas (ações e decisões) relativas a múltiplas partes, a partir de regras acordadas e informações geradas por sensores tecnológicos, sem a interferência subjetiva humana, potencializando rapidez, objetividade e confiança no cumprimento de condições pré-estabelecidas.

O princípio que garante a credibilidade dos smartcontracts é o “code is law”, ou seja, o algoritmo programado se constitui na regra, transparente e imutável, do que será, objetivamente, executado pela “máquina”. A observância do “code is law” nos sistemas de recursos humanos, em geral, pode ser vista como um avanço nas relações trabalhistas, tal como no caso mencionado, uma vez que impede preferências subjetivas, preconceitos e favorecimentos, e privilegia condições igualitárias de trabalho, independentemente da identificação do funcionário.

A singularidade já começou

Outra vertente do debate prefere se ater à adoção da Inteligência Artificial (IA) nos sistemas de gestão das empresas e nas perspectivas ficcionistas e catastróficas da extremização dessa prática. Diferentemente dos smartcontracts que obedecem de modo autônomo a um código programado, a IA consiste no processo de aprendizado e incorporação de informação pela “máquina”, através de capacidades cognitivas e analíticas programadas.

O matemático John von Neumann na década de 1950 já profetizava o fim da singularidade da raça humana quando confrontada com as mudanças aceleradas decorrentes do progresso tecnológico. Neumann foi seguido por outros pesquisadores e autores que, cada vez mais enfaticamente, profetizam o fim da era humana com o avanço tecnológico das superinteligências dos computadores – a teoria da singularidade tecnológica.

Com a palavra…

Uma das mentes mais brilhantes da nossa era, o astrofísico Stephen Hawking diz temer que as máquinas de inteligência artificial evoluam a ritmo muito superior ao dos humanos, e que isso pode levar, em última instância, à extinção da nossa espécie.

Grandes nomes atuais da tecnologia também engrossam o debate sobre profecias apocalípticas relacionadas à inteligência artificial. Elon Musk, CEO e fundador do Paypal, da SpaceX e de outras empresas de tecnologia de ponta, uma das maiores referências atuais quando o assunto é inovação disruptiva, afirmou sem rodeios que o avanço desenfreado da inteligência artificial “é um risco para a existência da nossa civilização” e “mais perigoso do que armas nucleares”.

Por outro lado, há quem acredite que essas visões extremamente pessimistas são irresponsáveis. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, é um exemplo. Ele defende que quem argumenta contra a tecnologia e a inteligência artificial está, de fato, argumentando contra carros mais seguros, contra melhores diagnósticos de doenças, contra a solução da fome no mundo, etc. A fala de Zuckerberg foi dirigida, especificamente, a Elon Musk que, alimentando a confrontação pessoal, se limitou a responder que o entendimento do CEO do Facebook sobre o assunto é … limitado.

A relação “homem-máquina”

Enfim, voltando à demissão de Ibrahim Diallo pela “máquina”, tendo sido realizada por um simples workflow automatizado, ou por um smartcontract alimentado por sensores automáticos e processado através de algoritmos aprendentes de inteligência artificial, o fato é que o hiato entre as perspectivas de benefícios e os riscos da inovação tecnológica é tênue e, cada vez mais, a relação “homem-máquina” será desafiada pela humanidade intrínseca do homem, … assim como, pela infinita capacidade de humanização que vem sendo dada, pelo homem, à máquina.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Gabriel Diniz, Bacharel em Ciência da Computação pelas Faculdades Integradas de Caratinga, Gerente de Desenvolvimento de Sistemas na Rede Doctum de Ensino – gabriel.antn@gmail.com

#Inovação #Smartcontracts #Inteligenciaartificial #IA #Blogdosoler


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: AS EDTECHS E A REVOLUÇÃO EM CURSO NA EDUCAÇÃO

junho 27, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica MUNDOPM:

http://projectdesignmanagement.com.br/blog/edtech/

RESUMO: O movimento revolucionário de conquista da educação pela tecnologia já está em curso. A extensão, a rapidez e a profundidade dos benefícios potenciais da introdução das inovações tecnológicas na Educação possibilitam vislumbrar o futuro da própria educação que, certamente, vem pautado pela disposição de incríveis novos aparatos tecnológicos.

Gostou do texto? Deixe seus comentários, compartilhe com os amigos e acompanhe semanalmente o Blog do Soler pela plataforma WordPress, ou pelo Facebook e LinkedIn.

#Educação #Inovação #Edtechs


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: AS DIMENSÕES DA INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO DO SEC XXI

junho 27, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica MUNDOPM:

http://projectdesignmanagement.com.br/espaco-aberto/dimensoes-da-inovacao-na-educacao/

RESUMO: O debate sobre a nova educação e as inovações incrementais e disruptivas que estão e vão estimular a sua mudança está aberto. Tudo é potencialmente viável, tudo está por fazer, tudo pode ser visto sob a ótica controversa da relação benefício-custo e nada ainda é verdade. Entretanto, o segmento deve se colocar em marcha. Vale aqui a máxima de que “quem não muda, dança”.

 

Gostou do texto? Deixe seus comentários, compartilhe com os amigos e acompanhe semanalmente o Blog do Soler pela plataforma WordPress, ou pelo Facebook e LinkedIn.

#Educação #Inovação #Edtechs

 


CONSTRUTECHS NA NUVEM, “AS A SERVICE”

junho 24, 2018

XaaS (“Anything as a Service” – pronuncia-se “Zaaz”), ou “tudo como serviço” é um conceito e uma tendência estratégica de negócios do mundo da Tecnologia da Informação que altera o modo de entrega de seus produtos – estes, deixam de ser comercializados como produtos físicos, tais como licenças de software e hardware, para serem ofertados como serviços, disponíveis na nuvem (“cloud computing”) e pagos através de contratos sob demanda.

Vantagens e desvantagens do Xaas

Essa tendência altera a contabilização dos recursos de TI que deixam de ser tratados como ativos de investimentos, inseridos no CAPEX da empresa, e passam a ser geridos como despesas do fluxo de caixa. Assim, a grande vantagem do XaaS, para quem contrata os serviços, reside na contenção de investimentos e a desimobilização de ativos, associados ao recebimento de serviços especializados e constantemente atualizados, pagos a preços razoáveis. Por outro lado, a principal desvantagem, aponta para o aumento das despesas correntes que oneram o fluxo de caixa mensal – um deslize nesse quesito tende a inviabilizar a empresa.

SmartContracts

Um contrato de serviços executado através da nuvem, garante às partes a observação estreita das condições negociadas de modo autônomo através da própria tecnologia, um perfeito exemplo de SmartContract, tal como este tem sido abordado nos últimos posts deste blog. Por um lado, o pagamento do preço acordado, na periodicidade acordada permite a continuidade na prestação de serviços, ou a sua interrupção, em caso contrário. Por outro lado, questões relacionadas ao desempenho dos serviços contratados, suas integrações, questões de segurança e de suporte técnico asseguram ao contratante o nível de serviços contratado.

Serviços padronizados e parametrizáveis

O ecossistema das startups, particularmente daquelas voltadas à indústria da construção, tende a se beneficiar e se orientar para a prestação de serviços padronizados e parametrizáveis, através da nuvem (“as a service”). Perceba que o adjetivo “padronizado”, não impõe uma limitação ao escopo contratado, mas sim, à possibilidade de customização do serviço contratado aos parâmetros demandados, permitindo a mediação remota da tecnologia e a digitalização intensiva da gestão (com todas as suas vantagens e desvantagens intrínsecas), desvinculadas do contato físico e subjetivo humano.

Construtechs na nuvem, “as a Service”.

É o caso, por exemplo, de se conceber a modelagem e a compatibilização dos projetos de arquitetura e engenharia como serviços ofertados na nuvem, ou ainda, serviços de procura, compra e a contratação de recursos (equipamentos e materiais) adequados e a menor custo para as obras, ou ainda, serviços remotos de automação dos canteiros através de dispositivos móveis e sensores vestíveis inteligentes, assim como, serviços de gestão dos contratos e de documentos, etc.

A tendência da construção se desloca da disposição concentrada de funcionários para a agregação de serviços integrados contratados na nuvem e pagos sob demanda.

O céu é o limite

Inovação tecnológica tem sido considerado o pavimento firme para o futuro do segmento da construção, capaz de garantir maior eficiência, transparência e lisura nas operações técnicas e de gestão.

Mas o fundamento de qualquer inovação tecnológica está associado a escalabilidade exponencial da ideia. Não é qualquer epifania empreendedora que alavancará um protótipo, e aqui reside a oferta remota de serviços na nuvem (“as a service”) como facilitadora do processo de viabilização das Construtechs.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Gostou do artigo? Deixe seus comentários, compartilhe com os amigos e acompanhe semanalmente o Blog do Soler pela plataforma WordPress, ou pelo Facebook e LinkedIn.

#Construção #Inovação #Construtechs


UMA FICÇÃO SOBRE INOVAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

junho 17, 2018

A cadeia de valor da indústria da construção civil está mudando exponencialmente ao mesmo passo do que se observa na sociedade e seus impactos na economia. O tratamento cognitivo de grandes massas de dados gerando informação, a personalização de produtos, serviços e de relacionamentos, a conexão global e em tempo real, a desimobilização do capital e o compartilhamento de ativos impõem a disruptura do modelo de negócios vigente e trazem o novo à tona. No alicerce dessa transformação reside a disposição rápida e barata da tecnologia que fomenta e dá sustentação à inovação.

Este texto escrito em forma de uma história de ficção pretende ilustrar a extensão e o poder da inovação tecnológica na integração do ecossistema da construção civil, passando pela cadeia da incorporação, marketing, engenharia, construção, financiamento, securitização, registro e legalização de ativos.

Tudo começa…

Nossa história começa no dia em que Max postou nas redes sociais que Adèle lhe pediu em casamento, e ele aceitou.

… dois anos antes…

Na verdade, nossa história não começa aí. O verdadeiro início, numa das vertentes de observação, reside na contratação de um serviço de avaliação e modelagem estatística da previsão da mobilidade econômica da cidade por uma Incorporadora. Dados sócio, ambientais e econômicos, georreferenciados, foram integrados a bases de dados disponíveis de disposição de serviços público, zoneamento urbano e de tendências sócio políticas. De posse do relatório que previa o deslocamento econômico urbano para áreas potenciais, a Incorporadora contratou uma empresa de land hunting (busca de terrenos) através de drones para encontrar espaços de compra. Com uma área adquirida, a Incorporadora contratou estudos sociológicos sobre o comportamento geracional do público alvo potencial daquela nova região, elaborou um projeto arquitetônico que se ajustava às características da demanda e lançou o empreendimento.

… de volta ao casal…

Ao anunciar o casamento pelas redes sociais, as informações disponíveis, pessoais e profissionais, de Max e Adèle foram capturadas e analisadas por uma empresa de inteligência digital de mercado. Diferentes bases de dados, estruturados e desestruturados, foram integradas por Cientistas de Dados e apontaram o casal como potencial comprador daquele empreendimento específico: a renda conjunta do casal era compatível, a localização era próxima do local de trabalho de ambos e o ambiente do bairro era condizente com o perfil descolado e inovador do casal. Hobbies e gostos específicos do casal foram utilizados na pesquisa e a frequência constante a um barzinho de cervejas artesanais na região do empreendimento foi considerado evento significativo na modelagem da oferta.

… a proposta.

Foi uma surpresa para ambos quando receberam individualmente uma proposta comercial, especificamente dirigida aos seus nomes, destacando aspectos que lhes pareciam interessantes na região, apontando a distância ao local de trabalho de ambos, as opções de transporte, valores compatíveis com sua renda e opções de financiamento pré-aprovado que levavam em conta o seu perfil de crédito já ajustado ao seu comportamento psicológico de compra e risco calculado de distrato. Uma proposta personalizada irrecusável, elaborada pela Incorporadora a partir de alternativas recebidas de empresas de marketing digital, financeiras e um escritório de advocacia que fazem uso de computação cognitiva e inteligência artificial.

… o acompanhamento da obra – um novo hobby.

Enquanto aguardavam a data do casamento, Max e Adèle acompanhavam o avanço da construção de seu primeiro imóvel através de sensores inteligentes remotos colocados em pontos específicos da obra e que alimentavam um modelador 3D e um cronograma, disponibilizados para eles através da internet, a qualquer instante e em qualquer lugar. O casal sabia, exatamente, a situação da construção do empreendimento, como um todo, e a de sua unidade, em específico. Adoravam ficar assistindo à evolução de sua unidade, desde a construção da laje, o fechamento da fachada, a alvenaria, as instalações, etc. Conferiam rigorosamente, pela internet, a metragem construída, o uso de tubulações, cerâmicas, fiação, metais e louças conforme as marcas combinadas que constavam no memorial descritivo e sempre tiravam dúvidas com seu representante na obra. O sistema disponibilizado permitia ainda ao casal tirar fotos antecipadas do interior de seu futuro apartamento durante a obra, através de tecnologia de realidade aumentada e realidade virtual, experimentando opções de arquitetura de interiores oferecidas à eles por escritórios de arquitetura parceiros da Incorporadora. Max e Adèle compartilhavam sua alegria pelas redes sociais e isso ajudava a Incorporadora a entender mais sobre eles, seu grau de satisfação e o de seu grupo de amizades, cuja compatibilização de perfil era constantemente monitorada para um ou outro novo empreendimento da empresa.

… a gestão da construção.

Invisível aos olhos do casal, o contrato da Incorporadora com a Construtora e demais contratos de fornecimento e prestação de serviços também eram administrados com a mediação de tecnologia. Todos os projetos foram compatibilizados pelo modelador 3D e desdobrados no cronograma (4D) e no orçamento da obra (5D). A obra foi concebida pré-moldada e o fornecimento das partes foi contratado e monitorado em tempo real através de sensores inteligentes que acompanhavam o pedido nas diferentes fábricas localizadas no país e no exterior. A produção remota das partes, o embarque e a chegada no canteiro foram “puxadas” conforme o cronograma de construção enxuta e geravam marcos instantâneos de atualização do cronograma, atualização do modelador, gerador de medições e realização de pagamentos, tudo via smartcontracts.

… customização da unidade, financiamento e securitização.

A Incorporadora ofereceu ainda ao casal a possibilidade de customização das áreas de sua unidade. Revestimentos, pisos, banheiros e cozinha foram oferecidos em opções customizáveis elaboradas de modo parametrizável às dimensões do ambiente por fornecedores específicos. Ofertas adicionais de customização foram acompanhadas por opções de crédito e seguros adicionais pré-aprovados e com taxas compatíveis com as disponibilidades e perfil de risco do casal.

… legalização cartorária.

Na entrega das chaves, Max e Adèle assinaram um contrato de disposição conjunta do imóvel. O cartório foi substituído pela expressão de transparência e confiança na blockchain, onde toda a história do apartamento foi registrada em blocos distribuídos, imutáveis e rastreáveis de informação, desde o projeto arquitetônico, os cálculos de engenharia, o material utilizado, o acompanhamento da obra, os contratos executados e os pagamentos realizados. A unidade 503 do bloco B, construída pela Incorporadora e comprada, inicial e solidariamente por Max e Adèle, passou a figurar na nuvem como uma entidade digital – a sua história foi registrada de modo transparente e está aberta a ser complementada pelo futuro histórico que lhe couber.

… felizes para sempre!

A entrega das chaves aconteceu dois meses antes da data do casamento e o casal foi feliz durante os dois anos que se sucederam. Certo dia, Adèle postou nas redes sociais que estava grávida. Coincidentemente, ela e Max receberam uma nova proposta de um imóvel maior, com playground e próximo de boas escolas… e a história se repetiu.

Ficção? #sqn – só que não!

Apesar do conservadorismo típico da indústria da construção, as inovações tecnológicas que a cercam florescem de modo exponencial. O ecossistema das startups de construção (construtechs) exibe uma dinâmica rejuvenescida e energizada capaz de mudar rapidamente o modelo de negócios atual. Aliás, a ficção de Max e Adèle não é mais um exercício de futurologia, ela já é real e, certamente, está presente e influenciando a sua própria história, Leitor.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Construção #Inovação #Construtechs


INOVAÇÃO EM PROJETOS DE CAPITAL – APENAS UMA TENDÊNCIA OU UMA REALIDADE?

junho 14, 2018

Texto preparado para fomentar discussões no evento AACE INOVAÇÃO EM PROJETOS DE CAPITAL – APENAS UMA TENDÊNCIA OU UMA REALIDADE? (07 de junho de 2018 – São Paulo, SP)

O que é o protocolo da confiança?

O protocolo da confiança (cadeia de blocos – “blockchain”) é uma plataforma tecnológica inovadora de transação descentralizada de dados, concebida para serem processadas as operações realizadas com a criptomoeda Bitcoin na internet, garantindo transparência, imutabilidade, rastreabilidade e segurança a todos os registros realizados.

Apesar da lenda de Satoshi Nakamoto e do mistério que ronda a sua criação, é tamanha a sensação da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain que as pessoas se sentem confortáveis em transacionar e entregar ativos, assim como vender produtos e serviços pela internet, por meio de criptomoedas, mesmo estando à distância e sem contato físico ou conhecimento mútuo entre das partes envolvidas.

Essa confiança na segurança proporcionada pela Blockchain às transações de dados pela internet tem proporcionado a perspectiva da extensão ampla das aplicações da plataforma para além das fronteiras das transações monetárias com o Bitcoin ou outras criptomoedas, incluindo aí, inclusive, a confiança na lisura do processamento de eleições nacionais, tal como, em março deste ano, foi testado nas eleições de Serra Leoa.

O que são os Smartcontract?

Um apêndice valoroso que acabou se valendo da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain são os Smartcontracts (contratos inteligentes ou contratos digitais). Estes, são programas de computador auto executáveis capazes de automatizar rotinas burocráticas simples e que podem ser processadas dentro da plataforma da Blockchain sem a interferência humana, potencializando assim credibilidade e confiança no cumprimento do objeto e das condições do contrato pelas partes.

Como ilustração imagine que você adquire um aplicativo para o seu smartphone e decide pelo pagamento parcelado. Caso você fique inadimplente, pode acontecer do programa disparar um comando de bloqueio do seu aplicativo, automaticamente, em cumprimento das cláusulas contratuais acordadas, sem a interferência humana.

Ou ainda, imagine que você é pego por excesso de velocidade por um radar inteligente que fotografa o seu carro, transforma a imagem em dados e lê a sua placa, levanta suas informações cadastrais e, imediatamente, envia um documento bancário de multa para sua residência, inserindo ainda a pontuação da penalidade em seu prontuário de motorista e contabilizando a sua dívida nos sistemas da prefeitura. Percebam que em ambos os casos o programa de computador, de forma automática e autônoma, operacionalizou todo o processo de um “pseudo contrato” digital, o primeiro relativo à aquisição de um serviço, o segundo relativo ao cumprimento de uma lei.

Inovações tecnológicas, incrementais ou disruptivas, no ambiente da construção

No segmento da construção, os Smartcontracts operando sob a plataforma Blockchain, encontram infinitas possibilidades de aplicações que servem de solução para problemas atuais de ineficiência e potencializam a lisura das operações.

Obviamente, o fundamento básico dessas possibilidades advém da introdução de inovações tecnológicas, incrementais ou disruptivas, no ambiente da construção que têm possibilitado a automação dos canteiros de obras por meio de: modelagem e  compatibilização de projetos através do BIM; fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis, sensores vestíveis inteligentes, o rastreamento de ferramentas; aplicações da Internet das Coisas (IoT), da realidade virtual e aumentada, de aplicativos e de drones; controle do ritmo produtivo e o monitoramento de procedimentos para a realização eficiente do trabalho; gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

A amplitude da aplicação dos SmartContracts e da Blockchain

Como ilustração, pode-se conceber um Smartcontract entre um prestador de serviços e seu contratante, operacionalizado através de sensores inteligentes móveis instalados próximos ao local da obra. Este se encarregaria de enviar sinais da evolução física e do controle tecnológico (qualidade) para o modelador 3D que, automaticamente, e à distância, avaliaria a conclusão e o ritmo da obra, processando a liberação de medições e o pagamento ao prestador de serviços, sem a interferência humana e a necessidade da presença física da fiscalização. O tráfego dos dados seria feito através da Blockchain, garantindo a transparência, a eficiência e a rastreabilidade da transação e minimizando indisposições entre as partes, pleitos e litígios judiciais.

Nessa mesma linha, pode-se conceber ainda os Smartcontracts atuando no recebimento, retirada e controle de estoque de materiais e ferramentas nos canteiros (KANBANS eletrônicos), controle de quantidades e produtividade de efetivos de mão de obra disponibilizados pelos prestadores de serviços, controles tecnológicos, registro e controle de condições ambientais impactando no ritmo e produtividade do avanço físico, etc. Enfim, toda e qualquer transação operacional simples que, atualmente, vem sendo realizada por indivíduos passíveis de interpretações subjetivas, erros e ilícitos, poderiam ser substituídas por operações automáticas, transparentes, públicas, rastreáveis, seguras e confiáveis, realizadas através da Blockchain.

Impactos na Gestão Contratual

A introdução de tecnologias que tornam passíveis de acordos, via Smartcontracts, as cláusulas contratuais tendem a se estender pelas operações de monitoramento e controle da obra, tais como: (a) avanço físico e processamento das medições, multas e penalidades; (b) interferências no cronograma provocadas por mudanças no planejamento previsto, reprogramações, presença de obstáculos, atividades operacionais programadas, acidentes, etc.; (c) cumprimento das obrigações contratuais sob a responsabilidade das partes, tais como a liberação de áreas e acessos, o fornecimento de autorizações e licenças, o controle de resíduos, o fornecimento de projetos de Engenharia, a liberação de frentes de serviço, etc.; (d) condições gerais de execução, tais como, as características geotécnicas das áreas designadas, a disposição de recursos fornecidos pelas partes, as condições ambientais, as exigências de qualidade e de SSMA, o controle de ativos e de efetivos alocados na obra, a elaboração de diário de obras e de data books, entre outros…

O advocacy dessa intermediação tecnológica fica ainda muito mais claro quando se considera o ambiente das obras públicas. Some-se a isso as perspectivas de eficiência na operação das obras, com ganhos na redução de custos e despesas, qualidade e celeridade das entregas, impactando positivamente a geração de empregos, renda e os cuidados ambientais.

Que venha o futuro. Vida longa aos Smartcontracts e à Blockchain!

As inovações tecnológicas introduzidas pelas Construtechs, os Smartcontracts e a Blockchain, prometem mudar abruptamente o cenário e as relações contratuais da construção. O futuro é uma folha em branco a ser desenhada e tudo ainda está no chão. No que tange às obras públicas, o contribuinte aguarda com alento a chegada desse futuro na esperança de poder usufruir efetivamente dos serviços prestados pelas edificações e pela infraestrutura disponibilizada com a sensação de eficiência e lisura no trato dos recursos que lhe pertencem.

Pauta à um candidato

Em tempo de eleições e considerando um país extremamente dividido em suas posições ideológicas, a pauta do combate à corrupção pandêmica que assola o país, desde que embasada no contexto republicano democrático e fundamentada pelos preceitos da legalidade e da justiça, ganha um significado amplo e irrestrito, capaz de pautar uma agenda comum de diálogo a ser compartilhada pela sociedade, candidatos e partidos políticos.)

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Veja também os posts das últimas semanas…

‘RESKILLING’ DE PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/06/03/reskilling-de-profissionais-de-engenharia-e-construcao/

TECNOLOGIA E EFICIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/27/tecnologia-e-eficiencia-na-construcao/

BIM E A NOVA LEI DAS LICITAÇÕES – PROPOSTAS LEGISLATIVAS PARA A CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/13/obras-paralisadas-uma-questao-de-prioridade-nacional/

BIM EM OBRAS PÚBLICAS

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/20/bim-em-obras-publicas/

OBRAS PARALISADAS – UMA QUESTÃO DE PRIORIDADE NACIONAL

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/13/obras-paralisadas-uma-questao-de-prioridade-nacional/

GESTÃO CONTRATUAL EM TEMPOS DE SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/04/01/gestao-contratual-em-tempos-de-smartcontracts-e-blockchain/

SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN NA CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/03/25/smartcontracts-e-blockchain-na-construcao/

A (R)EVOLUÇÃO DAS CONSTRUTECHS

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/03/11/a-revolucao-das-construtechs/


A AMPLITUDE DA APLICAÇÃO DA BLOCKCHAIN E SMARTCONTRACTS EM CONSTRUÇÃO

junho 10, 2018

Texto preparado para fomentar discussões no evento AACE INOVAÇÃO EM PROJETOS DE CAPITAL – APENAS UMA TENDÊNCIA OU UMA REALIDADE?

07 de junho de 2018 – São Paulo, SP

O que é a Blockchain?

A Blockchain (“o protocolo da confiança”) é uma plataforma tecnológica inovadora de transação descentralizada de dados, concebida para serem processadas as operações realizadas com a criptomoeda Bitcoin na internet, garantindo transparência, imutabilidade, rastreabilidade e segurança a todos os registros realizados.

Apesar da lenda de Satoshi Nakamoto e do mistério que ronda a sua criação, é tamanha a sensação da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain que as pessoas se sentem confortáveis em transacionar e entregar ativos, assim como vender produtos e serviços pela internet, por meio de criptomoedas, mesmo estando à distância e sem contato físico ou conhecimento mútuo entre das partes envolvidas.

Essa confiança na segurança proporcionada pela Blockchain às transações de dados pela internet tem proporcionado a perspectiva da extensão ampla das aplicações da plataforma para além das fronteiras das transações monetárias com o Bitcoin ou outras criptomoedas, incluindo aí, inclusive, a confiança na lisura do processamento de eleições nacionais, tal como, em março deste ano, foi testado nas eleições de Serra Leoa.

O que são os Smartcontracts?

Um apêndice valoroso que acabou se valendo da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain são os Smartcontracts (contratos inteligentes ou contratos digitais). Estes, são programas de computador auto executáveis capazes de automatizar rotinas burocráticas simples e que podem ser processadas dentro da plataforma da Blockchain sem a interferência humana, potencializando assim credibilidade e confiança no cumprimento do objeto e das condições do contrato pelas partes.

Como ilustração imagine que você adquire um aplicativo para o seu smartphone e decide pelo pagamento parcelado. Caso você fique inadimplente, pode acontecer do programa disparar um comando de bloqueio do seu aplicativo, automaticamente, em cumprimento das cláusulas contratuais acordadas, sem a interferência humana.

Ou ainda, imagine que você é pego por excesso de velocidade por um radar inteligente que fotografa o seu carro, transforma a imagem em dados e lê a sua placa, levanta suas informações cadastrais e, imediatamente, envia um documento bancário de multa para sua residência, inserindo ainda a pontuação da penalidade em seu prontuário de motorista e contabilizando a sua dívida nos sistemas da prefeitura. Percebam que em ambos os casos o programa de computador, de forma automática e autônoma, operacionalizou todo o processo de um “pseudo contrato” digital, o primeiro relativo à aquisição de um serviço, o segundo relativo ao cumprimento de uma lei.

Inovações tecnológicas, incrementais ou disruptivas, no ambiente da construção

No segmento da construção, os Smartcontracts operando sob a plataforma Blockchain, encontram infinitas possibilidades de aplicações que servem de solução para problemas atuais de ineficiência e potencializam a lisura das operações.

Obviamente, o fundamento básico dessas possibilidades advém da introdução de inovações tecnológicas, incrementais ou disruptivas, no ambiente da construção que têm possibilitado a automação dos canteiros de obras por meio de: modelagem e compatibilização de projetos através do BIM; fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis, sensores vestíveis inteligentes, o rastreamento de ferramentas; aplicações da Internet das Coisas (IoT), da realidade virtual e aumentada, de aplicativos e de drones; controle do ritmo produtivo e o monitoramento de procedimentos para a realização eficiente do trabalho; gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

A amplitude da aplicação dos SmartContracts e da Blockchain

Como ilustração, pode-se conceber um Smartcontract entre um prestador de serviços e seu contratante, operacionalizado através de sensores inteligentes móveis instalados próximos ao local da obra. Este se encarregaria de enviar sinais da evolução física e do controle tecnológico (qualidade) para o modelador 3D que, automaticamente, e à distância, avaliaria a conclusão e o ritmo da obra, processando a liberação de medições e o pagamento ao prestador de serviços, sem a interferência humana e a necessidade da presença física da fiscalização. O tráfego dos dados seria feito através da Blockchain, garantindo a transparência, a eficiência e a rastreabilidade da transação e minimizando indisposições entre as partes, pleitos e litígios judiciais.

Nessa mesma linha, pode-se conceber ainda os Smartcontracts atuando no recebimento, retirada e controle de estoque de materiais e ferramentas nos canteiros (KANBANS eletrônicos), controle de quantidades e produtividade de efetivos de mão de obra disponibilizados pelos prestadores de serviços, controles tecnológicos, registro e controle de condições ambientais impactando no ritmo e produtividade do avanço físico, etc. Enfim, toda e qualquer transação operacional simples que, atualmente, vem sendo realizada por indivíduos passíveis de interpretações subjetivas, erros e ilícitos, poderiam ser substituídas por operações automáticas, transparentes, públicas, rastreáveis, seguras e confiáveis, realizadas através da Blockchain.

Impactos na Gestão Contratual

A introdução de tecnologias que tornam passíveis de acordos, via Smartcontracts, as cláusulas contratuais tendem a se estender pelas operações de monitoramento e controle da obra, tais como: (a) avanço físico e processamento das medições, multas e penalidades; (b) interferências no cronograma provocadas por mudanças no planejamento previsto, reprogramações, presença de obstáculos, atividades operacionais programadas, acidentes, etc.; (c) cumprimento das obrigações contratuais sob a responsabilidade das partes, tais como a liberação de áreas e acessos, o fornecimento de autorizações e licenças, o controle de resíduos, o fornecimento de projetos de Engenharia, a liberação de frentes de serviço, etc.; (d) condições gerais de execução, tais como, as características geotécnicas das áreas designadas, a disposição de recursos fornecidos pelas partes, as condições ambientais, as exigências de qualidade e de SSMA, o controle de ativos e de efetivos alocados na obra, a elaboração de diário de obras e de data books, entre outros…

O advocacy dessa intermediação tecnológica fica ainda muito mais claro quando se considera o ambiente das obras públicas. Some-se a isso as perspectivas de eficiência na operação das obras, com ganhos na redução de custos e despesas, qualidade e celeridade das entregas, impactando positivamente a geração de empregos, renda e os cuidados ambientais.

Que venha o futuro. Vida longa aos Smartcontracts e à Blockchain!

As inovações tecnológicas introduzidas pelas Construtechs, os Smartcontracts e a Blockchain, prometem mudar abruptamente o cenário e as relações contratuais da construção. O futuro é uma folha em branco a ser desenhada e tudo ainda está no chão. No que tange às obras públicas, o contribuinte aguarda com alento a chegada desse futuro na esperança de poder usufruir efetivamente dos serviços prestados pelas edificações e pela infraestrutura disponibilizada com a sensação de eficiência e lisura no trato dos recursos que lhe pertencem.

Pauta à um candidato

Em tempo de eleições e considerando um país extremamente dividido em suas posições ideológicas, a pauta do combate à corrupção pandêmica que assola o país, desde que embasada no contexto republicano democrático e fundamentada pelos preceitos da legalidade e da justiça, ganha um significado amplo e irrestrito, capaz de pautar uma agenda comum de diálogo a ser compartilhada pela sociedade, candidatos e partidos políticos.)

#Blockchain #Smartcontracts #Construção #Engenharia #Inovação #Construtechs

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Veja também os posts das últimas semanas…

‘RESKILLING’ DE PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/06/03/reskilling-de-profissionais-de-engenharia-e-construcao/

TECNOLOGIA E EFICIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/27/tecnologia-e-eficiencia-na-construcao/

BIM E A NOVA LEI DAS LICITAÇÕES – PROPOSTAS LEGISLATIVAS PARA A CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/13/obras-paralisadas-uma-questao-de-prioridade-nacional/

BIM EM OBRAS PÚBLICAS

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/20/bim-em-obras-publicas/

OBRAS PARALISADAS – UMA QUESTÃO DE PRIORIDADE NACIONAL

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/05/13/obras-paralisadas-uma-questao-de-prioridade-nacional/

GESTÃO CONTRATUAL EM TEMPOS DE SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/04/01/gestao-contratual-em-tempos-de-smartcontracts-e-blockchain/

SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN NA CONSTRUÇÃO

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/03/25/smartcontracts-e-blockchain-na-construcao/

A (R)EVOLUÇÃO DAS CONSTRUTECHS

https://blogdosoler.wordpress.com/2018/03/11/a-revolucao-das-construtechs/A AMPLITUDE DA APLICAÇÃO DA BLOCKCHAIN E SMARTCONTRACTS EM CONSTRUÇÃO


RESKILLING’ DE PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO

junho 3, 2018

O WEF – Fórum Econômico Mundial de Davos 2018, em colaboração com o Boston Consulting Group publicaram o relatório “Towards a Reskilling Revolution” (https://www.weforum.org/reports/towards-a-reskilling-revolution) no qual são expostos os desafios do problema da reciclagem e requalificação dos trabalhadores diante das mudanças provocadas pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas – a 4a revolução industrial.

O conceito de ‘Job family’

O relatório do WEF foi dirigido para a situação do emprego nos EUA e incorpora a nomenclatura adotada pela rede de informação ocupacional (O*NET), desenvolvida sob o patrocínio do U.S. Department of Labor/Employment and Training Administration (USDOL/ETA).  Assim, os resultados do relatório foram classificados por “job families”, ou grupos de ocupações similares, baseadas na especificação do trabalho realizado e em seus requisitos de habilidades, nível de educação formal, treinamentos e certificações. Dentre estas, destacam-se as ‘job families’: (a) Architecture and Engineering; e (b) Construction and Extraction. Consulte a composição das ocupações das ‘job families’ em destaque pelo link: https://www.onetonline.org/find/family?f=17&g=Go

Otimismo com o crescimento de empregos

O primeiro resultado que chama a atenção no relatório diz respeito as projeções 2016-2026 feitas pelo US Bureau of Labor Statistics que, apesar do intenso debate acerca da interrupção de empregos nos mercados globais de trabalho nos próximos anos, preveem um resultado otimista de crescimento estrutural do emprego de 12,4 milhões de novos empregos contra um declínio de 1,4 milhão de empregos redundantes.  Em consonância com os resultados gerais do país, especificamente sobre as duas ‘job families’ mencionadas acima, a Tabela 1 aponta resultados igualmente otimistas com a geração de empregos.

Tabela 1: Situação das mudanças projetadas nos empregos nos EUA até 2026

Blog - tabela 1

Fonte: US Bureau of Labor Statistics (in: Towards a Reskilling Revolution:  A Future of Jobs for All – World Economic Forum, 2018)

Transições de carreira entre as ‘job families’

Na sequência, o relatório do WEF expõe os resultados da pesquisa realizada através de metodologia baseada em algoritmos de otimização cognitivos e big data em bancos de dados públicos e privados, nos quais observa-se a quantificação de potenciais transições de trabalho entre ‘job families’ apontadas como ‘good-fit’ para as duas ‘job families’ em destaque.

Tabela 2: Transições de trabalho viáveis ​​e desejáveis ​​entre as ‘job families’ até 2026

Blog - tabela 2

Fonte: Burning Glass Technologies and US Bureau of Labor Statistics (in: Towards a Reskilling Revolution:  A Future of Jobs for All – World Economic Forum, 2018) – Nota: Unidade = 1.000s de pessoas

Arquitetura e Engenharia em alta!

Chama a atenção não haverem sido relatadas transições adequadas (‘good-fit’) ocorridas a partir da ‘job family’ de Architecture and Engineering para outras ‘job families’. Considerando que a pesquisa da WEF se ateve apenas as transições de carreiras ditas viáveis (realizadas na direção de trabalhos com menor ameaça de extinção devido aos impactos da disrupção tecnológica) e desejáveis (sob o ponto de vista da disposição e da sustentação financeira proporcionada pela nova carreira), pode-se especular que as ocupações da ‘job family’ de Architecture and Engineering encontram-se em alta e em maior sintonia com as mudanças ditadas pelo trabalho que se vislumbra no futuro, não sendo adequado/conveniente migrar para outras ocupações mais afetadas pela disrupção tecnológica.

Deslocamentos para fora e para dentro da ‘job family’ de Construction and Extraction

Outro resultado interessante aponta para os deslocamentos relatados na ‘job family’ de Construction and Extraction. Por um lado, os resultados apontam para a migração de 1.2 milhões de trabalhadores das ocupações da construção para outras famílias de empregos, especificamente para as ‘job families’: (a) Architecture and Engineering; (b) Arts, Design, Entertainment, Sports and Media; (c) Installation, Maintenance and Repair; (d) Protective Service; (e) Transportation, além da migração entre ocupações dentro da propria família de Construction and Extraction. Por outro lado, a pesquisa revela que a ‘job family’ de Construction and Extraction deverá receber 324,1 milhões de trabalhadores provenientes de outras ‘job families’ ameaçadas pela disrupção tecnológica. Ou seja, a família de carreiras da construção é considerada alvo para a transição de carreiras de trabalhadores de outras áreas e tende a ser ‘invadida’ por profissionais que nela apostam para superar as perdas de emprego em suas ocupações originais.

É melhor ficar na área!

A pesquisa do WEF é útil para apontar a importância e a adequação das ocupações que compõem as famílias de empregos da Engenharia e Construção no processo de disrupção tecnológica provocado ao trabalho pela dita 4a revolução industrial. Em suma, a conclusão é a de que permanecer na carreira tende a ser menos arriscado do que se aventurar fora dela. Obviamente, considerando que permanecer na carreira implica em atualizações constantes e aprendizagem contínua.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


‘RESKILLING’ PROFISSIONAL – UMA AGENDA NACIONAL

junho 3, 2018

O WEF – Fórum Econômico Mundial de Davos 2018, elencou o ‘reskilling’ (a reciclagem e a requalificação dos trabalhadores) como uma das prioridades mundiais no combate a ampliação das desigualdades econômicas e sociais mundiais.

Em fomento às discussões, o WEF, em colaboração com o Boston Consulting Group, publicou o relatório de pesquisa “Towards a Reskilling Revolution” (https://www.weforum.org/reports/towards-a-reskilling-revolution), no qual são expostos os desafios e propostas de solução ao problema da reciclagem e requalificação dos trabalhadores em transição de carreiras ameaçadas pela extinção de suas ocupações. O relatório é voltado ao trabalhador individual e às lideranças empresariais e governos que buscam priorizar suas ações e investimentos em desenvolvimento profissional, como forma de contribuir com a construção de empresas e economias mais prósperas, alicerces de sociedades mais produtivas e socialmente mais justas.

A ampliação das desigualdades

Segundo o relatório, as desigualdades de gênero, inter-regionais, geracionais e de renda correm o risco de serem ampliadas em nível mundial, e um dos fatores chave que impulsiona essas preocupações é a natureza volátil e incerta do trabalho demandado pelo mercado, decorrente das mudanças provocadas pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas – a 4a revolução industrial.

Um novo trabalhador e a urgência do ‘reskilling’

A imprevisibilidade da extensão e profundidade dessa disrupção tecnológica e socioeconômica provoca a fragmentação e a polarização do trabalho estável, significativo, adequadamente recompensador e alavancador da mobilidade social, favorecendo, por um lado, os que têm a sorte de viver em determinadas regiões geográficas e dispor de rápida apropriação de certas competências especializadas demandadas, oportuna e convenientemente, pelo mercado, e ameaçando, por outro lado, uma parcela significativa da força de trabalho que descobre, nítida e tardiamente, o descompasso entre seu atual conjunto de competências e as novas demandas de qualificação necessárias para realizar o seu trabalho. Segundo o relatório, a inserção da inteligência artificial, da robótica e de outros aparatos digitais na rotina do trabalho, requer a ampliação das competências humanas no trabalho, de modo que o sucesso do indivíduo na economia do futuro será decorrente de sua capacidade de complementar, sinergicamente, o trabalho eficiente realizado pelas tecnologias mecânicas ou algorítmicas – ele terá que “trabalhar com as máquinas”.

Por que investir no ´reskilling´?

À medida em que as competências demandas pelo mercado de trabalho mudam drasticamente e põem em risco o emprego, eclode a necessidade individual e premente do trabalhador de se engajar no processo de aprendizagem ao longo da vida (long fife learning) visando se manter ou se alavancar em carreiras necessárias, satisfatórias e recompensadoras.

Do mesmo modo, as empresas contratantes terão que investir estrategicamente, e cada vez mais, na formação, requalificação e aperfeiçoamento de seus Colaboradores de modo a suprir suas demandas específicas de trabalho decorrentes da apropriação tecnológica, além de contribuir social e responsavelmente para o futuro do trabalho.

O ´reskilling´do trabalhador é viável? Entretanto, do debate atual sobre o futuro do trabalho e da necessidade de reciclagem e requalificação profissional, emerge uma máxima que postula que “nem todo minerador de carvão recolocado poderá se tornar um engenheiro de software”. O relatório do WEF deixa de lado a retórica e se deita sobre a resposta à viabilidade prática das opções de transição de emprego, oferecendo trilhas alternativas de carreira para profissões atuais que se encontram em situação de risco de desaparecerem em futuro próximo. Mas deixa no ar a questão: seriam essas alternativas viáveis? Ou, as próprias alternativas profissionais elencadas, que conduziriam o trabalhador ao longo de trilhas da requalificação, também estariam sujeitas desaparecer, ameaçadas pelo mesmo processo tecnológico?

O ´reskilling´do trabalhador é desejável? Do mesmo modo, o relatório do WEF alerta que, mesmo dentro da gama de transições viáveis de carreira, pode haver algumas que, no entanto, não representam opções factíveis ou atraentes para os indivíduos que buscam mudar de emprego. Dois parâmetros acercam essas discussão: (a) a disposição – o trabalhador estaria disposto a reordenar a sua vida profissional, aventurando-se a reiniciar sua carreira numa área nova que não domina?; (b) a perspectiva da nova carreira de sustentar financeiramente (ou melhorar) o padrão de vida ao qual o trabalhador em posição de transição de emprego está acostumado a ter. De fato, a opção cruel que se vislumbra das discussões é a de que, ou o trabalhador ingressa e promove a sua transição de carreira, ou essa ficará à margem do novo ambiente profissional. Encontrar forças para recomeçar é a base dessa decisão!

Uma agenda nacional

No caso de governos e decisores políticos, a reciclagem e a requalificação da força de trabalho existente passam a fazer parte de agendas positivas e de políticas públicas, como alavancas essenciais para fomentar o crescimento econômico futuro e aumentar a resiliência da sociedade em face as mudanças tecnológicas que se vislumbram no horizonte.

Não será o seguro desemprego a peça fundamental para contornar o problema, remediando, à custo de impostos, a vida dos “marginalizados” pelo avanço tecnológico, segregando a força de trabalho nacional entre produtivos e os improdutivos e gerando mais desigualdades, mas sim, o ‘reskilling’ dessa força de trabalho, capaz de reinserir trabalhadores ativos no mercado em transformação. Certamente essa é uma das pautas mais importantes do debate público na atualizade, em âmbito mundial.

Em paralelo, vale ressaltar o compromisso das instituições educacionais, públicas ou privadas, com a pavimentação do caminho para a oferta de sistemas educacionais adequados, promotores da transição e indutores da reabsorção desta e da próxima geração de trabalhadores no mercado – obrigação das instituições públicas de investirem na extensão de ofertas de ensino médio e superior destinadas à reciclagem e requalificação, assim como, estratégia de negócios das instituições privadas que conseguirem se antecipar e enxergar oportunidades, no âmbito da educação corporativa, decorrentes do problema.

Como antecipar e gerenciar o ´reskilling´?A pergunta chave que o relatório do WEF se propõe a responder, em nome do trabalhador, do empresário e de governos, diante dessa situação de disrupção é: como antecipar e gerenciar proativamente os realinhamentos e transições do mercado de trabalho de modo a moldar um futuro que possibilite o crescimento econômico e as oportunidades para todos? Cabe aqui a recomendação da leitura atenta do relatório e da extensão da pesquisa do WEF como farol a iluminar a busca de soluções para mais esse grave problema.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


TERIA SIDO POSSÍVEL PREVER?

maio 27, 2018

De um dia para o outro, caminhoneiros desligam seus motores, bloqueiam as estradas e param o país. Motoboys, perueiros, taxistas, petroleiros, policiais e a população em geral dão apoio ao movimento que estende sua bandeira à diferentes classes de trabalhadores que professam diferentes ideologias políticas, mas que se identificam com as dores e a pauta de reivindicações do movimento original. Caminhoneiros conseguem o feito de unir as divergências políticas que sustentam o poder. Atônito, o governo bate cabeça para entender o que está acontecendo. Não teria sido possível prever?

 

A cena acima remete a condições similares e que foram indutoras de mudanças drásticas na sociedade dos últimos tempos: a Primavera Árabe, a eleição de Trump, o Brexit, etc. Não teria sido possível prever?

 

Provavelmente não. Pelo menos, não teria sido simples prever considerando a estrutura de representatividade da sociedade com a qual os governos estão acostumados a dialogar… e a cooptar. Políticos profissionais, partidos políticos, sindicatos e associações formam a base da democracia representativa que foi assim estruturada, historicamente, devido à impossibilidade de se consultar e de se ouvir a todos ao mesmo tempo.

 

Mas a estrutura de representatividade atual falhou ao sucumbir aos interesses do poder, traindo os interesses de seus representados – ela não sustenta mais as aspirações da nova sociedade. Uma sociedade baseada no acesso irrestrito e imediato à informação, conectada globalmente e de modo imediato, individualizada, autocentrada e que exerce a sua opinião, voz e o seu protagonismo. Uma sociedade que não se enxerga mais representada por ideologias políticas antiquadas que não sustentam seus anseios, causas e demandas.

 

Da descrença, desalento e da ampla disponibilidade e acesso à tecnologia decorre o surgimento da democracia direta, através da qual governantes voluntariosos passam a aprender a se comunicar diretamente com seus liderados e individualizam o atendimento de suas demandas pessoais ou de seus coletivos mais próximos. Utópico? Não, realmente factível, até porque não há outro caminho no horizonte.

 

Voltando a cena inicial de nossa história. Teria sido possível prever os impactos na sociedade da gestão de preços praticada pela Petrobras, enquanto monopólio semi-estatal? Teria sido possível prever o descontentamento dos caminhoneiros em relação ao achatamento de seus ganhos provocados pela elevação do preço do diesel e dos pedágios privados? Teria sido possível prever a dependência do país e o poder de mobilização dos caminhoneiros capazes de parar o país? Teria sido possível prever os interesses dos patrões, sindicatos e dos partidos políticos que pegaram carona na boléia dos caminhoneiros para garantir a manutenção de seus lucros? Teria sido possível prever o engajamento e a solidariedade espontâneos da população ao movimento original dos caminhoneiros mesmo tendo que sofrer com o desabastecimento e outras dificuldades?

 

Sim teria sido possível prever, desde que a administração pública tivesse entendido a mudança na estrutura de representatividade e que tivesse começado a dar valor e se importar mais com os interesses individuais da população e de seus coletivos. A nova gestão pública deve se alavancar na tecnologia para dispor de inteligência capaz de dirigir seus atos e decisões. Deve se render à sociedade e a sua participação direta na administração dos governos. Só se sustenta, o governo que entender e responder ás demandas de sua sociedade.

 

Provavelmente amanhã ou, mais tardar, no início da semana, o governo terá flexibilizado tudo o que o movimento dos caminhoneiros exige e, com isso, terá se desmoralizado por ceder à coação. Os bloqueios serão então desfeitos, o abastecimento será normalizado e o país voltará a caminhar.

 

Mas que fique o alerta. O cabo de guerra com essa nova sociedade está esticado no extremo e prestes a romper caso o governo não demonstre interesse e inteligência em aprender a lidar com ela, ouvir e considerar suas demandas. Não há mais governo que se sustente sem o apoio de sua população. Que assim seja!

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


TECNOLOGIA E EFICIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO

maio 27, 2018

Apostar no embarque da tecnologia no segmento da construção é apostar no aprimoramento da eficiência – assertividade de custos, prazos e qualidade em prol da relação contratual acordada e justa entre as partes e em benefício do cidadão. Mas não se enganem. Não é apenas a tecnologia, por si, que virá alterar o curso atual do desempenho questionável da construção.

Se por um lado, a tecnologia permite integrar de modo digital e imediato a comunicação e os dados e informações relevantes de todo o ciclo de vida do projeto que, até então, eram elaborados, capturados, manuseados, compatibilizados, processados e analisados através de papel e por meio da subjetividade humana, por outro lado, ela ainda não prescinde da criatividade e competência na concepção do projeto e de planejamento e gestão adequados durante a execução.

Um dia na construção

A Hexagon PPM®, principal empresa de software de Engenharia do mundo saiu na frente e nos convida para “Um Dia na Construção” (https://youtu.be/w0OfO1IpR3U) onde apresenta a sua visão de futuro das soluções de tecnologia da informação que alavancam a eficiência durante as fases de design, aquisição, construção e operação de instalações industriais e projetos de construção de grande escala. Trata-se de um mergulho nas disposições e nas potencialidades da tecnologia aplicadas à construção que possibilita prever redução significativa nos desperdícios e custos atuais.

… tecnologia que começa no projeto de Engenharia

Em um projeto EPC (Engineering, Procurement & Construction) tudo começa com o design da Engenharia (FEED e detalhamento) que passa a ser realizado através de tecnologias de modelagem 3D que permitem a integração, compatibilização e simulação de todas as disciplinas simultâneas (civil, elétrica, hidráulica, instrumentação, etc.), proporcionando ganhos significativos no que tange a visualização prévia de possíveis interferências que não seriam transparentes na simples sobreposição de folhas e plantas, permitindo a elaboração de ajustes e a tomada de ações corretivas de modo preventivo.

Extensão e integração das visões 3D, 4D e 5D

A partir da modelagem macro (3D) do projeto de Engenharia, a tecnologia visual e integrada dos novos sistemas permite ampliar o planejamento à visão do tempo, através do cronograma (4D), e à visão dos recursos e custos, através do orçamento (5D). Sistemas especialistas e bases de dados integrados possibilitam o compartilhamento das informações precisas e em tempo real, resultando em transparência e precisão das avaliações de acompanhamento e controle.

Pacotes de Trabalho e Folhas Tarefa em campo  

O uso da tecnologia permite ainda integrar o planejamento macro ao planejamento de campo, desdobrando volumes, áreas ou blocos do modelo de Engenharia (3D) em Pacotes de Trabalho que passam a ser programados periodicamente e distribuídos através de Folhas Tarefa às equipes de campo, integrando informações sobre as atividades a serem realizadas, as orientações aos DDOs (Diálogos Diários de Obra) e os EPIs necessários, bem como, garantindo a disponibilidade de equipamentos, ferramentas, materiais e recursos necessários para sua realização. Tudo isso passa a ser realizado com certa antecedência de algumas semanas de modo a garantir que os recursos estarão disponíveis para a execução do trabalho na data programada.

Desse modo, supervisores e suas equipes passam a dispor, diariamente e em seus aparatos mobile, da programação de suas atividades, dos staffs requeridos para realizá-las, da produtividade esperada e dos requisitos de qualidade e de medição para a sua conclusão e entrega, facilitando ganhos de produtividade das equipes e atestando de modo integrado as entregas realizadas.

Controles por dispositivos móveis e realidade aumentada

Nesse momento, a tecnologia vai além e permite a incorporação de dispositivos móveis de laser scanning, posicionados em pontos previamente planejados da obra, que avaliam de modo autônomo o avanço do trabalho e alimentam e atualizam o cronograma e o modelo 3D, de onde decorrem as ações gerenciais de controle de prazos, de custos e as liberações de medições próprias e de terceiros. Em paralelo, tecnologias de realidade aumentada, através de dispositivos móveis, permitem sobrepor a realidade da construção com o modelo 3D visando entender o avanço da obra e suas complexidades, além de comparar o já foi feito com o que ainda precisa ser.

O embarque da tecnologia na construção

Enfim, a tecnologia já antecipou o seu embarque na construção e tudo isso já pode ser considerado realidade e não um mero exercício de futurologia – tudo parece ser mais simples, mais fácil, mais intuitivo, mais produtivo, mais eficiente e com potencial de ser também mais ético. Some-se a isso os avanços em curso na adoção de SmartContracts sob plataformas da Blockchain e temos um retrato otimista do que se espera do novo trabalho no segmento da construção, do ganho de eficiência promovido e das novas competências profissionais requeridas dos trabalhadores dessa nova era.

 … sim, mas vale uma ressalva

Entretanto, vale ressaltar que apesar do futuro estar fadado ao embarque definitivo da tecnologia na construção e marcado pelo encolhimento do espaço que antes estava reservado às atividades humanas operacionais que, agora, passa a ser ocupado pela tecnologia, esse movimento, per si, não deixará nunca de demandar a criatividade e a excelência da Engenharia e a competência na gestão das obras. Por melhor que seja a tecnologia utilizada na obra, ela não prescinde da inteligência humana para alcançar seus resultados promissores.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


BIM EM OBRAS PÚBLICAS

maio 20, 2018

O Diário Oficial da União de 18 de maio de 2018 traz a publicação do Decreto nº 9.377/2018 que institui a Estratégia Nacional de Disseminação do Building Information Modelling – Estratégia BIM BR, com a finalidade de promover o ambiente adequado ao investimento em BIM e sua difusão no país, assim como, encaminhar a operacionalização da exigibilidade gradual do BIM no âmbito do Governo Federal. O Decreto nº 9.377/2018 revoga decreto anterior de junho de 2017 que instituiu o Comitê Estratégico de Implementação do BIM (CE-BIM) e que alavancou a discussão e o encaminhamento da implantação da tecnologia nas obras públicas do país.

Objetivos da Estratégia BIM BR

O decreto define nove objetivos da Estratégia BIM BR, dentre os quais, vale destacar três deles: (1) a proposição de atos normativos que estabeleçam parâmetros para as compras e as contratações públicas com uso do BIM; (2) o desenvolvimento de normas técnicas, guias e protocolos específicos para adoção do BIM e (3) o desenvolvimento da Plataforma e da Biblioteca Nacional BIM.

Contratações públicas com uso do BIM

Quando o governo encampa a proposta de regulamentar a solicitação do uso de BIM nas compras e contratações de obras públicas, deve também reconhecer que uma das principais justificativas dos atuais problemas de atrasos e sobrecustos em obras públicas decorre da má qualidade de seus próprios projetos básicos que acompanham os editais de licitação. Desse modo, a tecnologia BIM, deveria ser adotada desde as fases de concepção e autorização da obra, prévias à licitação, potencializando a precisão e a compatibilização progressiva dos diversos níveis subsequentes dos projetos de engenharia. Ainda sobre a questão das contratações, há que se pensar na facilidade da produção de fatos e provas nos encaminhamentos de pleitos e litígios decorrentes de obras geridas de forma transparente através de modelos BIM.

Tecnologias associadas ao BIM

Ao prever o desenvolvimento de normas técnicas, guias e protocolos específicos para adoção do BIM, a Estratégia BIM BR deveria ainda considerar a incorporação de outras tecnologias associadas que, potencialmente, dariam maior sustentação às relações contratuais baseadas nos fundamentos do BIM. A adoção de Smart Contracts e de sensores inteligentes, sob a plataforma segura da Blockchain, por exemplo, facilitaria significativamente o monitoramento, o controle e a transação de elementos construtivos dos modelos BIM.

Biblioteca Nacional BIM

Por último, a Estratégia BIM BR menciona o desenvolvimento de uma plataforma e uma biblioteca nacional BIM, o que parece ser uma tentativa louvável, ainda que hercúlea e de alto custo, de dispor de elementos construtivos padronizados capazes de modelar a engenharia BIM de todo tipo de obra pública. Vale ressaltar iniciativas, relativamente similares, de elaboração de padrões de Composições Unitárias de Custos, tais como o SINAPI-CEF e SICRO-DNIT. Entretanto, vale ressaltar que o custo e o trabalho contínuo de desenvolvimento e disponibilização dessa biblioteca nacional BIM podem ser defendidos, simplesmente, pela relação econômica proporcionada pela eficiência proporcionada ao controle quando comparado aos montantes associados à corrupção em obras públicas.

Tecnologia recebida com alento

Enfim, o anúncio da Estratégia BIM BR e da criação de seu Comitê Gestor (CG-BIM BR) devem ser recebidos como alento à quem defende a eficiência, a lisura e a transparência das obras públicas nacionais decorrente de melhorias na governança e na gestão, adoção de tecnologias e inovação.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


BIM E A NOVA LEI DAS LICITAÇÕES – PROPOSTAS LEGISLATIVAS PARA A CONSTRUÇÃO

maio 20, 2018

As pautas, governamental e parlamentar das últimas semanas, têm sido curiosamente dinâmicas e interessantes à quem se interessa por avanços na legislação pertinente às obras públicas.

A Estratégia Nacional de Disseminação do BIM

O Diário Oficial da União de 18 de maio de 2018 traz a publicação do Decreto nº 9.377/2018 que institui a Estratégia Nacional de Disseminação do Building Information Modelling – Estratégia BIM BR, com a finalidade de promover o ambiente adequado ao investimento em BIM e sua difusão no país, assim como, encaminhar a operacionalização da exigibilidade gradual do BIM no âmbito do Governo Federal. O Decreto nº 9.377/2018 revoga decreto anterior de junho de 2017 que instituiu o Comitê Estratégico de Implementação do BIM (CE-BIM) e que alavancou a discussão e o encaminhamento da implantação da tecnologia nas obras públicas do país.

A nova Lei de Licitações

Concomitantemente, avançam as discussões no Congresso nacional sobre a proposta da nova Lei de Licitações (PLS 1292/95, 6814/17 e apensados). Espera-se que a Comissão Especial que analisa a proposta se reúna na próxima terça-feira (22/maio) para discutir e votar o parecer do relator. O texto da proposta que seguirá para votação ainda não foi divulgado, mas sobre ele pairam expectativas positivas de que contemple avanços decorrentes dos debates mobilizados pela sociedade: a criminalização do superfaturamento de compras públicas, a manutenção da contratação integrada e a implantação do Performance Bond que estende a responsabilização das seguradoras a 100% do valor do contratos, implicando na obrigação da fiscalização da execução das obras públicas e na realização de auditoria contábil nos contratos.

Otimismo decorrente da disposição de tecnologia

Perspectivas otimistas decorrentes dessas duas proposições emergem do debate sobre a disposição de tecnologias digitais BIM em prol da precisão e da compatibilização dos projetos de engenharia contratados, assim como da potencialização dos controles, da fiscalização e da eficiência e transparência na gestão das obras, respaldadas pela modernização e o aumento da segurança jurídica dos contratos.

Dúvidas sobre a natureza virtuosa das propostas

De fato, as obras públicas deveriam ser retomadas imediatamente, sob pena de comprometerem o futuro do país, entretanto, deveriam vir sustentadas sob diferentes alicerces legais, regulatórios, éticos e tecnológicos. O poder público deve fazer a sua parte, assim como as empresas privadas e o mercado da construção deveriam se reorganizar no contexto de uma nova governança efetiva, transparente, ética e confiável. A geração de emprego e renda agradecem. A sociedade ávida por um futuro melhor agradece.

Resta acompanhar os desdobramentos dessas duas novas proposições atentos à capacidade e vontade do atual governo de pautar, e do Congresso Nacional, de dar prosseguimento às discussões necessárias. Resta também avaliar a verdade sobre a natureza virtuosa das propostas mencionadas, considerando serem provenientes de governo e congresso envolvidos em acusações de desvios decorrentes, exatamente, das falhas legais que tais propostas visam corrigir e coibir.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


OBRAS PARALISADAS – UMA QUESTÃO DE PRIORIDADE NACIONAL

maio 13, 2018

Conjugado ao encanto histórico, cultural e natural de nossas cidades, ultimamente, a composição da paisagem urbana cotidiana passou a contemplar cenas contrastantes, sujas e degradadas, de canteiros de obras paralisadas, poluindo o visual, complicando a mobilidade urbana e facilitando a criminalidade.

Obras urbanas paralisadas são perversamente danosas para a sociedade

De sua existência emergem quatro consequências econômicas críticas:

(1) elas drenam o escasso orçamento público voltado à promoção de investimentos numa afronta ao conceito do Custo de Oportunidade; (2) elas não cumprem o uso social e a geração dos benefícios que justificaram a sua autorização; (3) elas promovem efeitos colaterais negativos e sistêmicos devido a aceitação da desordem e da ineficiência, tal como defendido pela Teoria da Janela Quebrada da Escola de Chicago e; (4) elas demandam despesas de custeio para a preservação do patrimônio inacabado, afetando a capacidade operacional dos orçamentos públicos.

Creches inacabadas inviabilizam as perspectivas de trabalho das mães, escolas inacabadas deixam crianças sem aulas, postos de saúde inacabados deixam a população sem atendimento, estradas e ruas não asfaltadas e pontes inacabadas distanciam pessoas e encarecem o escoamento da economia, estruturas inacabadas de distribuição de água potável, energia, internet e de escoamento de rejeitos, deixam o cidadão à mercê de sua sorte. Tudo isso junto colabora, num ciclo vicioso, para o empobrecimento potencial das esperanças de vida melhor, principalmente de comunidades carentes.

Por que as obras são paralisadas?

A falta de planejamento e gestão efetivos são as causas mais nítidas dessa situação indigesta encontrada na maior parte das cidades do país. Relatórios estatísticos dos órgãos de controle oficiais dão conta da magnitude do fato e indicam um mergulho no descaso – somadas, atualmente contabiliza-se mais de 20 mil obras paralisadas em todo o país, representando investimentos já realizados (e, provavelmente perdidos) da ordem de dezenas de bilhões de reais. A saber, ainda, que a (possível) retomada de uma obra paralisada não obedece a uma racionalidade simples, sequencial e complementar – os custos não ficarão restritos, apenas, ao orçamento original restante.

Cortes nas rúbricas de investimentos promovem a paralização de obras

De modo complementar e indireto, visto tratar-se ainda de uma decorrência da falta e da ineficiência da gestão de modo geral, a escassez de recursos para investimentos, justificada pela recente recessão econômica e pela queda da arrecadação de tributos tem sido apontada como a grande vilã causadora da paralização dessas obras – apenas em 2017, os estados cortaram quase 23 bilhões de reais em investimentos em comparação com o teto de 2014, uma vez que não dispõem de autonomia legal ou interesse político para fazer incisões em despesas fixas onerosas e (muitas vezes) ineficientes, tais como a folha de pagamento.

Uma lógica perversa

Essa lógica indica que tem sido politicamente preferível, e legalmente admissível, paralisar obras e conviver com esqueletos incômodos expostos, deixando escoar pelo ralo investimentos realizados, em lugar de promover ajustes de gestão que podem ser midiaticamente contrários a interesses eleitorais.

O problema dessa visão imediatista reside no fato de que sem investimentos não há perspectivas para o futuro. Cortando-se hoje investimentos em escolas, postos de saúde, estradas, pontes, saneamento, etc, aparam-se proporcionalmente o alento da recuperação e desenvolvimento da economia e da melhoria das condições de vida da população.

Na contramão dos fatos – o milagre das eleições

Contrariando o exposto acima, percebe-se um movimento periódico de inaugurações de obras que coincidem, no tempo, com os períodos eleitorais e de desincompatibilização de políticos candidatos. Curiosamente e contrariando o desempenho típico dos projetos, a execução de certas obras são aceleradas e, em decorrência, gastos adicionais são realizados, para propiciarem inaugurações midiáticas no apagar das luzes dos mandatos dos executivos de cargos públicos. Com espanto o país assistiu, no mês passado, uma série desmedida de inaugurações de obras que andavam a passos lentos ou que estavam paralisadas.

Uma proposta irônica de solução

Ironicamente, essa prática curiosa, se fosse levada ao extremo, resolveria os problemas das milhares de obras inacabadas pelo país afora, impactando positivamente os benefícios econômicos decorrentes da entrega dessas obras. A se estender essa prática, quem sabe, se o país estabelecesse reeleições anuais, provavelmente, todo ano haveriam obras sendo inauguradas e o estoque de obras inacabadas seria reduzido em prol de ganhos para a população.

O problema dessa proposta seria avaliar o nível de qualidade das obras entregues. Diferentemente do que aconteceu no mês passado deste ano, as obras teriam que ser atestadas formalmente como efetivamente acabadas antes de sua inauguração. Estados e municípios deveriam propor legislações efetivas que proibissem e punissem exemplarmente as inaugurações de obras inacabadas ou sem condições operacionais regulares, considerando o risco de se potencializar o problema econômico e social do estoque de obras inauguradas e inoperantes, tal como vimos acontecer este ano pelo país afora, em diversos casos, independentemente de geografia ou de identificação ideológica do político.

Uma questão política prioritária

Retomando a racionalidade, a questão das obras inacabadas deveria ser tratada como um problema político nacional prioritário (pauta para uma campanha ao Planalto e/ou ao Congresso), muito mais do que um problema pragmático de gestão. Deixar de investir, ou investir errado, prejudica definitivamente o futuro do país e esmorece as esperanças do povo.

A propósito, sim, existem soluções para o encaminhamento da questão…

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


PLANEJAMENTO ADAPTATIVO PARA INOVAÇÃO

maio 6, 2018

No exercício de planejamento estratégico, as organizações se deparam com a dialética entre realizar um planejamento estático e previsível ou um planejamento dinâmico, flexível e incremental. Essa controvérsia anima debates teóricos acalorados e polariza posições. Aparte dos dois extremos, o Planejamento Adaptativo tenta mediar essa discussão, buscando o equilíbrio entre as abordagens opostas, incorporando o aprendizado dinâmico, decorrente da própria execução do plano, na retroalimentação e adaptação contínuas do próprio plano, sem perder, contudo, o foco no objetivo final que se pretende alcançar. O plano torna-se uma peça flexível e menos importante do que o processo adaptativo de planejamento em si e a produção dos resultados desejados.

O que é planejar?

Planejar é antecipar o futuro visando induzir resultados desejados – de modo geral, trata-se de um exercício de futurologia que procura identificar e reconhecer, antecipadamente, as incertezas que atuam sobre um sistema e identificar (design) cursos de ação mais adequados visando potencializar o alcance de resultados. O sucesso de um planejamento tem sido historicamente avaliado por indicadores de assertividade que medem a robustez do plano aos descaminhos do confronto com a realidade.

O dilema do planejamento para a inovação

Entretanto, se em algum momento da história o futuro já foi relativamente previsível e o exercício do planejamento mais assertivo, atualmente, as “bolas de cristal” do mundo organizacional parecem ter se tornado, todas, aleatoriamente desreguladas e nebulosas. Ainda mais quando se estabelece o foco do planejamento organizacional na busca da diferenciação através da inovação. A questão chave nessa situação, e que gera ansiedade ao gestor/planejador, é responder à pergunta: como planejar de modo assertivo se não se conhece, ao certo e com total clareza, onde se quer chegar e como fazer para chegar?

Planejamento ágil

A melhor resposta atual para o dilema do planejamento emerge do conceito de agilidade. Nesse contexto, o adjetivo ágil não está, necessariamente, relacionado com o fato de se executar mais rápido, mas sim, com o fazer (processo) de modo flexível e adaptável, visando a produção de um resultado desejado, e não com a assertividade do plano original.

Planejamento ágil é um conceito recentemente incorporado pela Administração em resposta efetiva à necessidade de se planejar em ambiente VUCA – (V)olátil, (U)Incerto, (C)omplexo e (A)mbíguo – e, como tal, situa-se como a melhor recomendação atual para se planejar a introdução da inovação nas organizações.

A essência do planejamento ágil fundamenta-se nos seguintes valores: (1) A produção do resultado desejado é mais importante do que a formalização/documentação do que o compõe; (2) Responder às mudanças, adaptar e ajustar planos, a qualquer momento, importa mais do que a avaliação da assertividade do plano original; (3) A interação colaborativa e sinérgica entre os indivíduos interessados tem mais valor do que a hierarquia formal ou os processos rigorosamente estabelecidos – equipes autônomas; (4) Os demandantes dos resultados (clientes) participam ativamente do processo de realização do trabalho, colaborando no entendimento e no encaminhamento das mudanças dos cenários planejados e na tomada de decisões adaptativas.

Enfim, o planejamento ágil subverte a ordem estabelecida e normatizada do planejamento tradicional, previsível, estático e linear, e introduz a adaptabilidade dinâmica e contínua ao processo do planejar-decidir-agir. Uma forma revolucionária de trabalhar, intrinsecamente flexível e colaborativa, mas que, não abre mão de se manter firme na busca do propósito original de entrega do resultado desejado. Que fique registrado, a adoção do planejamento ágil não é sinônimo de comportamento anárquico, mas de comportamento revolucionário botton-up, de passos certeiros, ainda que curtos.

Uma metáfora do planejamento adaptativo ágil

Diferentemente do planejamento de um jogo de Xadrez ou de Damas, ou da construção de uma edificação capaz de superar intempéries (terremotos, enchentes ou assopros do lobo mau), que dispõem de um processo algorítmico conhecido, capaz de ser planejado previamente de modo tradicional ou programado por um computador, considere a lógica dos aplicativos de roteirização de trânsito tão comuns na nossa vida cotidiana (Waze ou Google Maps).

Num primeiro caso, imagine que você insere no aplicativo o endereço que deseja chegar (você sabe exatamente onde quer chegar, mas não sabe qual o melhor trajeto a fazer). O algoritmo do aplicativo planeja e te oferece a melhor rota-tempo considerando distância, tráfego e suas demais preferências – trata-se do planejamento original, da visão que devemos ter clara sobre o resultado que desejamos alcançar. Ao iniciar o movimento, algumas condições não previstas poderão ocorrer, por exemplo, uma interrupção de uma rua. Se você for obrigado a sair do caminho e entrar por uma rua alternativa, imediatamente o aplicativo recalculará a melhor rota e o novo tempo, e assim por diante, sem perder o foco no seu objetivo de chegar ao endereço final desejado. Ou seja, o planejamento incorpora o aprendizado e se adapta dependendo das condições. Seu interesse é chegar, e não o trajeto realizado.

Num segundo caso, imagine que você insere no aplicativo o desejo de encontrar um posto de gasolina mais próximo (você não sabe exatamente onde quer chegar, nem como, mas sabe o que precisa: reabastecer o carro!!!!). O algoritmo do aplicativo identificará um posto de gasolina mais próximo e traçará a melhor rota-tempo planejados. Novamente, se as condições do tráfego mudarem, será recalculada também a rota-tempo. Em algum momento, você chegará a um posto de gasolina, mesmo que não seja o posto identificado no planejamento inicial, e isso resolverá a sua questão principal de abastecimento do carro.

Planejamento adaptativo para a inovação

Agora, imagine o quão pertinente é esse tipo de planejamento adaptativo quando se deseja planejar para inovar. Quando se fala de antecipar o futuro, tudo está por fazer, tudo está aberto, não há dogmas aceitos nem se sabe ao certo como fazer. Não há como prever caminhos ótimos, nem saber prévia e exatamente o impacto ou o resultado de uma ação que se pretende realizar.

Vale aqui então a máxima de que agir é melhor que do ficar estagnado. Não o agir inconsequente, apaixonado e atabalhoado, mas o agir com discernimento adequado, o agir de modo aberto, sinérgico, participativo e colaborativo, levando em consideração as opiniões divergentes e mantendo em mente o sentido benéfico da sintonia com a visão de onde se deseja chegar.

Fazer diferente exige desprendimento e desapego – abrir mão de paradigmas considerados verdades absolutas por nossa própria experiência ou conhecimento. Expor-se a fazer diferente, no contexto do planejamento para a inovação, é ainda uma demonstração clara de comprometimento para com a sua organização e um ato de inteligência pessoal.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


SOBRE TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO E INCLUSÃO – INSIGHTS SUPERFICIAIS

abril 24, 2018
  1. Me parece ingênuo tratar (ou pressupor) a tecnologia como uma panaceia capaz de acabar com as desigualdades e promover de modo definitivo a inclusão. O Ser Humano, suas configurações orgânica, psíquica e social, e sua trajetória histórica milenar (presente no DNA e comprovado pela epigenética) compõem um sistema muito mais complexo do que podemos conceber atualmente – quem sabe um dia, com a IA e o advento do grande irmão! (provavelmente já estarei na minha horta nesse dia, plantando taioba e ora-pro-nóbis).
  1. Negar o impacto da tecnologia na inclusão social é negar a história. Ilustro simploriamente indicando a energia elétrica acessível (… e suas consequências como a TV, o refrigerador, luz que permite enxergar e estudar a noite, etc.), o telefone, os meios de transporte, a vacinas e o pré-natal, a agricultura e a disponibilidade de alimentos abundantes, etc. Nem por isso eu desconsidero os impactos negativos da tecnologia, principalmente no que diz respeito à degradação do meio ambiente e das relações humanas.
  1. A tecnologia que estamos debatendo aqui neste fórum, a TIC, inegavelmente se apresenta e configura como um recurso simples, rápido e barato de democratização da informação a nível global. Atualmente, informação é poder nas mãos do cidadão. Essa exata tecnologia empoderou a sociedade e permitiu, por um lado, derrubar ditadores sanguinários durante a Primavera Árabe em 2010 (e não por ela, o desastre humanitário na Síria persiste até hoje) e, por outro, eleger lideranças sectárias e abomináveis, na eleição Norte Americana de 2016. O que me leva a pensar que não é a tecnologia, per si, mas sim as ideologias que fazem uso dela, que promovem a exclusão e a desigualdade.
  1. Por último, se eu pudesse apontar um único elemento capaz de promover a inclusão e a igualdade, a nível global, eu diria “de boa” aos meus alunos que esse elemento é a Educação – veja o meu texto de domingo e a minha “viagem” pelos pensadores da Educação (os que eu conheço, apenas). E, assim, se a tecnologia nos possibilitar estender o alcance e a qualidade dessa Educação em prol da boa causa da igualdade e da inclusão, eu a adotaria e a defenderia de modo apaixonado (como tenho feito aqui neste fórum).

Por último, tenho a dizer que adoro o debate, mesmo que eu me posicione na defesa, quase sempre, do contraditório da “vibe” filosófica aqui vigente – eu sou assim, vcs vão aprender a me conhecer, mas sou do bem! Ontem ficamos sabendo de mais uma investida dos “tubarões” sobre nossa região de atuação. Nosso debate aqui é rico e necessário, mas a minha premissa é a de que ele deve sair rapidamente do papel e ocupar coerentemente a nossa ação tática diária (nossa praxis), fundamentada, de modo perceptível, na nossa postura ética, no nosso discurso e nas nossas ofertas de Educação. Enquanto debatemos elucubrações filosóficas, eles agem, e todos nós perdemos.

A propósito dos excluídos virarem pó, recomendo a leitura de Noah Harari e seu best seller, Sapiens. Sem querer expressar a minha opinião, adianto que o autor pressupõe o nascimento de uma nova classe de pessoas, a dos inúteis, desempregados e não empregáveis. Vale a leitura do resumo em: https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2018/01/uma-nova-classe-de-pessoas-deve-surgir-ate-2050-dos-inuteis.html

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Rede de Ensino Doctum – amsol@j2da.com.br


AS EDTECHS E A REVOLUÇÃO EM CURSO NA EDUCAÇÃO

abril 22, 2018

No último dia 18 de Abril aconteceu em São Paulo o maior evento de inovação tecnológica aplicada à educação que já se teve notícia no país. O EDTECH 2018 STARTSE atraiu mais de 1200 Educadores dispostos a se despir de suas verdades filosóficas e dar ouvidos aos pitchs de jovens Tecnólogos, Engenheiros e Matemáticos que se revezaram no palco para apontar o futuro da educação e antecipar, de modo tácito, a educação do futuro.

Uma verdadeira orgia entre a filosofia e a prática que se mesclaram e se confundiram democraticamente em busca de sinergias que lhes pudessem conferir potência colaborativa – um encontro de tolerância e êxtase.

Namoro ou amizade?

Mas não se enganem sobre as justificativas apaixonadas do match perfeito e inusitado entre o Educador e o Tecnólogo. Por um lado, a porta da escola já caiu, a tecnologia invadiu a sala de aula e contagiou de modo viral o aluno. O Educador, sozinho, vê-se acuado e não encontra mais eco em suas referências basilares sobre como lidar com um aluno que dispõe de acesso integral à informação (todo tipo dela e em tempo real), ansioso pelo reconhecimento de sua individualidade, pela conquista de sua liberdade e por propósitos concretos para a sua vida. Um aluno que não aceita mais ser coadjuvante de sua vida e, em particular, de seu próprio processo e ritmo de aprendizado durante toda a vida (Lifelong Education).

O Tecnólogo, por sua vez, sabe que tem nas mãos a matéria prima fundamental (bits e bytes) que moldará o futuro, mas não dispõe da devida empatia com esse novo ser (aluno) complexo, desconhece suas conexões neurais e as características de sua psiquê e, por isso, não sabe ao certo a melhor forma de “engenheirar” a mecânica de seu processo de aprendizado. Precisa de ajuda de especialistas para materializar essa construção.

Uma relação de interesses e colaborações – ganha o casal que conseguir se doar mutuamente, aberto a flexibilizar e adaptar dogmas do passado e entender, de forma humanística, as potencialidades futuras de sua parceria simbiótica.

As EdTechs e o futuro

EdTech é o nome dado a empresas inovadoras de tecnologia (startups) dedicadas a oferecer soluções para problemas potenciais do segmento de Educação – produtos, aplicativos e ferramentas em apoio ao aprimoramento dos processos administrativos, estratégicos e pedagógicos das escolas. Por serem jovens e inovadoras, as EdTechs caracterizam-se por operarem sob condição crítica de incertezas, mas dispõem de potencial perceptível de repetitividade e escalabilidade, o que lhes confere a atratividade de investidores devido ao alto potencial de crescimento e ganhos.

São tamanhas as oportunidades que veem sendo abordadas e desenvolvidas no contexto da inovação tecnológica para a educação que chama a atenção uma frase de Thomas Frey, do DaVinciInstitute 2017 @ World EconomicForum que diz: “Eu projeto que em 2030 a maior empresa da internet será uma empresa de educação, e da qual nós nem ouvimos falar ainda.”

Algumas startups nacionais encheram os olhos dos participantes durante o evento EDTECH 2018, ao apresentar produtos em funcionamento usando realidade aumentada e virtual para a simulação de cirurgias médicas, robôs que substituem professores no ensino de programação, o uso de blockchain na acreditação profissional em substituição aos diplomas formais, vídeos instrucionais inteligentes que podem ser clicados e assistidos parcialmente de acordo com o interesse e o ritmo de aprendizado do aluno, sistemas que ajustam automaticamente textos acadêmicos ao formato da ABNT, plataformas específicas de MooC, Ambientes Virtuais de Aprendizagem, provedores de conteúdos digitais interativos, etc.

Tecnologia que democratiza a Educação

Inovações tecnológicas aplicadas à Educação possibilitam vislumbrar benefícios que viabilizam ideais democráticos e humanistas, potencializando a dignidade, as aspirações e as capacidades humanas gerais e individuais. Somente a tecnologia permitirá levar Educação de qualidade, significante, equivalente e de baixo custo a todos os lugares, a todos os indivíduos e a qualquer tempo (onipresença), proporcionando a inserção social e a superação das diferenças em nível global, impactando na efetividade da justiça e na paz – quem lida com Educação deve sempre semear sonhos, mesmo correndo o risco de ser rotulado de utópico!

Estivesse no evento EDTECH 2018 o Professor Paulo Freire, ficaria maravilhado com as possibilidades de aprendizagem e de autonomia dos educandos proporcionada pela tecnologia e seus potenciais impactos contra a exclusão e a opressão. Provavelmente participariam da mesma roda de discussão sobre a “tecnologia e a escola como um espaço de exercício da democracia e da cidadania” os professores Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e, por que não, John Dewey (provavelmente estaria usando os novos fones de tradução simultânea da Google – Pixel Buds).

Viajando além nessa possibilidade, certamente Pestalozzi se interessaria em entender como o uso de realidade aumentada e da “gameficação” impactaria nos sentimentos e estimularia o processo de aprendizagem autônoma da criança. Piaget e Freud certamente investiriam o tempo do coffee break em torno de jovens Tecnólogos, avaliando os impactos da tecnologia sobre o desenvolvimento humano na infância e na psicopedagogia.

Antonio Gramsci provavelmente estaria num canto do auditório tomando notas de tudo o que ali se passava e conjecturando sobre a tecnologia na escola como agente de mudanças sociais.

Enfim, a visão do futuro da educação mediada pela tecnologia não se contrapõe ou indispõe com o trabalho dos grandes pensadores. Pelo contrário, desde que exista abertura intelectual para tanto, as ideias dialogam e se potencializam.

Sim, eu te aceito! Mas…

O movimento revolucionário de conquista da educação pela tecnologia já está em curso. A extensão, a rapidez e a profundidade dos benefícios potenciais da introdução das inovações tecnológicas na Educação possibilitam vislumbrar o futuro da própria educação que, certamente, vem pautado pela disposição de incríveis novos aparatos tecnológicos.

Mas o futuro não reside apenas no amanhã. Ele já pode ser experimentado no hoje – e isso tem provocado medo e reação contrária! Medo do novo e de que a tecnologia possa sugar a essência da Educação, transformando-se, por si, no fim (para o bem ou para o mal) ao invés de se contentar em se manter apenas como um meio viabilizador tolerável.

Sim, o medo e a desconfiança são saudáveis, mas não devem ser empecilhos a ponto de provocar reações contrárias à tecnologia, negar a existência da precariedade e a disfunção da Educação atual, negar as soluções remediadoras e curativas proporcionadas pela tecnologia, ou mesmo, e por tudo isso, se posicionar de modo radicalmente contrário e deixar de participar do processo de fusão evolutiva entre ambas. O casamento entre o Educador e o Tecnólogo está apenas na lua de mel e a relação, supostamente conflituosa, exigirá uma adaptação baseada na vontade de dar certo, na flexibilidade, na compreensão, na paciência e na tolerância mutuas para que renda os bons frutos humanísticos desejados. Lá do céu, que os grandes pensadores da Educação nos mandem sabedoria e lucidez para adaptar seus legados diante da nova situação e que nos estimulem as esperanças quanto ao bom futuro da Educação.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Rede de Ensino Doctum – amsol@j2da.com.br


TREM DO AEROPORTO NÃO CHEGARÁ AOS PRINCIPAIS TERMINAIS DE PASSAGEIROS

abril 16, 2018

No último final de semana foi dada a largada para os testes operacionais da linha de trem que ligará o maior aeroporto do país (Guarulhos) ao centro da cidade de São Paulo. Raridade num país carente de transporte eficiente. Joia da coroa do partido político que se perpetua no poder estadual. Suposta alavanca para as eleições nacionais. Orgulho ufanista paulistano. Coisa de primeiro mundo!

Entretanto, oops! Parece que a história não é bem essa. Apesar do adiantado da obra, a estação final da nova linha 13-Jade da Companhia de Trens Metropolitanos está sendo construída relativamente distante do aeroporto. O trem vai chegar “quase lá”. Ele vai parar um pouquinho antes, há pouco mais de 3 kms dos Terminais 2 e 3, onde se concentra aproximadamente 90% do fluxo diário de passageiros. A dita estação final que compõe o conjunto da obra, foi construída relativamente próxima ao Terminal 1 do aeroporto (o famoso “puxadinho”) – aquele que abriga apenas uma das companhias aéreas significativas.

Não há causa técnica aparente que justifique a interrupção do trecho a uma distância relativamente próxima dos demais terminais, visto tratar-se da extensão em linha reta dos trilhos já construídos, sem bloqueios ou interferências aparentes – aliás, a linha de manobras do trecho já chega quase até o Terminal 2.

Então, depois de 14 anos de promessas e de obras tocadas a ritmo letárgico, pelo menos 2 atrasos significativos prometidos para a população (Copa do Mundo e Olimpíadas), 12 km de trilhos, 8 km de elevados, 2 transposições de rios e R$1,8 bilhão de investimentos, a obra não vai chegar aos principais terminais de passageiros do aeroporto, deixando mais de 120 mil pessoas, literalmente, com as malas nas mãos? Sim, os trilhos chegarão perto, mas isso não vai facilitar muito para quem embarca/desembarca de modo direto – sensação de incompletude comum das obras de infraestrutura públicas do país.

Governo e concessionária dizem que ainda resta construir um monotrilho moderno que ligará a estação final do “puxadinho” aos terminais de passageiros, obra que estaria a cargo da concessionária. Mas não há data prevista para que isso tenha início. Uhmmm!!! A contar pelo tempo que levou para se construir a linha principal, esse monotrilho deverá servir apenas à próxima geração de passageiros. Até lá, e supondo que a linha do trem realmente será entregue em 2018, passageiros de malas nas mãos, terão que se contentar com uma transferência feita através de uma linha de ônibus especialmente contratada para tal – uma linha dedicada que circulará entre os terminais e a estação final, dificultando a logística de acesso ao trem e estendendo o tempo do percurso.

Enfim, apesar do inegável benefício da disposição de uma linha de trem ligando o centro da cidade ao aeroporto internacional, algumas perguntas emergem dessa situação. Seria interessante saber se essa limitação de escopo já estava prevista no projeto original licitado ou se foi motivo de renegociação contratual. Em qualquer desses casos, é curioso suspeitar das justificativas técnicas para tal opção. Mas a pergunta do milhão e que não quer se calar é: Quais seriam os supostos benefícios-cidadão, ou os beneficiários, dessa opção de trajeto interrompido, no mínimo, questionável?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


EDITORIAL: SISTEMA EM RECUPERAÇÃO

abril 8, 2018

Este blog se ocupa em fazer o advocacy da efetividade de obras públicas em favor da sociedade, gravitando sobre temas da engenharia, da gestão, da inovação e dos aspectos legais e litigiosos que fundamentam o tema.

Em um ano de persistente presença semanal este blog vem denunciando descaminhos, analisando perspectivas e propondo alternativas ao negócio da construção, na tentativa de reverberar e influenciar mudanças significativas em um sistema historicamente contaminado por relações antiéticas e ilícitas entre empresários e agentes públicos, que minam as possibilidades de futuro do país e que destroem a esperança da sociedade.

A prisão de um ex-presidente da república, fundamentada exatamente no enredo deste blog, não é um fato midiático a ser comemorado, mas sim, a ser lamentado. Ela expõe as entranhas do sistema doente e demonstra, assustadoramente, a profundidade e a extensão de sua metástase. Entretanto, o fato extremo revela o amadurecimento da sociedade e a força de suas instituições que, mantendo-se rigorosamente pautadas pela lei, pelo direito e pelos princípios democráticos e republicanos, conseguiram chegar tão longe e de modo peremptório.

Esta última, ou as demais prisões significativas já realizadas no âmbito do mesmo contexto, não extinguem a corrupção no segmento da construção, mas certamente abalam e enfraquecem o sistema doente, revelam o potencial curativo dos caminhos da governança e do cumprimento rigoroso das leis (compliance), e possibilitam a retomada da esperança da sociedade.

Que a relevância dessa prisão não esmoreça os ânimos da sociedade e das instituições ocupadas com o tratamento e a recuperação do sistema. Há muito o que fazer, há muitos que ainda devem pagar por seus erros. Continuemos atentos!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


GESTÃO CONTRATUAL EM TEMPOS DE SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN

abril 1, 2018

A propósito da gestão contratual das obras diante das inovações tecnológicas no ambiente da construção (ver, “A (R)EVOLUÇÃO DAS CONSTRUTECHS” e “SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN NA CONSTRUÇÃO”, publicados no BLOG DO SOLER – https://blogdosoler.wordpress.com/), ambas as partes, Contratante e Contratado, vislumbram mudanças significativas nas operações que a compõe.

Até então, as boas práticas preventivas da gestão contratual foram baseadas na leitura atenta e na análise crítica do contrato visando esmiuçar e tomar ações prévias em respostas às principais questões e cláusulas reveladoras de fragilidades contratuais (incertezas e ambiguidades) e de potenciais fundamentos para as reinvindicações e pleitos futuros.

O desembarque da tecnologia nos canteiros de obras

Com o desembarque da tecnologia nas atividades operacionais do canteiro de obras (dispositivos móveis, sensores vestíveis, aplicações de Internet das Coisas, realidade aumentada e drones, entre outras), parte dessas cláusulas tendem a ser desdobradas em processos operacionais rotineiros passíveis de programação e de controle autômato (Smartcontracts) e podem ser processadas dentro da plataforma da Blockchain sem a interferência humana, potencializando credibilidade e confiança no cumprimento do objeto e das condições do contrato pelas partes.

Desse modo, tornam-se passíveis de acordos via Smartcontracts as cláusulas contratuais relativas ao monitoramento e controle de: (a) avanço físico e processamento das medições, multas e penalidades; (b) interferências no cronograma provocadas por mudanças no planejamento previsto, reprogramações, presença de obstáculos, atividades operacionais programadas, acidentes, etc.; (c) cumprimento das obrigações contratuais sob a responsabilidade das partes, tais como a liberação de áreas e acessos, o fornecimento de autorizações e licenças, o controle de resíduos, o fornecimento de projetos de Engenharia, a liberação de frentes de serviço, etc.; (d) condições gerais de execução, tais como, as características geotécnicas das áreas designadas, a disposição de recursos fornecidos pelas partes, as condições ambientais, as exigências de qualidade e de SSMA, o controle de ativos e de efetivos alocados na obra, a elaboração de diário de obras e de data books, entre outros…

O advocacy dessa intermediação tecnológica fica ainda muito mais claro quando se considera o ambiente das obras públicas.

Os benefícios potenciais imediatos da automação do monitoramento e controle das cláusulas operacionais do contrato (Smartcontracts), processados por meio de aparatos tecnológicos e através da Blockchain, são nítidos e se estendem desde a prontidão, precisão e transparência da disposição da informação, à confiança em sua veracidade pelas partes, implicando assim na redução de reinvindicações, pleitos e litígios futuros e acarretando na eficiência operacional da obra e na entrega eficaz do legado contratado, realizados de modo lícito.

Alento proporcionado pelo futuro que já é presente!

A relação contratual intermediada pela tecnologia é o porto que se vislumbra como o futuro – futuro semeado cuja colheita já pode ser vista a olho nu, no presente, diante dos anúncios intermitentes de investimentos em inovação feitos pelo segmento que, deixando de lado a inércia de seu conservadorismo histórico, corre atrás de suas potencialidades em velocidade surpreendente, buscando soluções tecnologicamente viáveis, precisas, escaláveis e cada vez mais baratas.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Tatiana de Oliveira Gonçalves, Advogada e sócia fundadora de OLIVEIRA GONÇALVES ADVOGADOS. Mestre em Direito Empresarial. Conselheira da Câmara de Arbitragem e Mediação do CREA/MG. Membro da Lista de Árbitros da CAMARB e da CMA – CREA/MG – tatiana@oliveiragoncalves.com.br


BLOCKCHAIN ANTICORRUPÇÃO – PAUTA A UM CANDIDATO

abril 1, 2018

Em tempo de eleições e considerando um país extremamente dividido em suas posições ideológicas, a pauta do combate à corrupção pandêmica que assola o país, desde que embasada no contexto republicano democrático e fundamentada pelos preceitos da legalidade e da justiça, ganha um significado amplo e irrestrito, capaz de pautar uma agenda comum de diálogo a ser compartilhada pela sociedade, candidatos e partidos políticos.

Uma proposta dessa envergadura foi publicada pelo Procurador da República Adjame Alexandre Gonçalves Oliveira no site do Jota (https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/blockchain-anticorrupcao-07032018) no último dia 07/Março. Propõe o Procurador, criar um “blockchain anticorrupção” para registrar, autenticar e transferir ativos públicos ou, mais especificamente, adotar “uma plataforma blockchain anticorrupção que suporte um sistema integrado de informação e gerenciamento das atividades financeira e patrimonial do poder público”.

Em seu texto altamente esclarecedor e didático o Procurador afirma que “A corrupção é um fenômeno complexo e que tem sido tratado apenas sob a perspectiva da repressão criminal … e da punição aos corruptos”, e considera que esta não é a única opção existente, tampouco a mais eficaz. O autor conclui, fazendo um contraponto a essa afirmação e sugerindo que, de modo diferente, a sua proposta concentra esforços na diminuição das oportunidades para a prática da corrupção.

Sugiro a leitura atenta e a incorporação da proposta do Procurador Adjame Alexandre Gonçalves Oliveira à pauta de campanha de políticos verdadeiramente interessados na solução do problema e na reunificação de nossa sociedade.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


SMARTCONTRACTS E BLOCKCHAIN NA CONSTRUÇÃO

março 25, 2018

Satoshi Nakamoto é uma entidade virtual. Um Cyberpunk cuja privacidade é protegida por criptografia até então não desvendada. Ninguém sabe realmente se Satoshi Nakamoto existe como pessoa ou, o que ele é. O que se sabe ao certo, é que em 2008 Satoshi Nakamoto assinou um artigo na internet chamado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” que, desde então, vem causando uma disruptura sem precedentes nas relações de trocas entre indivíduos com a criação da criptomoeda Bitcoin e da plataforma tecnológica sobre a qual são processadas suas transações, denominada Blockchain.

O que é Blockchain?

De modo simplificado e não técnico, a Blockchain é a estrutura de dados concebida para serem processadas as transações realizadas com o Bitcoin na internet, garantindo transparência, imutabilidade, rastreabilidade e segurança a todos os registros realizados. É tamanha a sensação da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain que as pessoas se sentem confortáveis em transacionar e entregar ativos, assim como vender produtos e serviços pela internet, por meio da criptomoeda, mesmo estando à distância e sem contato físico ou conhecimento mútuo entre das partes envolvidas. Essa confiança na segurança das operações tem proporcionado a perspectiva da extensão ampla das aplicações da Blockchain para além das fronteiras das transações monetárias com o Bitcoin, incluindo aí, inclusive, a confiança no processamento de eleições nacionais.

O que são os Smartcontracts?

Um apêndice valoroso que acabou se valendo da “cyber segurança” proporcionada pela Blockchain são os Smartcontracts (contratos inteligentes ou contratos digitais). Estes, são programas de computador auto executáveis capazes de automatizar rotinas burocráticas simples e que são processadas dentro da plataforma da Blockchain sem a interferência humana, potencializando assim credibilidade e confiança no cumprimento do objeto e das condições do contrato pelas partes.

Como ilustração imagine que você adquire um aplicativo para o seu smartphone e decide pelo pagamento parcelado. Caso você fique inadimplente, pode acontecer do programa disparar um comando de bloqueio do seu aplicativo, automaticamente, em cumprimento das cláusulas contratuais acordadas. Ou ainda, imagine que você é pego por excesso de velocidade por um radar inteligente que fotografa a sua placa, levanta seus dados e, imediatamente, envia um documento bancário de multa para sua residência. Percebam que em ambos os casos o programa de computador, de forma automática e autônoma, tomou as decisões cabíveis de execução de um “pseudo contrato” digital, o primeiro relativo à aquisição de um serviço, o segundo relativo ao cumprimento de uma lei.

Smartcontracts   e Blockchain no segmento da construção

No segmento da construção, os Smartcontracts operando sob a plataforma Blockchain, encontram infinitas possibilidades de aplicações que servem de solução para problemas atuais de ineficiência e potencializam a lisura das operações.

Obviamente, o fundamento básico dessas possibilidades advém da introdução de inovações tecnológicas no ambiente da construção (vide “A (R)Evolução das Construtechs”, neste blog) que têm possibilitado a automação dos canteiros de obras por meio de dispositivos móveis, sensores vestíveis inteligentes, aplicações de Internet das Coisas (IoT), realidade aumentada e drones, entre outras.

Como ilustração, tal como na operação das multas de trânsito por um radar inteligente, podemos conceber um Smartcontract entre um prestador de serviços e seu cliente, operacionalizado através de sensores inteligentes móveis instalados próximos ao local da obra. Este se encarregaria de enviar sinais da evolução física e do controle tecnológico (qualidade) para o modelador 3D que, automaticamente, e à distância, avaliaria a conclusão e o ritmo da obra, processando a liberação de medições e o pagamento ao prestador de serviços, sem a interferência humana e a necessidade da presença física da fiscalização. O tráfego dos dados seria feito através da Blockchain, garantindo a transparência, a eficiência e a rastreabilidade da transação e minimizando indisposições entre as partes, pleitos e litígios judiciais.

Nessa mesma linha, podemos conceber ainda os Smartcontracts atuando no recebimento, retirada e controle de estoque de materiais e ferramentas nos canteiros, controle de quantidades e produtividade de efetivos de mão de obra disponibilizados pelos prestadores de serviços, controles tecnológicos, registro e controle de condições ambientais impactando no ritmo e produtividade do avanço físico, etc. Enfim, toda e qualquer transação operacional simples que, atualmente, vem sendo realizada por indivíduos passíveis de interpretações subjetivas, erros e ilícitos, poderiam ser substituídas por operações automáticas, transparentes, públicas, rastreáveis, seguras e confiáveis, realizadas através da Blockchain.

Impactos dos Smartcontracts   na construção

Certamente, se o leitor deixar fluir a sua imaginação na linha dos exemplos mencionados acima, fatalmente chegará à conclusão de que os Smartcontracts mudarão dramaticamente os papeis ocupados pelos agentes de fiscalização e de gestão das obras. Assim como, tendem a abafar, no nascedouro, as supostas vantagens das certificações acreditadas de obras, atualmente em discussão, e que introduzem novos “cartórios” burocráticos aos contratos de construção.

Some-se a isso as perspectivas de eficiência na operação das obras, com ganhos na redução de custos e despesas, qualidade e celeridade das entregas, impactando positivamente a geração de empregos, renda e os cuidados ambientais.

Que venha o futuro. Vida longa aos Smartcontracts e à Blockchain!

As inovações tecnológicas introduzidas pelas Construtechs, os Smartcontracts e a Blockchain, prometem mudar abruptamente o cenário e as relações contratuais da construção. O futuro é uma folha em branco a ser desenhada e tudo ainda está no chão. No que tange às obras públicas, o contribuinte aguarda com alento a chegada desse futuro na esperança de poder usufruir efetivamente dos serviços prestados pelas edificações e pela infraestrutura disponibilizada com a sensação de eficiência e lisura no trato dos recursos que lhe pertencem.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


A (R)EVOLUÇÃO DAS CONSTRUTECHS

março 11, 2018

Inovação é a palavra do momento – alicerce do surgimento de empresas que buscam, através do novo, respostas relevantes (na conjugação das dimensões econômica, social e ambiental) para perguntas que nem sequer foram explicitadas ainda, mas que se manifestam como incômodos e demandas potenciais do mercado e da sociedade. Mais que nunca, empresas existentes e novos empreendedores de todos os segmentos estão apostando em inovações em produtos, processos produtivos e, de forma disruptiva, em novos modelos de negócio, provocando mudanças drásticas e descortinando um futuro até então inimaginável.

Nessa dinâmica, o segmento de construção é classificado como um dos mais conservadores do mercado, acatando lenta e tardiamente (late adopter) o movimento de mudanças que tem sido sustentado, fundamentalmente, pela disposição de novas tecnologias – artigo recente da Harvard Business Review, indica que o segmento se posiciona como penúltimo colocado no ranking mundial de adoção de tecnologias digitais.

 “A geração tech está mudando o mundo dos negócios”  

A tecnologia tem sido o alicerce dessa (r)evolução do novo e as empresas em geral estão apostando pesadamente nela para se reinventar, se reposicionar de modo competitivo e, principalmente, garantir sua fatia de espaço em mercados que estão sendo criados pela própria gênese da transformação inovadora.

Há pouco cunhou-se o termo “tech” para se denominar as novas empresas (startups) de tecnologia inseridas no contexto da inovação, dedicadas a oferecer soluções para problemas potenciais da cadeia de valor de diferentes segmentos de negócio e que, apesar de operarem sob condição crítica de incertezas, dispõem de potencial perceptível de repetitividade e escalabilidade. Nesse sentido, temos deparado com a onda de criação das Fintech (nas finanças), Lawtechs (no direto), Martechs (no marketing), Healthtechs (na saúde), Edtechs (na educação), Proptechs (no mercado imobiliário), … assim como as Construtechs no segmento da construção que, apesar do conservadorismo histórico do setor, estão mudando drasticamente os conceitos e o modo conhecido de se fazer obras e operar o negócio de modo profundo e extensível à toda a cadeia de negócios.

“A revolução sem volta das Construtechs”

 Dentre tantas inovações tecnológicas que vêm sendo ofertadas pelas Construtechs, destacam-se: a modelagem e a compatibilização de projetos através do BIM; a fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); as estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; o uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; a automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis, sensores vestíveis inteligentes, o rastreamento de ferramentas; a aplicação da Internet das Coisas (IoT), da realidade aumentada, de aplicativos e de drones; o controle do ritmo produtivo e o monitoramento de procedimentos para a realização eficiente do trabalho; a gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

Segundo o MapaConstrutechs (www.construtechventures.com.br) atualmente são mais de 250 startups nacionais em atuação criando um ambiente de disruptura no setor.

“As Construtechs despertam interesses e investimentos” 

Não à toa, já se observa no país um movimento intenso e crescente de apoio à geração de novas ideias empreendedoras e fomento à criação de Construtechs.

Iniciativas precursoras e sólidas como a Construtech Ventures opera um fundo de venture capital específico para apoiar startups desse ecossistema e já contabiliza uma dezena de projetos em andamento.

Em paralelo, grandes empresas nacionais do segmento tradicional da construção, também estão mergulhando na onda proporcionada pelo potencial rejuvenescedor das inovações tecnológicas. Há pouco, a Andrade Gutierrez Engenharia, anunciou a criação da Vetor AG, a primeira aceleradora de Construtechs a permitir a aplicação de pilotos em escala real no país. Já de início, a Vetor AG promoveu a seleção de startups dirigidas à solução de desafios que figuravam como interesses críticos da operação das obras da matriz: Tecnologia para concreto, gestão de frota e equipamentos, apontamentos de produtividade em campo, solda e tubulações, trabalho em altura e andaimes, sondagens de solo, testes de qualidade de materiais, gestão de canteiros, gestão de almoxarifado, produtividade da mão-de-obra direta e plantio e recuperação ambiental.

 “Elas são a lenda – as startups unicórnios”

Mas não pensem que a extensão das inovações tecnológicas se limita à solução dos problemas já conhecidos das obras e do mercado atual da construção. As Construtechs não nascem, necessariamente, como apêndices das grandes empresas tradicionais do setor visando, apenas, alavancar seus desempenhos através de inovações orgânicas.

O movimento “tech” é mais profundo. Elas estão criando e são o próprio futuro que se desconhece. Elas pautarão a dinâmica dos novos negócios, em particular, da construção. E elas serão as estrelas desse novo mercado!

Um outro termo que vem sendo talhado no contexto da dinâmica da inovação disruptiva das “techs” é o das startups unicórnios. Tratam-se de empresas cuja avaliação de preço no mercado supera US$ 1 bilhão antes da abertura de seu capital nas bolsas de valores, alavancadas nas suas propostas impactantes. Atualmente, o clube fechado dos unicórnio dispõem de, aproximadamente, duas centenas de empresas em todo o mundo.

O Brasil já dispõe de suas empresas unicórnios. Elas começaram pequenas, mas hoje são os faróis do mercado – iluminam as mentes e enchem os olhos de todo empreendedor. A 99 entrou para o clube como a primeira empresa unicórnio do Brasil após receber o aporte milionário da DiDi Chuxing, empresa Chinesa dona da maior plataforma móvel de transporte do mundo. A PagSeguro superou o valor de mercado após sua oferta inicial de ações na bolsa de valores Nasdaq, nos Estados Unidos. O Nubank anunciou há pouco que a empresa chegou ao valor de US$ 1 bilhão por conta de uma rodada de investimentos.

Ainda não temos nossas Construtechs unicórnios genuinamente nacionais, mas alguém duvida de que eles já estão a caminho?

“Que venha o novo”

O que se percebe é que o segmento de construção nacional, em tempos de reavaliação de seu modus operandi e dinâmica de negócios, aposta na tecnologia e, em particular, nas Construtechs como uma alavanca propulsora de sua reinvenção e redenção.

Que venha o novo, e que estejamos atentos pois, tal como enfatizou este blog no último post, diante do novo que sustenta a mudança, configura-se necessariamente o perfil de um (igualmente) novo profissional.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

 


RECOLOCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DEPOIS DOS 50 ANOS

fevereiro 25, 2018

Recebo diariamente notícias e currículos de amigos que, involuntariamente, despertaram um dia na condição de desempregados. Profissionais do mais alto calibre com vasta experiência em obras, exímios técnicos, excelentes gestores e executivos. Gente que dedicou a vida, que entregou resultados e que fez história nas grandes construtoras. Gente que produziu conhecimento e que formou gente.

Entretanto, gente que na plenitude da vida produtiva, às vezes com filhos tardios à criar e certamente com contas à pagar, foi apartada do emprego, do cargo, do status e da (suposta) segurança financeira, e está tendo dificuldades para se recolocar. Independentemente de sua história de vida, gente que se sente relegada, desacreditada e rebaixada em sua auto-estima.

Gente incluída nas estatísticas!

Não é para menos, dados da Pesquisa PNAD Contínua do IBGE de janeiro de 2018, mostram que o setor da construção perdeu 6,2% da população ocupada em 2017 na comparação com 2016 e 12,3% desde 2014. Reforçando a estatística, o Sinduscon-SP informou que o número de pessoas empregadas na construção civil caiu 5% em 2017 contabilizando 125 mil vagas a menos em relação a 2016, apenas no estado de São Paulo.

Por que chegamos aqui?

As crises política e econômica que se arrastam desde 2014, agravadas pelas operações de combate à corrupção que desmontaram o modelo de negócios ilegal até então vigente, justificam a situação de declínio da atividade econômica do setor da construção que, diante dos novos desafios legais, regulatórios, tecnológicos, de gestão e de escassez de investimentos tenta agora se reinventar de maneira disruptiva.

Boa governança e inovação pautam as discussões estratégicas do setor de construção

Governança e inovação têm sido os alicerces da reformulação do setor da construção que já contabiliza transformações expressivas. Ao mesmo tempo em que se observa maior transparência e adequação legal (compliance) do negócio, promove-se impactos na melhoria da gestão das obras, associadas a resultados de redução de desperdícios, prazos e custos e com maior comprometimento social e ambiental.

Inovações tecnológicas e de gestão

Dentre tantas inovações tecnológicas e de gestão perceptíveis, destacam-se: a modelagem e a compatibilização dos projetos através do BIM; a fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); as estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; o uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; a automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis e sensores vestíveis inteligentes; o uso de aparatos inteligentes baseados na Internet das Coisas (IoT), na realidade aumentada e nos drones; a disseminação de aplicativos voltados à gestão de obras; a construção enxuta; a priorização dos processos; o controle do ritmo produtivo; a gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

O novo profissional da construção

Diante do novo que sustenta a transformação experimentada pelo setor da construção, configura-se o perfil necessário de um (igualmente) novo profissional: íntimo do uso e das potencialidades da tecnologia digital, intuitivo, pragmático, colaborativo, flexível em suas ideias, internacionalizado em sua networking e sensível às causas ambientais e sociais, aberto e disponível a aprender ininterruptamente.

O desafio da recolocação

Não se faz mais obra misturando areia, cimento e aço – aqui reside o grande desafio do profissional maduro que busca recolocação no mercado de trabalho diante das inovações tecnológicas e de gestão adotadas pelas empresas e pelo setor. Independentemente do peso de seu currículo, ele não pode se pautar exclusivamente em sua experiência pregressa e na networking que lhe restou para garantir o retorno ao emprego. Ele deve estar aberto a se reinventar, tanto quanto tem estado as construtoras e o mercado.

Ele deve estar disposto a aprender e reaprender tudo o que desconhece e que um dia pensou dominar. Obrigatoriamente, terá que mergulhar no mundo da tecnologia e da informática, lidar com sistemas e aplicativos de gestão e de automação, aprender a navegar pelo mundo virtual. Terá que reposicionar a sua networking, aproximando-se de novas lideranças presenciais e remotas, reconstruir as suas referências profissionais e agregar valor à nova teia e sinapses do conhecimentos (conteúdo e experiência não lhes faltam).

Entretanto, isso vai exigir que assuma um novo perfil de comportamento, mais curioso, aberto e humilde. Terá que interagir com os mais jovens e com o mundo virtual, perguntar o que desconhece, pedir e aceitar feedbacks, abster de suas certezas, ousar fazer diferente e aceitar o que se impõe como o novo. Terá que trabalhar de modo colaborativo e transmitir confiança e otimismo.

Terá que aceitar não dispor da autoridade do cargo, reportar-se a gente bem mais jovem, não ser chamado para opinar e, invariavelmente, terá que aceitar um salário menor do que o que estava acostumado a receber.

Enfim… não será fácil!

Mas, por outro lado, não é de todo impossível. A vantagem é prolongar a sua longevidade no mercado e alimentar-se da energia vital do contato com os mais jovens e de tudo o que é novo e que representa o futuro. Isso vai fortalecer a auto-estima e iluminar com novas cores a sua vida.

As alternativas profissionais, para quem não desejar se adaptar ao novo modelo, são empreender ou mudar de ramo. Mas creia, isso também não é fácil e também vai exigir uma adaptação profissional.

Diante da situação pergunto aos amigos maduros que me mandam currículo: o que você está esperando para religar a sua juventude e acender o interruptor de seu futuro profissional?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e do LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


FELIZ NOVO ANO, BRASIL

fevereiro 18, 2018

À meia noite da primeira segunda feira da quaresma, o meridiano que adentrará o continente através da Ponta do Seixas/PB, no extremo leste do país, trará consigo o anúncio, de fato, do novo ano de 2018. Contrariando o calendário Gregoriano, o Brasil se acostumou a adotar o calendário paralelo de Momo, que estabelece um vácuo temporal e um apagão consentido de atitudes e decisões importantes, entre o marco oficial de 31 de dezembro e o término das festanças estendidas do carnaval.     

O novo ano que começa é uma incógnita que vem precedida de previsões pessimistas de ampliação do cinza e do frio. Quiçá, uma boa opção para o seu posicionamento na história seria “entrar mudo e sair calado”, atravessando o país e chegando em 31 de dezembro no extremo oposto, na nascente do Rio Moa/AC, o mais rapidamente possível, sem alardes ou lembranças de sua passagem. Afinal, 2018 é apenas uma ponte obrigatória para o país chegar em 2019 sob nova direção.

Ou, na melhor das hipóteses, o novo ano de 2018 poderia incorporar a energia vital de sua juventude e se rebelar contra os desígnios de sua propalada natureza triste, morna e choca, e desse modo, assumir uma personalidade positiva, enérgica e radiante, enfrentando com coragem e retidão os desafios que assombram a sua jornada de 10 meses entre a Paraíba e o Acre, deixando legados desejados ao futuro do país e carimbando o seu passaporte virtuoso para a história.

Nessa condição, sugiro à 2018, em forma de oração, desafiar abertamente algumas (supostas) utopias nacionais em voga: que ilumine a intervenção federal do Rio de Janeiro com as luzes da legalidade e da humanidade, e que aponte alternativas para a superação da violência e da criminalidade urbana em todo o país. Que nos permita dispor de escolhas de lideranças políticas capazes de unificar e pacificar o país nas eleições presidenciais. Que nos esclareça na eleição de um congresso novo e diferente, mais ético e comprometido com as causas e o bem-estar da sociedade. Que devolva a responsabilidade e a decência às instituições que compõem os Três Poderes da república. Que não permita a aprovação, de forma obscura e questionável, da exclusão de direitos sociais conquistados pela luta democrática. Que reaqueça o potencial econômico do país permitindo o alento dos jovens, devolvendo o trabalho e a autoestima aos desempregados. Que fomente a tolerância e o respeito aos extremismos de nossa sociedade polarizada, permitindo a concepção de um ideal de país que satisfaça necessidades e que minimize diferenças. Que nos permita acolher de forma humana a desgraça alheia dos refugiados Venezuelanos, Haitianos, Sírios, e todos os outros que foram marginalizados de sua cidadania por ditadores sem escrúpulos. Que puna exemplarmente todos os criminosos de colarinho branco, políticos, empresários e funcionários públicos, permitindo-nos voltar a acreditar na justiça dos homens.

Que 2018 reacenda a nossa esperança no país. Que assim seja. Amém!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e sócio da Schédio Engenharia Consultiva– alonso.soler@schedio.com.br


CARTAS À NATÁLIA

fevereiro 11, 2018

Natália é uma estudante do último ano de Administração da UNIFEI em Itajubá-MG que está às voltas com as preocupações da batalha pelo primeiro emprego. Li o seu texto “COISAS DE GENTE GRANDE” (https://www.linkedin.com/pulse/coisa-de-gente-grande-natalia-pereira-nunes/?published=t ) e convidei alguns amigos para lhe escrever pequenas cartas que fossem, além de tudo, extensíveis à todos os jovens que se encontram na mesma situação – dicas, comentários e conselhos em resposta às suas preocupações e ansiedades. Alavancado na notoriedade de meus amigos, dedico esse texto aos jovens e à infinita esperança no nosso país.

À NATÁLIA

DE: ANTONIO CESAR AMARU MAXIMIANO – PhD em Administração e Professor da USP

Prezada Natália,

Nem sempre o que um recrutador procura é o que vai ser importante na carreira e na vida. Habilidades sociais, entre elas a habilidade política e a inteligência emocional, são tão importantes quanto as habilidades técnicas. Nas faculdades, só se estudam as habilidades técnicas. Na verdade, apenas a convivência e a experiência ensinam as habilidades sociais, já que não há como “dar aulas” sobre elas…

Nem sempre o que os recrutadores dizem que é importante será de fato importante dentro da empresa. Muitas vezes eles falam em criatividade, capacidade de questionamento, arrojo e, uma vez lá dentro, a conformidade será privilegiada. Entrando, procure conhecer a cultura.

Preserve suas âncoras de carreira: talentos, interesses, competências, atitudes. Procurar se amoldar ao que o mercado quer viola esses atributos seus. Faça o contrário: procure o lugar onde você se encaixa melhor.

À NATÁLIA

DE: MÁRIO DONADIO – Sociólogo, Professor na Fundação Dom Cabral e na Pós Graduação do Mackenzie. Diretor da Uniconsultores

Cara Natália,

Um dia chegará em que você estará empregada. Parabéns! Será preciso então se manter no emprego. Só há duas regras: produzir resultados, entregar com qualidade, dentro do prazo, além do que é esperado e, integrar-se à cultura da empresa.

Enquanto você estiver “entregando” e tiver comportamentos adequados à cultura, estará empregada. Caminhar na carreira é desenvolver sua empregabilidade. Por que esperar que alguém lhe indique portas se você mesma pode encontrá-las; melhor do que isso, criá-las e você mesma abri-las?

Aja como se estivesse em busca de outro emprego. Não seja fiel à sua empresa, seja fiel à sua empregabilidade. Enriqueça seu currículo, faça cursos, desenvolva seu inglês, participe de congressos, se exponha no mercado, faça trabalhos voluntários dentro de sua área de conhecimento, escreva artigos, publique, divulgue… Considere cada emprego como o aprendizado para ter um emprego melhor, que lhe proporcione mais oportunidades de crescimento, melhor salário, melhor qualidade de vida.

À NATÁLIA

DE: GUY CLIQUET DO AMARAL FILHO – PhD em Comportamento Organizacional (Tulane University), Mestre em Mecatrônica (POLI-USP) e Coordenador Executivo da Pós Graduação Lato Sensu do INSPER

 À Natália (e a todos aqueles que estão juntos com ela)!

Duas ideias que podem ajudá-la a iniciar esta nova fase da vida:

A preocupação em acertar a escolha pela carreira profissional é sempre grande, durante toda a vida. Pensamos que acertar de primeira seja sucesso, aceitação social. No entanto, não se aborreça: qualquer opção que tome em sua carreira, sempre poderá mudá-la e nunca será tarde para fazê-lo. Pois o mundo e você mudam, sempre; e o futuro é grande suficiente para receber seus movimentos com braços abertos! A vida lhe aceitará melhor se for flexível e perspicaz o suficiente para acompanhar a evolução humana.

Qual a área melhor para você atuar? Marketing, Vendas, Pessoas, Finanças? Como vai se sentir em cada uma destas? Vale a pena consultar-se sobre como você se percebe em atuar em cada uma delas; acredita que sua habilidade verbal possa ser importante para Vendas? Ou que seu domínio em matemática seja decisivo para uma atuação no mercado financeiro? É importante que se imagine nestas situações para tomar sua decisão. Mas não se iluda; tomará gosto realmente pela sua escolha apenas após atuar por alguns anos, aprendendo as habilidades envolvidas e alcançando resultados com seu esforço. Sim, só terá satisfação quando alguns anos se passarem e perceber quanto aprendeu, podendo só agora realizar. Vai lembrar de alguns erros, e muitos acertos. E, por isto mesmo, sabendo do valor que foi atingir tal estágio, terá mais alegria depois destes anos de experiência do que quando iniciou. Poderá então dizer, de boca cheia: “Sou uma hábil negociadora!” ou “Sou uma maravilhosa gerente financeira”.

Por último, meu voto: tudo dará certo para você, pois mesmo naturalmente incerta quanto ao princípio, confia em sua determinação, inteligência e visão! Sucesso à você, Natália!

À NATÁLIA

DE: ALONSO MAZINI SOLER – Doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), Professor da Pós Graduação INSPER e Sócio da Schédio Engenharia Consultiva

Enfim Natália … segue agora uma palavra adicional na tentativa de tornar mais leve o fardo de suas ansiedades de “adulta”. Permita-me mudar o foco e questionar seus valores e suas expectativas. Será mesmo que são necessários um emprego e uma carreira para conseguir realizar seus sonhos? Será mesmo que comprar um apartamento e um carro representam os seus verdadeiros sonhos?

A mim, faria mais sentido você estar se perguntando: O que eu poderia estar fazendo produtivamente (como meio para a geração de renda) que me desperta paixão, que inquieta a minha mente, que me faz sorrir e acelera os batimentos do meu coração?  Será que o apartamento, o carro e a acumulação de alguns bens ilustram adequadamente o resultado do que eu espero do tempo de vida que eu dedico ao trabalho? Será que eu preciso mesmo de um emprego e uma carreira estáveis e progressivos para eu ser feliz?

Estou te sugerindo que inclua nas suas opções de concepção de futuro outras visões, mais atuais, como a de empreender, por exemplo. Criar o seu próprio trampo, ser seu próprio patrão (será que você vai aguentar?), mergulhar fundo numa jornada que te faz sentido pessoal e que valorize o seu tempo e energia vital, dar-se a chance de errar e acertar quantas vezes for necessário, compor a sua renda de subsistência e construir a sua vida a partir daquilo que te apaixona. Pode ser que isso não te leve a comprar o apartamento e o carro aos 28 anos, mas certamente lhe trará outros benefícios mais preciosos, basta trocar a lente dos óculos com que você enxerga a vida. Mude o foco e surpreenda-se. Tudo vai dar certo!


TRANSPARÊNCIA E PREVENÇÃO DA CORRUPÇÃO

fevereiro 4, 2018

A ONG Transparência Internacional (TI) acaba de publicar o estudo “Transparência em Relatórios Corporativos – As 100 Maiores Empresas e os 10 Maiores Bancos Brasileiros” (http://transparenciacorporativa.org.br/trac2018/ ). O estudo, inédito no contexto exclusivamente nacional, se propõe a avaliar a situação das maiores corporações brasileiras em seus padrões de transparência e de prevenção à corrupção.

Sobre o estudo da Transparência Internacional

O relatório esclarece como as 100 maiores empresas brasileiras e os 10 maiores bancos (segundo o ranking Valor1000, do jornal “Valor Econômico”) divulgam informações sobre: suas práticas anticorrupção (PAC), sua estrutura organizacional e ramificações societárias (TO) e seus dados financeiros relativos à atuação em outros países (RPP) – três aspectos fundamentais da avaliação da transparência corporativa e indicativos basilares da boa governança corporativa e da mitigação do risco de corrupção. As empresas receberam notas de acordo com a extensão e a qualidade da divulgação desses itens e foram ranqueadas por dois índices: O Índice Geral considerou apenas as duas primeiras dimensões (PAC e TO) e foi aplicado às empresas que não têm operações no exterior. O Índice de Multinacionais Brasileiras, levou em conta os três critérios conjuntamente.

Destaques dos resultados

Como resultados gerais, o relatório aponta o desempenho ruim das empresas pesquisadas. O grupo que não têm operações no exterior, teve o Índice Geral calculado em 5,7 em uma escala de 0 a 10: PAC (65%) e TO (48%). Já o grupo de multinacionais teve resultado ainda pior. O Índice de Multinacionais Brasileiras foi calculado em 4,5: PAC (74%), TO (58%) e RPP (3%).

Observando atentamente os resultados gerais, pode-se verificar que a diferença entre os dois grupos de empresas (operações restritas ao Brasil e multinacionais) e o baixo desempenho dos índices de transparência das multinacionais estão diretamente relacionados à falta de divulgação de informações básicas sobre sua atuação fora do Brasil, o que dificulta o monitoramento da sociedade acerca do entendimento da estratégia de investimentos e atuação das empresas nacionais em países com propensão a práticas antiéticas.

O relatório completo do estudo apresenta os resultados individualizados de cada empresa pesquisada, permitindo a análise nominal da transparência de cada empresa, assim como, da aglutinação por setor econômico. Nesse quesito deve-se ressaltar os resultados positivos apresentados pela Neoenergia, concessionária de energia elétrica, e pela Votorantim Cimentos, do segmento de materiais de construção, que obtiveram a pontuação máxima (100%) nas duas primeiras dimensões analisadas (práticas anticorrupção – PAC e estrutura organizacional – TO) e encabeçaram o Índice Geral. Outro destaque positivo vai para os resultados do setor de energia que abriga quatro dentre as dez empresas mais bem colocadas no Índice Geral.

O setor de construção de infraestrutura está representado na pesquisa pelas empresas:

  • Odebrecht. Índice de Multinacionais = 5: PAC (100%), TO (50%) e RPP (0%),
  • Construtora Queiroz Galvão. Índice de Multinacionais = 4,5: PAC (85%), TO (50%) e RPP (0%) e
  • Construtora Andrade Gutierrez Índice de Multinacionais = 3,8: PAC (88%), TO (25%) e RPP (0%)

Percebam a nota zero dessas empresas multinacionais no quesito RPP que trata da divulgação de dados financeiros relativos à atuação em outros países, o que derruba o Índice consolidado, apesar dos resultados acima da média nos quesitos PAC (divulgação de práticas anticorrupção) e TO (divulgação de estrutura organizacional e ramificações societárias).

A transparência das empresas da Lava Jato

O relatório chama a atenção para os resultados acima da média obtidos por empresas emblemáticas investigadas e condenadas por escândalos de corrupção recentes, entre as quais destacam-se a Odebrecht (Índice Geral = 7,5), a JBS (Índice Geral = 8,1) e a Petrobras (Índice Geral = 8,4).

De relance esses resultados podem parecer incoerentes, mas a explicação passa pelo esforço recente e intensivo dessas empresas de promover mudanças internas capazes de abonar a retomada de sua credibilidade no mercado e de suas operações. Muitas dessas iniciativas resultaram das contrapartidas de compliance e transparência contempladas nos acordos de leniência pactuados com autoridades públicas que lhes garantiram o retorno à participação nas licitações públicas e financiamentos através de bancos públicos de fomento.

Cabe ainda mencionar avanços institucionais significativos que interferiram no modo de gestão dessas empresas, tais como a Lei Anticorrupção nº 12.846/2013, que prevê a responsabilização objetiva de empresas que praticam atos lesivos contra a administração pública nacional ou estrangeira, e o impacto categórico das operações Lava Jato e Zelotes, entre outras e suas ramificações, que levaram à prisão grandes empresários e políticos notórios envolvidos em casos de corrupção – fato que até então parecia utópico num país onde as práticas de corrupção era reconhecidas como endêmicas.

Mas a transparência e o compliance que vêm pautando as mudanças no modo de gestão dessas empresas e sustentando sua governança, e que estão espelhadas nos resultados da pesquisa, não decorrem apenas de fatores compulsórios legais. A participação das empresas no combate à corrupção tende a ser considerada ainda, uma obrigação corporativa ética respaldada por países e mercados em âmbito global, e defendida por instituições multilaterais, organizações e a sociedade civil. A nova ordem global tende a não mais admitir comprar ou fazer negócios com empresa envolvidas em escândalos econômicos, ambientais ou sociais. Para sobreviver, a empresa deve se adaptar. E as empresas sabem disso e estão tentando se reestruturar nesse contexto.

O legado dos escândalos

Apesar do retrocesso econômico e social vivenciado no Brasil e da consequente dor imposta aos milhões de desempregados, os escândalos de corrupção no país, estão deixando legados que podem ser vistos de modo positivo – o fortalecimento das instituições, a mensagem explícita da lei acima do poder e dos poderosos e o amadurecimento do modo gestão das empresas, baseado na governança corporativa e em seus pilares de sustentação. Legados que permitem projetar cenários otimistas para o futuro, sem os constantes percalços de novas crises provocadas pela gestão e relacionamento antiéticos de empresas públicas e privadas.

#NãoPodeFicarNoPapel

O relatório da Transparência Internacional menciona suas limitações – não se trata da disposição ética (ou não) das empresas pesquisadas, mas apenas da publicação transparente de informações relevantes acerca de seus programas anticorrupção, o que por sí só, já é um passo fundamental que permite o monitoramento atento da sociedade acerca do comportamento ético das empresas.

Mas não basta publicar as informações de modo transparente. O relatório conclui enumerando iniciativas de encaminhamento para que as empresas evoluam rapidamente em sua disposição anticorrupção. Vale a pena conferir. Não pode ficar apenas no papel!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


2018 AINDA É UMA INCÓGNITA PARA O SETOR DA CONSTRUÇÃO

janeiro 28, 2018

Melhora a confiança do empresário do setor de construção

A Sondagem da Construção é uma pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE) que permite o monitoramento e a antecipação de tendências econômicas para o setor. O Índice de Confiança da Construção (ICST) é o indicador-síntese dessa pesquisa e é composto por quesitos que conjugam a situação atual dos negócios e as expectativas dos empresários sobre a demanda futura. Na semana passada (26/janeiro) foi divulgado o resultado de janeiro de 2018 do ICST que subiu 1,5 pontos diante do mês anterior, e atingiu o melhor resultado (82,6 pontos) desde de janeiro de 2015 (85,4 pontos).

Melhora a perspectiva de retomada do emprego

A confiança dos empresários do setor da construção, apontada pelo indicador, sinaliza a retomada da atividade nos meses anteriores e a percepção de otimismo em relação ao futuro, o que, certamente, impacta positivamente o nível de recuperação do emprego no setor, que terminou 2017 com um déficit de 103,9 mil vagas. Ainda sobre o quesito emprego, a pesquisa divulgou que passou de 26,2%, em dezembro, para 18,8%, em janeiro, a proporção de empresas informando a diminuição do quadro de pessoal, um sinal evidente de alento para o trabalhador do setor.

Mercado: Bolsa em queda e dólar em baixa

Ainda na semana passada, a perspectiva de otimismo do setor da construção alimentou-se também da reação positiva do mercado ao anúncio da condenação do ex-presidente Lula pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e a sua possível impugnação ao pleito presidencial de 2018. Desde então, a bolsa de valores vem operando em alta, atingindo o patamar histórico de 85.000 pontos e o dólar vem sendo comercializado a preço estável com tendência de queda, sinalizando a clara posição do mercado contrário às perspectivas estatizantes e antirreformas defendidas pelo ex-presidente e seu partido e apostando na retomada do crescimento econômico com Lula fora do páreo.

A volatilidade do ânimo  

Obviamente o otimismo dos empresários do setor de construção, assim como o comportamento da bolsa e do câmbio são caracterizados pela subjetividade e pelo imediatismo, e estão sujeitas a extrema volatilidade. Complementarmente, ainda que sejam variáveis significativas do modelo, não serão apenas as apostas otimistas do mercado a alavancar a economia e a retomada de seu curso virtuoso. Tudo pode mudar ao sabor das repercussões de curto prazo dos próximos lances da política e seus reflexos na confiança dos investidores e nos demais fundamentos da economia. Tal como na metáfora das paixões de carnaval, tudo pode acabar na quarta-feira.

2018. Desalento ou boas novas? 

Por essas e outras, o ano de 2018 ainda é, definitivamente, uma grande incógnita para o setor da construção. Considerando que algumas lideranças políticas andam defendendo a desobediência civil generalizada e a ruptura com os padrões democráticos e institucionais, ainda no 1º trimestre o ano de 2018 poderá ser declarado natimorto, derrubando o ânimo do mercado e do setor, para desespero do trabalhador desempregado ou, por outro lado, quiçá, poderá recuperar os seus sinais vitais e revelar-se promissor à gradual recuperação do setor de forma sistêmica e sustentável. A estrutura republicana nacional e a responsabilidade (ou falta dela) de representantes e instituições serão o fiel dessa balança a precipitar o desalento ou a declarar as boas novas sobre o ano recém iniciado.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


O BRASIL BARATO

janeiro 22, 2018

Já consta do sistema eletrônico do Planalto, aguardando a aprovação do presidente Temer a regulamentação da Lei nº 13.448 de Junho de 2017 que estabelece diretrizes para a relicitação dos contratos de concessão nos setores rodoviário, ferroviário e aeroportuário e que fazem parte do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) da Administração pública federal. A notícia, aguardada com ansiedade pelo mercado, permitirá aos atuais concessionários oficializar a “devolução” de projetos de infraestrutura que se mostraram inviáveis financeiramente e se transformaram em verdadeiros “micos” devido à frustração dos cenários e perspectivas econômicas otimistas nos últimos anos.

Relicitação de concessões

Nos termos da Lei, a relicitação compreende a extinção amigável do contrato de parceria e a celebração de um novo ajuste negocial para o empreendimento.

Na cesta dos projetos que aguardam a autorização para dar prosseguimento ao trâmite de devolução e relicitação encontram-se a concessão do Aeroporto de Viracopos em Campinas, SP (Aeroportos Brasil Viracopos) e alguns trechos das rodovias BR-153 (Galvão Engenharia), BR-040 (Via 040 – Invepar), BR-163 (Rota do Oeste – Odebrecht Transporte), BR-050 (MGO Rodovias) e BR-060/153/262 (Triunfo Concebra).

O que consta no pacote da relicitação?

A regulamentação prevê que a relicitação implicará em um novo valor de outorga a ser pago pelo novo investidor. Pelo lado do atual concessionário, este poderá ser indenizado pelos investimentos realizados e não amortizados, calculados pelas agências reguladoras e acordados através das câmaras privadas de arbitragem visando conferir maior agilidade ao processo. Já os possíveis financiamentos tomados pelos antigos concessionários a taxas de juros consideradas adequadas, poderão ser repassados ao novo investidor, desde que com o aval do agente financiador.

Implicações da relicitação

Por um lado, a relicitação parece ser uma solução adequada para a continuidade das obras e a manutenção de serviços fundamentais ao país e ao cidadão, que foram contratados através de parcerias público-privadas e que se tornaram inviáveis devido a circunstâncias alheias à vontade das partes.

Por outro lado, a relicitação de grandes projetos de infraestrutura realizada em tempos de acirramento das crises política e econômica, rebaixamento do grau de investimentos do país, discussão acelerada sobre o descumprimento da regra de ouro e o provável aumento da dívida pública, tende a frustrar as expectativas de novos investimentos barateando os novos valores de outorga e fazendo com que as concessões, provavelmente, sejam negociadas na “bacia das almas” (em valor e condições) ao capital estrangeiro, ou que esses projetos simplesmente, continuem paralisados no papel e que os serviços sejam mantidos no patamar mínimo de aceitação, em prejuízo ao cidadão contribuinte.

O fato é que essa situação força uma escolha entre o péssimo e o pior. A lição aqui aprendida é óbvia: é necessário menos interferência política e mais uso de quadros técnicos competentes e independentes para lidar com os projetos de parceria vinculados ao Estado.

Mas, não seria essa uma prescrição demasiadamente utópica num país em que a ignorância dos eleitores é alta e o senso de oportunismo dos políticos é grande? Evidente que sim. Mas se a sociedade civil não abraçar essa utopia vamos continuar pagando caro para enxugar o gelo da incompetência de um Estado dominado por interesses políticos e partidários.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

Álvaro Camargo, Mestre em Administração de Empresa pelo Mackenzie, Professor de Pós Graduação na Fundação Getúlio Vargas e Consultor de Empresas – falecom@alvarocamargo.com.br – www.linkedin.com/in/alvarocamargo


CARTAS NA MESA PARA 2018

janeiro 15, 2018

No apagar das luzes de 2017 o Banco Credit Suisse divulgou ao mercado o seu boletim de análise da conjuntura do país, intitulado “Brasil – Cenário melhor, mas ainda incerto para 2018 e 2019”. A mensagem do relatório é fundamentalmente positiva o que provoca alento e esperança: o ambiente global continuará favorável para o Brasil em 2018, a retomada gradual da atividade econômica continuará em curso em 2018 e o investimento direto no país continuará alto em 2018. Entretanto, a fonte faz uma ressalva ao cenário econômico favorável devido às incertezas no cenário político – a incapacidade do governo, impopular, de aprovar medidas relevantes no congresso em ano de eleições gerais e a baixa previsibilidade do resultado do pleito presidencial.

Diante das perspectivas, desde o início do ano, as cartas do jogo começaram a ser apresentadas, esboçando o cenário real que teremos nas mãos para enfrentar o ano novo.

Em sinalização às boas novas, o BNDES acabou de anunciar a ampliação do crédito para investimentos em infraestrutura na ordem de R$ 23Bi em 2018, assim como, o recente acordo entre o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o chamado “banco do BRICS” e o Banco Santander Brasil, abre novas possibilidades de concessão de linhas de crédito com juros baixos à projetos de financiamento de infraestrutura no país com baixas taxas de juros, sinalizando um caminho a participação dos bancos privados no segmento que, até então, mantinha-se quase que exclusivamente restrito aos bancos púbicos de fomento.

A tendência positiva, entretanto, foi resfriada na semana passada pelo revés do anúncio do rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência Standard & Poor’s que, apesar de ter sido bem recebida pelo mercado (a bolsa fechou estável e o dólar caiu), tende a gerar consequências negativas à retomada econômica do país, no que tange ao aumento da desconfiança do investidor externo e o encarecimento de empréstimos e financiamentos para a Petrobras e os bancos estatais que poderão ter seus ratings consequentemente reavaliados para baixo.

Mas, a cartada decisiva, e ansiosamente aguardada, virá no próximo dia 24 de janeiro com a decisão do julgamento de Lula. O mercado aposta contra Lula e a sua impugnação no peito presidencial, pois enxerga nele o retrocesso dos (pequenos e frágeis) avanços macroeconômicos que sustentam hoje as perspectivas positivas – a certeza de intervenções políticas nas empresas estatais, o retorno do inchaço do aparelho público e o abandono das reformas estruturantes necessárias.

Jogo em andamento, o bom de tudo isso é que, desta vez, o Brasil poderá estar pronto para dar a alargada ao ano novo de 2018 imediatamente após o carnaval. Façam as suas apostas!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


A REFORMA TRABALHISTA E O TRABALHO POR PROJETOS

janeiro 7, 2018

A reforma trabalhista do governo, em vigor desde novembro passado, criou uma nova categoria de serviço que não estava contemplada na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho): o contrato intermitente de trabalho. A partir de então, as empresas podem contratar funcionários para trabalhar esporadicamente e pagá-los apenas pelo período da prestação de seus serviços.

A quem interessa o Trabalho Intermitente?

Pelo novo regime, o trabalhador poderá ser contratado e ficar à disposição da empresa até ser convocado para o trabalho, quando, aí sim, prestará o serviço solicitado e receberá sua remuneração pelo tempo (horas) efetivamente trabalhado, acrescida de direitos trabalhistas proporcionais. Conceitualmente, esse novo modelo de trabalho tende a ser útil para o tipo de indústria que enfrenta picos sazonais de demanda e de mão de obra durante o ano, para o comércio durante os finais de semana e datas festivas, ou para as empresas de serviços que sejam demandadas esporadicamente por seus clientes.

Contratações intermitentes, autônomos e pejotas.

A diferença entre o novo contrato de trabalho e a contratação de um profissional autônomo ou uma pessoa jurídica (pejota) reside no vínculo de subordinação. O trabalhador intermitente receberá ordens e terá o seu trabalho supervisionado pelo empregador, tal como um trabalhador em tempo integral, enquanto o profissional autônomo ou o pejota agem com independência e se responsabilizam pelas entregas combinadas. Por outro lado, a similaridade no trabalho entre eles reside na necessidade do empregador de dispor de um profissional que se ocupe exclusivamente de um trabalho ou de uma entrega específica, requerida num intervalo de tempo determinado – ou seja, o trabalho por projetos.

As criticas à nova modalidade de contratação afirmam tratar-se de uma tentativa de legalizar em larga escala o “bico” e a consequente redução de direitos trabalhistas conquistados.

Sem nos ater às interpretações sobre o sentido dos avanços ou retrocessos da nova lei, o fato é que as contratações intermitentes, os autônomos e pejotas permitem ao empregador associar, diretamente, os gastos com mão de obra às receitas – paga-se por aquilo que se vende e isso, supostamente, reduz custos, previne riscos e facilita a geração de trabalho e renda.

Trabalhar por projetos é, pois, condição inevitável e posta à mesa.

Cabe então a discussão sobre como o trabalhador deveria se posicionar diante dessa nova configuração nas relações de trabalho, diante do fato de que ele passará a ter que lidar com clientes, e não mais com empregadores. Deverá saber precificar e vender seu tempo e suas competências. Necessitará se organizar para tratar com diversos contratos concomitantes para que a somatória de seu “tempo vendido” seja compatível com a sua renda pretendida. Que não mais será um empregado, e sim patrão de si mesmo,  empresário pessoal de suas habilidades e competências.

Cabeça de patrão.

Cabeça de patrão exige um novo modelo mental, independente, proativo e empreendedor, além de novas competências pessoais e profissionais – pressupõe arriscar-se no mercado e a tentar matar “o leão do dia”, todos os dias, sem poder depender exclusivamente do empregador.

Para tanto, a especialização e a diferenciação são os fundamentos da nova postura profissional – saber “empacotar” de modo mercadológico as capacidades, experiências e as potencialidades de sua vida profissional pregressa num catálogo de serviços pessoal e no contexto de uma atituite empreendedora. Aprender a planejar suas finanças e seu tempo, aprender a se vender, se disciplinar para entregar o prometido com nível adequado de qualidade. Perseverar e superar as dificuldades, reconhecendo que o contexto trabalhista do pleno emprego provavelmente nunca mais retornará, ainda que isso não signifique capitular e deixar de lutar.

Lamentar-se ou continuar caminhando?

Sob o ponto de vista do trabalhador, não será fácil mudar o seu posicionamento nas relações de trabalho, considerando que essa transição para o mundo dos projetos não lhe foi apresentada como uma opção. À eles cabe se lançar na marcha da adaptação com desprendimento, abertura para uma nova vida, estudo e desenvolvimento contínuos.

Já para aqueles que há tempos se aventuraram no mundo dos projetos e deles aprenderam a tirar o seu sustento, essa nova realidade soa como um alento e com a certeza de que já pavimentaram parte do futuro que se vislumbra.

Estamos todos preparados?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


CALIBRANDO O TERMÔMETRO PARA 2018

janeiro 2, 2018

Sou um professor. Lido diariamente com a juventude e adoro o que faço. Reconheço que a ela cabe forjar, e a ela pertence, o futuro – aliás, ela é o futuro! E isso se traduz em força e poder. Afinal, está nas mãos dos jovens “consertar os erros” das gerações passadas e fazer valer a sua própria perspectiva de acerto, justiça e sucesso. Entretanto, enfatizo que, infelizmente e em contrapartida, esse poder de mudar o mundo e forjar um futuro melhor consome parte de sua liberdade, uma vez que exige a responsabilidade da participação e do protagonismo, pesando sobre as suas costas o resultado futuro de suas decisões e atitudes atuais – e isso costuma gerar ansiedade, medo, e frequentemente, frustração.

Como professor e pai eu tenho estado aberto a dialogar e facilitar esse processo de transição e metamorfose da juventude: de casulo à borboleta, de atirador de pedra à vidraça, de demandante coletivo à decisor solitário. Este texto ilustra um diálogo com uma jovem que, como outros tantos, quer mudar o mundo.

Você é jovem Natália, você pode tudo!

O que percebo sobre mim mesma é que estou em formação, estou em busca de um caminho no qual possa obter as realizações que considero inspiradoras e desafiadoras. Considero-me jovem, porém, ao mesmo tempo sinto que tenho preocupações que me tornam, por vezes, mais séria do que seria necessário: preocupo-me com emprego que não tenho, com salário, com moradia, com um plano de saúde, com segurança, etc.

Mas essas são, provavelmente, as mesmas preocupações de seus pais, de seus avós, e dos pais de seus avós. Como expressar o novo nas suas prioridades?

Acredito que posso expressar o novo por meio de minhas inquietações, pois preocupo-me com as condições do ambiente em que vou viver. Preocupo-me se terei ar e água minimamente limpos para respirar e beber. Pergunto-me se algum dia poderei voltar a confiar que o poder público trabalhará em prol da minha comunidade, ou se o mesmo irá me proporcionar um pronto socorro onde poderei presenciar pessoas sendo atendidas de forma humana e sem longas horas de espera. Questiono-me se verei uma escola pública verdadeiramente voltada à educação de massa, cujos resultados se estendam além da motivação puramente política que esconde sua implementação precária e seu mau planejamento e funcionamento. Um Estado que se envergonhe de dizer que não sabe quando irá efetuar o pagamento de seus funcionários, como se isso fosse um mero favor passível de adiamento e parcelamento. 

Mas está em suas mão ajustar a direção das coisas. Essa energia reinvindicatória pode ser usada para promover mudanças.

Sinto essa necessidade de agir e de interagir ainda mais com o mundo a minha volta, entretanto, ao mesmo tempo vejo que são muitas as perguntas que faço a mim mesma. Talvez essa inquietação seja algo inerente da minha geração, entretanto, esta mesma força que me leva a questionar faz com que eu veja o presente sem o mesmo o brilho de quando eu era criança – quando tudo se resumia a um mar de possibilidades. Na realidade, quanto mais amadureço mais a vida se mostra dura e menos amável. Não me entenda mal, admiro a vida e o espectáculo de acordar e ter mais uma chance, contudo, sinto-me temerosa quanto ao que vejo e quanto a alguns retrocesso percebidos. Sinto que temos uma infinidade de caminhos para seguir, no entanto, algumas vezes, sinto como se a bússola que deveria me guiar para o futuro estivesse confusa, sem norte e prestes parar. Pressinto que estou entrando em um labirindo do qual não sei se conseguirei sair, pois reconheço o futuro que desejo, mas não sei ao certo se sei como construí-lo.

Mas você concorda que o mundo, hoje, é melhor do que o que foi no passado? E que o futuro será melhor que o presente? Temos mais acesso à tecnologia e à informação e isso nos liberta e nos une de modo global – nos torna mais conscientes e fortalece a nossa cidadania.

Sim, hoje as pessoas possuem um volume exorbitante de informação a sua disposição que pode ser compartilhada e utilizada de acordo com sua própria vontade e capricho. Mas, apesar de isso ser um importante avanço tecnológico e social ele propicia uma “falsa” liberdade de expressão que resulta em desrespeito para com o próximo – racismo, homofobia e violência, infelizmente, têm se tornado mais comuns e recorrentes atualmente.

  Todos tem muito a dizer, mas pouco a filtrar e a ouvir. Muitos se acham no direito de compartilhar ódio e preconceitos pelo simples fato de que as ferramentas de tecnologia estão ali dispostas, e que não se pode coibir essa tal “liberdade de expressão”. Esqueceram-se de que há limites entre uma opinião ponderada e a ofensa velada e que  todos, inclusive os estrangeiros residentes no país, tem certos direitos fundamentais que, não apenas garantem o direito a liberdade de expressão, mas como também o direito a resposta e a punição quando a tal “liberdade” causar dano moral, material ou prejuízo à imagem.

Acredito que o enorme volume de informação disponível pode confundir, alienar e proporcionar o desinteresse das pessoas para com a construção do seu futuro – um mal que cresce silenciosamente, enquanto se saúda o novo mundo da informação.

Teremos eleições no Brasil em 2018. A política responderá como um alento às nossas mazelas?

Todos dizem que devemos escolher um partido! E para isso, devemos olhar o histórico! Para mim, sinceramente, não existe escolha, eu não queria nenhum deles, não queria nenhum partido, pois ao meu ver todos eles me olham com desdém e se portam como se minha inteligência merecesse ser subjugada. Novamente, neste quesito, sinto-me perdida em um labirinto estranho, visto que quanto mais acompanho a política menos me encanto por ela. Onde estão os homens e as mulheres fortes, inteligentes, estrategistas e humanos que trabalhariam pelo desenvolvimento da minha nação? Onde estão os ideais que me orgulhariam? Para onde foram os debates fundamentados na experiência e não em discursos meramente demagogos e inflamados? Gostaria realmente de dizer que seremos capazes de mudar o mundo apenas com essa eleição, mas infelizmente o labirinto em que me encontro se comprime e me leva a pensar que talvez tenhamos um longo caminho pela frente.

Quais são suas expectativas para 2018?

É difícil dizer algo direto sobre minhas espectativas para 2018 pois, de um modo vago, espero apenas que as coisas melhorem em todos os aspectos. Quero um país que eu possa admirar e confiar. Mas acima de tudo quero um futuro onde as pessoas respeitem umas as outras, não porque devem, mas sim porque sentem a naturalidade deste ato.

Estou ciente de que meus desejos são vagos, porém, no final das contas desejo apenas ter mais certeza quanto ao futuro que teremos pela frente.

E qual a sua parcela de responsabilidade no alcance de suas próprias  expectativas? O que pretende fazer???

  Acredito nas pequenas ações que se multiplicam e contaminam, tornando-se grandes e transformadoras através de exemplos. Creio que quando hesito em jogar algo no chão meu exemplo é visto e replicado. Sinto que quando me nego a ser desonesta, mesmo em ações cotidianas, alguém também estará vendo e se fortalecendo por aquilo. Creio na força de um bom dia e na força de um olhar com bondade para a dor alheia. Acredito que quando me revolto com o que vejo e me posiciono para defender meu ponto de vista, novas ideias surgem e até mesmo as minhas prórpias ideias sofrem certa mutação, pois acredito que devemos construir sempre em conjunto, com pessoas que muitas vezes nem mesmo voltarei a encontrar.

Sei que preciso agir e escutar mais, estou ciente de que minha geração está acostumada a falar e permanecer sentada, quero aprender com o mundo e talvez, quem sabe, ser capaz de ensinar um pouquinho. Mas insisto, acredito no poder das ações diarias e aparentemente pequenas, acredito que devemos sim dialogar sobre tudo e deixar para traz o velho preconceito de que a paz só será mantida se não falarmos sobre polêmicas e controvérsias deste nosso mundo.

Por:

Natália Pereira Nunes, Estudante de Administração na UNIFEI – Itajubá/MG –  natalia_pn@yahoo.com.br

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br  


O ENFRENTAMENTO SISTÊMICO DA CORRUPÇÃO E DO SUBORNO – NORMA NBR ISO 37.001:2017

dezembro 26, 2017

Breve histórico do enfrentamento da corrupção e do suborno

Na sequência do escândalo de Watergate e da descoberta de pagamentos ilícitos a funcionários estrangeiros, o Congresso Norte-Americano aprovou em 1977 a Lei Federal Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) visando combater a corrupção transnacional por pessoas ou entidades relacionadas aos EUA – um reconhecimento da existência de corrupção nas entranhas do poder e tornando ilegal o pagamento de propinas a funcionários públicos estrangeiros com a finalidade de obtenção de privilégios.

Desde então, vários outros esforços se desenvolveram em todo o mundo para o enfrentamento da corrupção e do suborno no mundo dos negócios, cuja gravidade coloca em risco a própria sociedade organizada. A Organização das Nações Unidas – ONU, considera que a corrupção é o maior obstáculo ao desenvolvimento econômico e social no mundo e, estima que a cada ano, US$1 trilhão são gastos em subornos.

Em 2010 foi promulgada a United Kingdom Bribery Act (UKBA), a lei britânica de combate e prevenção à corrupção, que teve grande influência no comércio mundial.

Em 2012 a Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) foi revisada, em virtude dos escândalos da crise de 2008.

Lei 12.846 Anticorrupção

Em 2013, a linha de ação chega ao Brasil com a promulgação da Lei Federal 12.846, conhecida como Lei Anticorrupção, e todas as empresas e seus dirigentes passam, a ser expostos a consequências penais por “práticas de ato lesivo à administração pública, nacional ou estrangeira, caso o mesmo seja praticado em seu interesse ou benefício, exclusivo ou não, e independentemente de seu conhecimento ou autorização” (Responsabilidade Objetiva) – fica, desde então, invalidado o argumento frequentemente utilizado do “eu não sabia de nada”.

Programa de Integridade

Devido à Lei Anticorrupção, houve um forte direcionamento das empresas para o pleno atendimento dos requisitos legais, normativos e regulatórios (compliance) aplicáveis e vigentes aos negócios, assim como a disposição (conforme previsão legal do Decreto 8420 que regulamenta diversos aspectos da Lei 12.846) de um Programa de Integridade interno, visando evitar e combater comportamentos corruptivos (desvios, fraudes, irregularidades e atos ilícitos em geral) por seus administradores, empregados, representantes e, até mesmo, fornecedores e prestadores de serviços, contra a administração pública.

A Norma NBR ISO 37001:2017 Sistemas de Gestão Antissuborno

Em Londres, junho de 2013, tem início a história da norma ISO 37001. O trabalho contou com a participação do Brasil através da Comissão de Estudos Especiais Antissuborno (CEE 278) que foi coordenada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Em outubro de 2016, foi lançada a norma ISO 37001 – Anti-Bribery Management Systems (Sistemas de Gestão Antissuborno) em resposta a diversos interesses internacionais diante dos casos de suborno que assolavam o noticiário mundial e, especificamente o cenário brasileiro, ameaçando a sociedade. Finalmente, em março de 2017, foi lançada no Brasil a norma ABNT NBR ISO 37001:2017 (Sistemas de Gestão Antissuborno – requisitos com orientações para uso).

Os requisitos estabelecidos pela norma ISO 37001 trazem o estado da arte para o tratamento dos riscos de suborno, incluindo a evidência do empenho da organização na condução de diretrizes afirmativas, conforme um certificado internacionalmente reconhecido. A sua integração com as diretrizes de Compliance (ISO 19.600) resulta em um Sistema de Gestão estrategicamente alinhado com o Programa de Integridade interno e amplia a efetividade da governança organizacional, ressoando para a sociedade uma mensagem empresarial de valorização da ética e comprometimento com o enfrentamento da corrupção.

Enfrentamento sistêmico da corrupção

Nada mais premente no Brasil atual que o enfrentamento sistêmico da corrupção pelas organizações privadas nas suas relações com entidades públicas (organizações e seus representantes). Nada mais necessário e urgente no processo de recuperação econômica e política do país que a demonstração de transparência e lisura empresarial, de se jogar dentro das regras estabelecidas e de perseguir vantagens a partir da competência administrativa, operacional e da eficiência, sem as quais, não haveremos de pacificar o país, nos posicionar adequadamente no contexto internacional e reencontrar o caminho do desenvolvimento e do crescimento.

Que se mude a cultura vigente de se levar vantagem em tudo e a qualquer custo. O país precisa apostar na lisura das relações empresariais com a Administração e as normas ISO NBR ISO 37001:2017 e ISO 19.600, associadas à Legislação Anticorrupção traduzem-se num verdadeiro alento para quem aposta na retomada dos rumos morais do pais.

Por:

Jefferson Guimarães, Engenheiro Civil, MBA em Gerência Empresarial e Mestrando em Gestão e Desenvolvimento Regional – iso37001guia@gmail.com

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

 

PS: Jefferson Guimarães é autor do livro “Sistemas de Gestão Antissuborno – Seu Guia para a ISO 37001”. Nele, através de um estudo de caso, o autor ilustra os desafios e o processo de enfrentamento da corrupção e o suborno numa organização nacional, com base nas normas ABNT NBR ISO 37001:2017 (Antissuborno), ISO 19600 (Compliance), Lei 12846 (Anticorrupção) e Decreto 8420 (Plano de Integridade).


PERSPECTIVAS 2018 PARA O SETOR DA CONSTRUÇÃO

dezembro 17, 2017

Projeções divulgadas neste final de ano pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam um crescimento de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) da Construção Civil no Brasil em 2018 – essa tendência, caso seja confirmada, reverterá a série histórica de três anos seguidos de recessão.

A boa notícia gera um certo alento ao setor que deve fechar o ano de 2017 com seu PIB reduzido em 6,4% e 11% a menos de trabalhadores empregados, tendo sido frustradas as expectativas de crescimento de 0,5% anunciadas no início do ano.

A retomada prevista está baseada, pelo lado do mercado imobiliário, no encaminhamento de propostas governamentais de regulamentação jurídica dos distratos de compra e venda de imóveis, na ampliação do crédito imobiliário por agentes financeiros e na capitalização da Caixa Econômica Federal (CEF) que lhe permita ampliar as contratações de novos empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). Já pelo lado das obras de infraestrutura, vislumbra-se movimentos promissores advindos da retomada dos investimentos da Petrobras e, principalmente, da entrada do capital internacional, principalmente proveniente de investimentos Chineses – note que esse último ponto foi tema de artigo anterior deste blog.

Perspectivas positivas semelhantes foram anunciadas na semana passada através do estudo “Cenários Prospectivos: o setor de construção no Brasil de 2016 a 2018” (http://www.bibliotecas.sebrae.com.br/chronus/ARQUIVOS_CHRONUS/bds/bds.nsf/06c6fd6c070c9fc2128072f868de06cb/$File/7531.pdf ), elaborado pelo Sebrae, que avaliou o previsões futuras para o Produto Interno Bruto da Construção (PIB-Construção), Produto Interno Bruto Total (PIB-Total), consumo, gastos do governo, investimento privado, Índice Nacional da Construção Civil (INCC), Custo Unitário Básico da Construção (CUB), faturamento e uma série de índices de preços que influenciam a cadeia da construção.

Pelo estudo, foram identificados os dois fatores mais impactantes ao setor da construção no período 2016-2018: os aspectos econômicos e a situação política – corroborando o fato de que o setor foi (e tem sido) extremamente afetado pelas crises política e econômica que assolam o país. A partir desses fatores prioritários foram elaborados e analisados três cenários prováveis (apresentados por ordem de probabilidade) que se prestam a nortear o planejamento das empresas e profissionais do setor: (1) Expectativa de retomada da governabilidade com potencial estabilidade econômica; (2) Política e economia em sintonia, gerando crescimento e (3) Recessão econômica em meio à instabilidade política.

De fato, o que se consegue extrair de ambas as pesquisas é a extrema dependência do setor da construção do fortalecimento do desempenho econômico e dos desdobramentos da situação política. Se, no aspecto macroeconômico, parece que o país vem fazendo a sua lição, segurando a inflação e derrubando juros, no aspecto político, a situação é de absoluta incerteza acerca da aprovação de ajustes e reformas estruturantes por um congresso enfraquecido, acusado e omisso, bem como da própria condição de governabilidade, em ano de eleições majoritárias, no qual prevalecem a insegurança jurídica, a polarização ideológica do debate e a ausência de opções capazes de unificar e apaziguar ânimos aguerridos.

Infelizmente, a ausência de cenários plausíveis adequados sobre a situação política, enfraquece a confiança nas previsões favoráveis para o Brasil e para o setor da construção, em específico, e retroalimenta o ciclo vicioso de falta de esperança e falta de ação proativa, prejudicando, antecipadamente os resultados. Quiçá o desenrolar diuturno de 2018 possa ir nos revelando, passo a passo, opções adequadas que nos acalentem o destino. Quiçá saibamos sair desse labirinto ilesos.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


SIM! PROVAVELMENTE VOCÊ TERÁ UM CHEFE CHINÊS

dezembro 11, 2017

Bem-vindos Ienes!

Os Chineses investiram mais de 60 bilhões de reais na compra de empresas e ativos no Brasil apenas nos últimos 3 anos. E os números não param de crescer! Os setores que estão recebendo esses aportes são diversos, mas estão, prioritariamente, ligados à infraestrutura e ao agronegócio, passando pela exploração de recursos naturais, indústrias em geral, tecnologia e finanças.

Chama a atenção o fato desses investimentos estarem sendo realizados, em grande parte, por empresas estatais Chinesas, sugerindo que o movimento responde às prioridades estratégicas da China no Brasil visando a garantia de logística e produção eficientes de insumos, energia e alimento para o país asiático.

Segura que vem mais por aí!

Entre os principais negócios de 2017 residem a compra da distribuidora de energia CPFL pela Chinesa State Grid por 14 bilhões de reais, a compra da TCP, operadora do terminal de contêineres do Porto de Paranaguá, a parte da Odebrecht no aeroporto Galeão, usinas hidrelétricas, blocos de E&P de petróleo e gás e empresas de sementes e tradings agrícolas. Até esta data, a Chinesa Shandong Kerui estava na frente na disputa para construção da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) do Comperj no estado do Rio de Janeiro.

Passa ainda pelo radar dos boatos a possível participação na negociação da operadora de telefonia Oi, a construção da FIOL (Ferrovia Oeste-Leste), que deverá escoar a soja plantada na região do Centro Oeste pelo porto Baiano de Ilhéus, e o interesse na retomada da construção das refinarias de petróleo Premium I e II no Maranhão e no Ceará.

Fique atento às diferenças e à necessidade de adaptação  

Se o volume bilionário de investimentos Chineses soa como um alento aos milhões de desempregados brasileiros, especialmente aqueles do segmento da construção e infraestrutura, há que se pensar, entretanto, que trabalhar para uma multinacional Chinesa requer adaptação e resiliência à nova cultura.

Apesar de estarem se internacionalizando cada vez mais, o modelo típico de gestão das empresas Chinesas é baseado em tradições, na valorização da senioridade, no respeito inquestionável à hierarquia, à autoridade, aos protocolos, à pontualidade e na limitação da autonomia.  O que não é fácil de ser encarado pelo trabalhador brasileiro que prefere agir de forma voluntariosa e livre, questionadora e crítica. A construção de uma relação de confiança com esse novo empregador vai exigir muito mais disposição, dedicação, disciplina e comprometimento do profissional brasileiro.

Legislação que freia o ímpeto de compra

Se por um lado a adaptação cultural é uma máxima desejada do profissional brasileiro nessa relação, por outro, a nossa legislação trabalhista tende a atuar como um esteio aos excessos do (possível) patrão Chinês quanto à imposição de condições de trabalho muito distintas das nossas. Empresas Chinesas não estão acostumadas com nossos direitos adquiridos, encargos trabalhistas, complexidades contratuais e “jeitinho” pessoalizado de trabalhar. Para o bem ou para o mal, de certo modo, a nossa legislação trabalhista provavelmente freia o ímpeto Chinês de investir ainda mais no país.

Outro ponto da legislação que interfere nos investimentos Chineses no Brasil são os impeditivos legais para a compra de terras por estrangeiros que, pela lei, só podem comprar 25% da área de um município, limitado a 10% para estrangeiros da mesma nacionalidade. Desse modo, os Chineses interessados no agronegócio acabam restringindo e dirigindo os seus investimentos aos pontos indiretos da cadeia agrícola, como a produção de grãos, sementes e logística.

Parceria ou submissão?

O reconhecimento da China como potência global é indiscutível, ainda mais em tempos de vazio de lideranças ocidentais fortes e adequadas, e o Brasil tem cumprido o seu papel no fortalecimento dessa relação em prol das oportunidades decorrentes: geração de empregos, aumento da produtividade e da eficiência em determinados setores, transferência de tecnologia, redução das desigualdades em regiões menos desenvolvidas do país e aprimoramento da infraestrutura produtiva do país.

Resta saber se seremos hábeis o suficiente para construir pontes sólidas de parceria que favoreçam e fortaleçam o nosso desenvolvimento, ou se apenas estamos vendendo barato o país, nos submetendo de forma gananciosa e impetuosa ao poder econômico, nos apropriando de soluções imediatas e vantajosas sem medir as consequências futuras.

Sim! Provavelmente você terá um chefe Chinês nos próximos anos. Resta saber se isso implicará no benefício de uma miscigenação ou no ônus de uma resignação profissional e cultural.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


UNIDADES DE SERVIÇO DE CONSTRUÇÃO – UMA SEMENTE DE SOLUÇÃO

dezembro 3, 2017

A falta de planejamento adequado é uma das alegações recorrentes que justificam os problemas de atrasos, sobrepreços ou superfaturamento (pagamentos acima dos valores de mercado) de obras públicas.

Entretanto, é sabido que não é fácil planejar adequadamente uma obra. Dentre tantas outras complexidades inerentes, o planejamento visa elaborar uma referência lógica e técnica que permita orientar a execução da obra e que equilibre as demandas de três fundamentos básicos: atender as condições do orçamento (custos e preços dos serviços e quantidades contratadas que deverão ser entregues); traduzir esse orçamento em atividades de trabalho distribuídas no tempo de acordo com uma lógica construtiva idealizada e arbitrada pela Construtora; e assegurar o equilíbrio entre os custos incorridos e os critérios de medição pactuados de modo a compatibilizar recebimentos e pagamentos de forma adequada, financeiramente eficiente e menos arriscada.

Orçamento, critérios de medições e cronogramas físico e financeiro deveriam estar em perfeita harmonia e equilíbrio de modo a proporcionar referências firmes para a execução, monitoramento e controle da obra.

Entretanto esses três fundamentos básicos, geralmente, são elaborados de modo isolado e independente, o que dificulta e torna complexo o trabalho do planejamento de fazê-los “dialogar” de modo integrado e fluido.

Um dos problemas consultivos mais frequentes que temos deparado ultimamente é o apoio à tradução e adequação coletiva desses três fundamentos básicos, sob a forma de um planejamento único, consistente e que permita orientar a execução da obra com maior previsibilidade e assertividade.

Façamos uma análise breve da problemática que afeta cada um dos fundamentos:

1. Orçamentação

A atividade de orçamentação pressupõe a tradução e a interpretação de um projeto básico de Engenharia (supostamente elaborado com nível de precisão adequado) sob a forma de uma relação fechada de serviços e quantidades específicas que são, posteriormente, orçados individualmente a partir de Composições Unitárias de Custos (ou, Preços) – que podem ser referências internas próprias das Construtoras que especificam e codificam o seu Catálogo de Serviços (geralmente estratégicos e confidenciais) ou bases de dados referenciais abertas, públicas ou privadas, gerais ou específicas (Por exemplo, o NOVO SICRO do DNIT, o SINAPI da CEF, o TCPO da PINI)

2. Planejamento – EAP, cronograma físico e curva S de custos

A atividade de planejamento também parte da referência do projeto básico de Engenharia, assim como, da experiência prévia da Construtora e da disposição das condicionantes da execução. Entretanto, no planejamento, o foco do trabalho é dirigido para o modo de execução da obra, que se dá através da elaboração de uma EAP (Estrutura Analítica do Projeto) desdobrada ao nível de atividades de trabalho que são distribuídas no tempo – cronograma físico da obra.

Aqui reside uma complexidade aparente do planejamento: em algum nível da EAP, as atividades programadas deveriam “dialogar” com os serviços codificados do orçamento. Entretanto, diferentemente das recomendações indicadas pelas boas práticas de gestão de projetos, a forma como a obra costuma ser orçada não corresponde com a forma como a sua execução costuma ser planejada, exigindo do planejamento a elaboração de uma lógica “de-para”, geralmente imprecisa, capaz de explicitar os custos das atividades individuais programadas e de permitir a sua distribuição no tempo de modo consolidado – curva S de custos.

3. Critérios de Medição – Cronograma financeiro

Há que se enfatizar que os critérios e percentuais de medição costumam compor os contratos firmados entre as partes e, geralmente, são impostos pelo Contratante resguardando os seus interesses. Tais critérios e percentuais são elaborados, portanto, de modo prévio ao planejamento.

Cabe aqui fechar o ciclo de complexidades atribuídas ao planejamento (obviamente não se limitando a isso) que deve se encarregar de equilibrar as estimativas de custos a incorrer no tempo (regime de caixa ou competência), orçados através da curva S, com o término das atividades programadas pelo cronograma e passíveis de medição. Responder as perguntas: Qual atividade dispara qual medição, em qual percentual e qual o valor?

Não é fácil planejar adequadamente uma obra

Em suma, a conjunção das complexidades inerentes oriundas da dificuldade de “diálogo” entre os instrumentos comumente usados para as atividades de orçamentação, planejamento (redes de precedências traduzidas em cronogramas) e medição, dificulta enormemente a elaboração de referências assertivas que possam orientar a execução da obra – CQD (Como Queríamos Demonstrar), tornando árdua a missão essencial de planejar adequadamente a implantação de uma obra.

Entretanto, tal como temos denunciado neste blog em diversas ocasiões, a dificuldade de planejamento não pode continuar a ser uma alegação aceitável da ineficiência observada nos resultados de obras públicas. Deve haver uma solução adequada que faça frente às complexidades inerentes retratadas acima, permitindo que o planejamento cumpra sua missão de orientar a execução da obra de modo adequado, previsível e assertivo.

Proposta: Catálogo Geral de Serviços

Nessa linha de raciocínio, temos avaliado a possiblidade da elaboração e disposição de um elemento que represente “unidades de trabalho” que poderiam ser integradas consensualmente nas relações contratuais e que fossem capazes de serem usadas tanto pelo orçamento, quanto pelo planejamento físico, de custos e pela medição.

Considerando o nível de detalhamento e os esforços que, atualmente, o DNIT, a CEF e a PINI investem na manutenção e disposição de seus instrumentos, o Novo SICRO, o SINAPI e o TCPO, respectivamente, obviamente dentro de interesses específicos, seria demasiado imaginar a construção de um CATÁLOGO GERAL DE SERVIÇOS, acreditado publicamente, composto por uma taxonomia ampla e geral de serviços relacionados à construção, por composições unitárias de custos e tempos desdobradas em árvore de modo analítico e que pudesse servir como referências para o orçamento e a EXECUÇÃO de serviços relacionados à construção?

Temos ouvido argumentos contrários apontando para a inviabilidade dessa proposta:  o tamanho desproporcional desse catálogo idealizado, o custo de sua manutenção, o enrijecimento da atividade de construção, a perda da inventividade da engenharia, etc. Mas também temos ouvido opiniões favoráveis daqueles que contam 10 segundos e pensam antes de assumir a impossibilidade de realizar aquilo que nunca foi feito antes. Qual a relação benefício-custo dessa proposta, desde que pudesse, comprovadamente, interferir positivamente e melhorar a situação de ineficiência das obras públicas?

Uma centelha de luz: Smart Contracts mediando a relação contratual das obras 

Considerando ainda o advento das tecnologias associadas ao uso do Blockchain e dos Smart Contracts, seriam essas “Unidades de Serviço de Construção (USC)” uma fonte de luz no encaminhamento das soluções dos problemas de contratação e ineficiência na gestão contratual de obras públicas? Fica aberta a discussão, estendida à profissionais, instituições públicas, privadas e academia. Alguém quer falar mais sobre isso?

 Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

José Messias Viegas Alves, Engenheiro Civil e Administrador de Empresas – jose.messias@schedio.com.br


MANIFESTO POLITICAMENTE INCORRETO DA GESTÃO DE PROJETOS

novembro 26, 2017

Desejo compartilhar, com quem possa interessar, minha experiência profissional.

Desejo contribuir com o desenvolvimento dos novos Gerentes de Projetos.

Sintetizo esse manifesto através das seguintes prioridades:

 

  • Mais profundidade, embasamento conceitual e estratégia e menos superficialidade e frugalidade.
  • Mais resiliência professional e menos ‘mimimi’.
  • Mais foco, ‘hard work’ e transpiração e menos atalhos, facilitação e dissipação.
  • Mais pragmatismo profissional e menos preocupação com o politicamente correto.

 

Mesmo reconhecendo algum valor nos itens à direita,

eu aposto mais nos itens à esquerda.

Alonso Mazini Soler

Gerente de Projetos, PMP

———————————–

 

15 Princípios básicos (comentados) do Manifesto Politicamente Incorreto da Gestão de Projetos:

1. Não se gerencia projetos com post-its colados nas paredes

Post-its são extremamente úteis como meio de se organizar ideias, principalmente em trabalhos colaborativos. Mas é só! O fato de se colar post-its (independentemente de sua forma, tamanho, cor ou fabricante) nas paredes numa reunião de concepção ou planejamento de projetos, e postar uma foto colorida no Facebook, não elimina o trabalho de ter que submergir nas ideias ao transportar essa produção intelectual para o campo da execução. E aí, a atitude é essencial! Colocar o trabalho em marcha e realizar o projeto é algo que se descola da parede alegremente colorida (da qual você tanto se orgulha) e exige competência, organização, suor e um tanto de sorte.

Gerenciar projetos vai além do esboço superficial de uma ideia.

2. Canvas (qualquer um) é só uma folha de papel que organiza ideias superficiais

Alexander Osterwalder foi muito perspicaz ao conseguir captar e entender o estilo geracional do jovem empreendedor (Geração Z, Mileniuns … Snowflakes) e “enquadrar” o modelo de processamento cerebral da galera, fundamentalmente visual e cinestésico, numa uma única folha de papel (Business Model Canvas), capaz de ser entendida, também, por um agente financiador, cujo estereótipo é caracterizado por um perfil absolutamente oposto.

Essa “ponte de comunicação” entre o jovem empreendedor e o “banqueiro Suíço” conservador funciona muito bem pois, no cerne do entendimento, ambos reconhecem que a tal “folha única” apenas sumariza e facilita o compartilhamento e a compreensão da visão geral do projeto.  Ambos sabem claramente que, a partir da concepção e do consenso inicial é que começa o esforço e a transpiração para fazer aquelas ideias ganharem vida e o projeto deslanchar.

Osterwalder foi seguido por diversos outros autores que se apropriaram desse modelo de concepção e comunicação facilitada (“meu Canvas, meu ‘pitch’”) e propuseram outros tipos de Canvas. Atualmente há Canvas para quase todo trabalho que exige algum tipo de planejamento.

Nada de mau nisso! Pelo contrário. A menos da noção errônea, nascida do imaginário coletivo em tempos de “pós verdades”, que a elaboração de um Canvas, por ser simples, rápida, visual, colaborativa, etc. pode substituir o planeamento adequado de um projeto. Planejamento que vem sendo taxado como um trabalho burocrático, conservador e inútil, numa alusão marqueteira à dialética entre o modelo PMI-PMBOK e o modelo Ágil.

Opps! Infelizmente não é assim!

Planejar um projeto visando colher benefícios (eficácia) reais e de modo eficiente, significa se lançar ao trabalho árduo, complexo e profundo de tentar antecipar o futuro, por mais VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) que seja o ambiente empresarial atual, e agir preventivamente a ele. Trata-se de uma construção progressiva que exige trabalho, concentração, tempo e ferramentas adequadas.

Portanto: É mito! Não se planeja um projeto num Canvas. Apenas, concebe-se a ideia de um projeto num Canvas – use com moderação!

3. O lúdico na gestão de projetos serve apenas para facilitar o aprendizado

Sim. O uso de instrumentos lúdicos, facilita o aprendizado, uma vez que transporta as pessoas para um ambiente imaginário e criativo, onde se pode simular algumas condições e situações-problema adaptadas da realidade e executadas em CNTP (condições normais de temperatura e pressão).

Colocar o adulto em condição de aprender brincando, sentado em círculos no chão mexendo em bloquinhos coloridos, ou em atividades de RPM ou “cosplay”, fantasiados de personagens fictícios, pode ser, entretanto, inadequado, pela infantilização ou simplificação demasiada das situações-problema que se deseja abordar. O fechamento dessa dinâmica tem que ser muito bem feito!

Portanto, cuidado com as possibilidades de aprendizado exclusivamente lúdico! A realidade dos projetos, infelizmente, é mais complexa, cruel e dramática, e insiste em não reproduzir os padrões nelas adotadas.

4. O trabalho de um projeto não pode ser resumido a um simples deslizar do dedo indicador num app de smartphone. Tem que se malhar outros músculos também

Aplicativos de smartphone estão dominando a execução operacional dos projetos. Cada dia um novo e melhor app se insere na nossa vida profissional. Eles organizam as atividades do trabalho, consolidam as responsabilidades e durações, enviam mensagens de cobrança através do work flow, apontam o que foi feito, deduram o que não foi feito e acendem luzinhas indicativas de semáforos de acordo com o desempenho.

Tudo isso de modo simples, rápido, num deslizar de dedo e … melhor ainda … geralmente são grátis.

Trata-se da onda do momento. Parece que a vida do Gerente de Projetos se resume a saber usar um bom app e ter um dedo rápido no gatilho.

Ledo engano! Provavelmente de quem não entendeu ainda que Gerenciar Projetos é mais que ficar preenchendo templates pré-prontos, operar programas de computador ou lidar com engenhocas tecnológicas coloridas.

5. Ágil não é, necessariamente, mais rápido, simples, adequado ou eficiente

Agilidade, em Gestão de Projetos, não significa, necessariamente, fazer os projetos de forma mais rápida, ou mesmo ser mais assertivo no prazo final planejado para a entrega do projeto. Agilidade está relacionada à flexibilidade, principalmente do escopo do projeto. Métodos Ágeis priorizam e dão valor às entregas parciais do projeto – estas sim, são bem-vindas, avaliadas com rapidez e imediatamente incorporadas à operação, sem ter que esperar pela conclusão do todo. Agilidade, no sentido de flexibilidade, também se aplica às condições de trabalho e ao cronograma. Nuances da situação organizacional podem impedir o trabalho num momento, ou facilitá-lo em outro – os métodos Ágeis são adaptáveis à essas nuances. As equipes se adaptam para fazer o que dá para ser feito. Nesse sentido, agilidade parece se adequar melhor ao ambiente empresarial VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo).

Nesse sentido, Agilidade, como sinônimo de flexibilidade, vem sendo “propagandeada” como uma forma de trabalho especifica que se contrapõem, e supera, a forma tradicional e rígida de gestão de projetos.

A ressalva a ser feita é que agilidade não é uma panacéia que representa a melhor solução de gestão, única e definitiva, e que veio para substituir o modelo tradicional de modo amplo, geral e irrestrito a todo tipo de projeto.

Não mesmo. Nem todos os projetos, nem todas as organizações e culturas, nem todas as pessoas, nem todos os momentos, se adaptam às condições específicas requeridas pela gestão Ágil.

Portanto, cuidado. Ágil é bom, em certos (e poucos) casos. Embarcar no Ágil pela alegria da galera e da propaganda enganosa de um futuro mais simples, rápido, adequado ou eficiente, é uma gelada! Há que se analisar o caso em questão com cautela antes de se definir pela melhor plataforma de gestão a ser utilizada.

6. Gestão Ágil e a Gestão tradicional PMI-PMBOK não são extremos bipolares antagônicos que se deve adotar apaixonada e religiosamente

Ágil versus PMI-PMBOK é uma dialética falsa, maniqueísta, manipulada comercialmente e conceitualmente errada. Quem gerencia projetos não deveria adotar um ou outro discurso de forma apaixonada, religiosa e facciosa. Ambas as plataformas de gestão são adequadas à requisitos e nuances específicos, assim como, não se deve ignorar a existência e o valor de outras visões, tais como a vertente das competências, defendida pelo IPMA, ou a metodologia PRINCE da OGC, etc. O espectro do mundo da gestão dos projetos é mais amplo, difuso e maravilhoso do que essa visão estreita e dicotômica entre PMI-PMBOK e o Ágil.

Reduzir as potencialidades da gestão de projetos à essas duas únicas plataformas de gestão é demostrar superficialidade de conhecimento e se prestar a um jogo comercial onde quem ganha são, apenas, os representantes comerciais dos dois “partidos”.

A verdadeira competência reside na adoção ampla e situacional do aparato instrumental e conceitual de gestão que se tem disponível, de modo flexível e adaptado à situação momentânea que se tem nas mãos.

Do mesmo modo, a chamada “gestão híbrida”, enquanto for apresentada como uma metodologia rígida, tampouco alivia a discussão. Trata-se apenas uma tentativa de se emplacar a “terceira via”. Tão ruim quanto a obtusidade dos extremos das vias antagônicas originais.

A disposição conjugada de conhecimento amplo, experiência consistente, habilidades tácitas, flexibilidade, pragmatismo profissional e atitudes comportamentais condizentes é onde reside o futuro do desenvolvimento do Gerente de Projetos.

7. Certificações profissionais não são garantias de sucesso, empregos e salários mais altos

Mais uma do marketing mercantilista da diferenciação profissional: Graduação fraca? Escola pouco conhecida? – Faz uma Pós-Graduação, MBA e Pós MBA. Mestrado profissional e doutorado? – Claro! E não esqueça também de colocar na cesta as Certificações Profissionais e a sua manutenção anual.

As Certificações Profissionais são inúmeras e de escopo amplo, gerais ou específicas – geralmente são “vendidas” como necessidades prementes e indispensáveis para a sua carreira. Algumas delas são abonadas por instituições reconhecidas e sérias, outras, representam apenas as ideias de seu criador. E todas oferecem um certificado e um bóton, para ser ostentado na lapela na entrada de um voo ou num seminário profissional, além de, é claro, ficarem bem bonitos nos posts do Facebook.

Oráculo, então o que eu devo fazer primeiro para me diferenciar profissionalmente?

Uhm! Estude “gafanhoto” (apenas os fortes entenderão!). Estude sempre – “never ending”. Mas não se esqueça também de trabalhar muito, de ousar, de testar, de errar e aprender com seus erros. E lembre-se: a quantidade de medalhinhas acumuladas pelas certificações não são indicativos da qualidade de seu trabalho.

Que tal se diferenciar e ser reconhecido como um profissional que realmente entrega aquilo que promete?

8. Pragmatismo é essencial

De fato, a gestão eficiente e eficaz de projetos, exige uma boa dose de pragmatismo.

Nicolau Maquiavel foi atropelado pela onda do “politicamente correto” quando disse que “os fins justificam os meios”. Obviamente, dentro de princípios éticos e morais aceitos, essa é a essência do pragmatismo exigido do Gerente de Projetos: entregar o que foi prometido “on time”, “on budget” e “on quality”! Nada mais.

Hersey & Blanchard captaram esse insight e passaram a inspirar os Gerentes de Projetos ao propor a flexibilização e adaptação do comportamento do Líder diante de certas situações, através de sua “Liderança Situacional”. Soa falso, agir de um modo numa certa situação, e de outro modo, em outra? Não colega! Soa pragmático.

Responsabilidade, flexibilidade, dedicação, perseverança, tenacidade, criatividade, comprometimento são competências fundamentais desse líder pragmático.

Mas não se enganem os profissionais da Geração Z, os Mileniuns e os, novíssimos, Snoflakes, esse Gerente de Projetos não tem a obrigação de ser sempre bonzinho, empático, acolhedor, sensível, compreensivo, democrático, participativo e politicamente correto. Mantida a base do seu profissionalismo, educação e respeito, ele será, apenas, seu gerente e líder.

Não atribua aos Gerente de Projetos a sua necessidade pessoal e carências de atenção, carinho e afeto.

9. O Gerente de Projetos não é o responsável pela felicidade dos integrantes de sua equipe

Ooooh! Descobriu agora que Papai Noel não existe? Sim, o Gerente de Projetos é um profissional como você. Não é pelo fato dele estar atuando como Líder da equipe e precisar contar com o seu trabalho especializado e dedicação que você pode praticar contra ele a sua vilania geracional, ameaça-lo com a sua inoperância ou ineficiência e jogar sobre as costas dele as suas vulnerabilidades emocionais.

Não espere dele mais do que agir como um bom profissional Gerente de Projetos, preocupado com a realização das entregas prometidas e com o projeto sob sua responsabilidade.

Não. E ele não é super. Não tem superpoderes, nem super competências capazes de te tornarem feliz no trabalho. Ele também é movido por sonhos e ambições próprios e também tem fraquezas, inseguranças e medos.

A sua felicidade você, provavelmente, vai encontrar dentro de si mesmo. Não a delegue ou a considere como um evento externo que emanará de seu Gerente de Projetos.

10. A Meritoracia é alicerce essencial da gestão das equipes de projetos

Pessoas desempenham de modo diferente numa equipe de projeto. Mas (novamente) o pragmatismo exige que as entregas prometidas sejam feitas “on time”, “on budget” e “on quality”. Como conviver, em uma equipe de projeto, com o desempenho profissional aquém, insuficiente e inadequado?

Desde Maslow o reconhecimento profissional frequenta o topo da pirâmide das necessidades humanas e é utilizado para promover, fomentar e induzir o desempenho adequado. A meritocracia na gestão de projetos utiliza o reconhecimento profissional como um princípio de justiça, legitimando as diferenças de desempenho entre os integrantes da equipe.

Sim, com certeza absoluta! Que se dê tratamento desigual aos que desempenham de modo desigual numa equipe de projetos.

11. Diversidade nas equipes de projetos é recomendável. Falta de comprometimento, disposição e competência, não!

É sabido que diferenças de estilos, opiniões, preferências ou ênfases são bem-vindas numa equipe de trabalho.

Entretanto, trabalhar com a diversidade exige do Gerente de Projetos e dos outros membros da equipe, a disposição para lidar com o diferente, a abertura para o tratar as divergências e os conflitos, e a competência para tirar proveito do novo. Porque, de fato, é muito mais fácil, previsível e controlável trabalhar com gente que pensa e age como você. Mas, não necessariamente, mais eficiente e eficaz.

De fato, a diversidade expande a visão estratégica do trabalho, potencializa a identificação de alternativas e facilita as relações interpessoais, favorecendo a tomada de decisões mais assertivas e, consequentemente, o alcance do sucesso do projeto.

Conviver com a diversidade é, portanto, mais produtivo para a equipe.

Mas cabe a ressalva: Trabalhar com a diversidade não implica em admitir a falta de comprometimento, a indisposição ao trabalho, a promoção de conflitos improdutivos e a incompetência.

12. Equipe autogerida é um belo conceito, de aplicação restrita e experimental

Uma equipe autogerida é um grupo de trabalho, geralmente pequeno, que divide a responsabilidade pela execução e pelos resultados de um projeto, e cujos membros dispõem da capacidade e autoridade para supervisionar a si mesmos.

A organização do trabalho através de equipes autogeridas constitui um dos princípios da plataforma Ágil e, como tal, ultimamente, tem sido incentivada pelas empresas.

Decorre que, para que o conceito seja aplicado adequadamente, a empresa necessita dispor de cultura organizacional e diretrizes operacionais que permitam e incentivem essa postura, assim como, que os membros da equipe disponham de competências equilibradas e sinérgicas, resiliência e que estejam igualmente dispostos, confortáveis, motivados e comprometidos com o projeto.

Casos reais de autogestão em projetos são raros. Não obstante os incontáveis testemunhos de experiências “marqueteiras”, incompletas e que não se sustentam além dos exercícios mantidos em CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão).

Uhmmm! Na prática pois, não é fácil desenvolver uma equipe de projeto com tal nível de maturidade, o que restringe a aplicação do conceito de autogestão, normalmente, aos trabalhos acadêmicos e aos estudos de casos experimentais.

Quiçá um dia! Quem sabe?

13. Juventude, ‘porralouquice’ e visual descolado não são as principais características de empreendedores de sucesso

Estereótipo é uma imagem preconcebida de pessoa ou coisa, automática e que é incutida no subconsciente pela sociedade. Um estereótipo tende a se converter em rótulos, muitas vezes, pejorativos e causadores de impacto negativo.

Enfim, qual é o estereótipo de um empreendedor de sucesso? Aquela pessoa que, diante de uma ideia luminosa, consegue transformá-la em negócio de sucesso? Jovem, ‘porralouca’, visual descolado, nerd, totalmente conectado, politicamente correto, socialmente ativo, etc.

Seria assim mesmo? Uhm! Talvez não! Não necessariamente assim!

Pesquisas mostram, ao contrário, que o perfil de empreendedores de sucesso passa por outros tipos de características e competências, pondo à prova o estereótipo comumente aceito. Empreendedores de sucesso são focados, não necessariamente jovens, sabem se planejar, dispõem de uma boa rede de contatos, aceitam críticas e sugestões, são persistentes diante obstáculos, independência e autoconfiança. Ou seja, precisam agir como verdadeiros (e bons) Gerentes de Projetos.

Ou seja, na hora de empreender, a sua obstinação, disciplina e organização conta mais do que a sua imagem pessoal. Fica a dica!

14. Não se inova aquilo que não se sabe fazer

Inovação é outro ‘buzzword’ essencial do ambiente empresarial atual. Inovar é preciso para que a empresa se mantenha competitiva. Deve-se mexer no time que está vencendo, para que continue vencendo. De outro modo, irá sucumbir rapidamente.

Nesse contexto, empatia é palavra de ordem. De cima das “tamancas” de clientes e ‘prospects’, tenta-se expressar, nas paredes de vidro das salas de reunião, através de post-its multicoloridos, as preciosas demandas não explicitadas que possam se transformar em mudanças, ajustes e novos negócios rentáveis (ideação).

Só se esqueceram de dizer que a dinâmica de se colocar no lugar do outro, captar suas necessidades implícitas e transformá-las em ‘business’, não é um exercício raso e rápido, tampouco simples ou natural. Ela exige o conhecimento aprofundado do outro e de seu comportamento. Exige laboratórios e vivências. Exige ‘match’. Exige experiência e maturidade, que são frutos de erros, frustrações e ajustes permanentes de rota.

Não se inova aquilo que nunca se fez e que não se sabe como fazer.

15. Epifania criativa, voltada à inovação ou ao empreendedorismo, não se pede à Deus nas orações dominicais

Epifania é outra palavra de ordem na lista da inovação. Todos a desejam e a buscam.

– Venha à mim! Uma conexão e um toque divino que te tira do sono durante a noite, assustado e assolado por uma ideia inovadora na cabeça. Uma solução que chega quase que totalmente bem desenhada.

Sonho de consumo de todos os estudantes Z e Mileniuns, potenciais empreendedores, inovadores e todo os demais que se autoproclamam, ‘thinkers’!

Mas esqueceram de dizer, que epifania não costuma acontecer assim, para qualquer um, indiscriminadamente, sem dia ou hora para chegar. Não se trata de comprar um bilhete de loteria e ficar rezando para que ele seja premiado naquela noite.

Sendo irônico, dizem as estatísticas que epifania costuma acometer apenas aqueles que trabalham mais duro, que se empenham mais, que são mais persistentes, mais obstinados.

Tal como a sorte, epifania costuma privilegiar aqueles que mais se esforçam.

Por:

 Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


PROJETOS DE ENGENHARIA EM OBRAS DE INFRAESTRUTURA. PERSPECTIVAS E REFORMAS NA LEGISLAÇÃO.

novembro 19, 2017

A falta de qualidade dos projetos básicos e executivos de engenharia (inexistentes, deficientes ou desatualizados) tem sido usada como justificativa inequívoca e recorrente para os problemas de atrasos, sobrepreços ou superfaturamento (pagamentos acima dos valores de mercado) de obras públicas de infraestrutura. O próprio TCU (Tribunal de Contas da União) vem, repetidamente, mencionando este argumento como uma das justificativas das irregularidades encontradas e apontadas em seus relatórios anuais de fiscalizações de obras (FISCOBRAS).

Devido a relevância, parece adequado que o tema seja tratado de modo prioritário pela legislação que rege as licitações públicas. Numa rápida retrospectiva, o tema foi abordado de modo claro pela Lei das Licitações nº 8.666/1993 e pela Lei do RDC nº 12.462/2011.

Lei das licitações nº 8.666/1993

A Lei 8.666/1993 prevê a obrigatoriedade da inclusão do projeto básico e/ou executivo no edital de contratação de qualquer obra ou serviço (de engenharia), acrescidos de todas as suas partes, desenhos, especificações e outros complementos.

Para tanto, considera a definição de projeto básico como “o conjunto de elementos necessários e suficientes, com nível de precisão adequado, para caracterizar a obra ou serviço, ou o complexo de obras ou serviços, elaborado com base nas indicações dos estudos técnicos preliminares, que assegurem a viabilidade técnica e o adequado tratamento do impacto ambiental do empreendimento, e que possibilitem a avaliação do custo da obra e a definição dos métodos e do prazo de execução”, e de projeto executivo como “o conjunto dos elementos necessários e suficientes à execução completa da obra, de acordo com as normas pertinentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.”

Desse modo, a Lei 8666/1993 favorece a transparência das licitações no sentido de proibir a contratação de “materiais e serviços sem previsão de quantidades ou cujos quantitativos não correspondem às previsões reais do projeto básico ou executivo”.

Lei do RDC Regime Diferenciado de Contratações nº 12.462/2011

Dirigida às contratações para a Copa das Confederações de 2013, Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, a Lei do RDC se estende ainda às obras de infraestrutura e aos serviços relacionados aos aeroportos das capitais dos estados próximas às sedes dos eventos desportivos.

Destinada a ser uma via alternativa à Lei 8.666/1993, a Lei do RDC promove maior celeridade e eficiência às contratações públicas ao permitir um novo regime de execução contratual através da “contratação integrada” que consiste da extensão da responsabilidade da contratada tanto pela elaboração do projeto básico, quanto do projeto executivo, bem como pela execução e entrega da obra acabada, pronta para funcionar.

De fato, a contratação integrada isenta a Administração da elaboração dos projetos básico e executivos, tal como previsto pela Lei 8666/1993 e transfere a responsabilidade e parte dos riscos à contratada.

Entretanto, a ausência do projeto básico, como anexo do edital de licitação, não implica na promoção de uma contratação aberta, desprovida de definição de escopo e especificação de seu objeto. Para tanto, a Lei do RDC estabelece a necessidade da inclusão de um “anteprojeto de engenharia” ao edital, que contemple “os documentos técnicos destinados a possibilitar a caracterização da obra ou serviço”. O anteprojeto de engenharia não possui a mesma abrangência do projeto básico, mas deve fixar parâmetros que permitam justificar as necessidades da obra; a visão global dos investimentos; os níveis de serviço desejados; as condições de solidez, segurança, durabilidade e prazo de entrega; a estética do projeto arquitetônico e os parâmetros de adequação ao interesse público, à economia na utilização, à facilidade na execução, aos impactos ambientais e à acessibilidade.

Tal como o projeto básico, o anteprojeto de engenharia, tendo sido bem ou mal elaborado, consiste de uma referência do edital e do contrato e pode ser utilizado nos pleitos futuros das partes. Ou seja, ainda assim, diante desse modelo de execução contratual, a contratante não consegue transferir totalmente os seus riscos à contratada.

Pauta atual em tramitação no Congresso nacional

Ainda que bem estabelecidas, as condições legais dirigidas ao tema em epígrafe não têm sido suficientemente eficazes na contenção dos problemas decorrentes da falta de qualidade dos projetos de engenharia das obras públicas de infraestrutura. Desta feita, observa-se o papel ativo do Congresso nacional na proposição de medidas complementares visando inovar, promover ajustes e corrigir erros das legislações atuais.

Pesquisa recente, realizada pelos autores através do portal LexML, pautou-se no levantamento das proposições legislativas em tramitação do Congresso Nacional sobre o tema. Para tanto, foram utilizados os critérios de busca pelas palavras chave: projeto básico, projeto executivo, gestão de projetos de engenharia e gestão de obras públicas. A pesquisa foi restrita à vigência da atual legislatura e às pautas de abrangência nacional.

Os resultados apontam para uma agenda propositiva relacionada, direta ou indiretamente, com as contratações da Administração Pública no Brasil. Foram identificados 11 projetos de lei e 1 proposta de emenda à constituição dedicados à questão.

Proposições legislativas

  • Proposta de Emenda à Constituição n° 145 de 2015. Estabelece a obrigatoriedade de servidores da área fim dos tribunais e conselhos de contas realizarem estágio em atividades de planejamento e gestão de obras públicas como condição para aprovação no estágio probatório.
  • PL 7635/2017. Determina que as obras públicas passem a especificar e respeitar a escassez hídrica nos projetos básicos e projetos executivos.
  • PL 1213/2015. Estabelece a obrigatoriedade do projeto executivo antes do início de obras públicas.
  • PL 4615/2016. Determina que a alocação de recursos federais para obras estaduais e municipais seja condicionadas à existência de projeto básico.
  • PL 6619/2016. Estabelece a obrigatoriedade do sistema de modelagem da informação da construção, identificado pela sigla inglesa BIM – Building Information Model, na confecção de projetos executivos de obras e serviços de engenharia contratados pelos órgãos e entidades da administração pública.
  • PLP 370/2014. Permite que os recursos das transferências voluntárias à conta do orçamento sejam destinados à elaboração de projetos básicos e executivos, bem como a despesas associadas a licenciamento ambiental dos projetos.
  • PLS Nº 00496 de 2011. Torna obrigatória a elaboração de projeto executivo anteriormente à abertura de licitações para a contratação de obras e serviços.
  • PLS Nº 00195 de 2013. Condiciona a abertura de processo licitatório para a contratação de obras com valor estimado igual ou superior a cem milhões de reais à elaboração prévia de projeto executivo.
  • PLS Nº 00554, de 2013. Inclui as condições de acessibilidade para pessoas com deficiência física ou com mobilidade reduzida, dentre os requisitos principais considerados nos projetos básicos e projetos executivos de obras e serviços a serem executados por meio de contrato com a Administração Pública.
  • PLS Nº 00269, de 2016. Institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências, para determinar obrigatoriedade de existência de projeto executivo de engenharia para lançamento de edital de concorrência de obras e/ou serviços de engenharia; para exigir a obtenção, anterior à licitação, da devida licença ambiental, quando necessária para a realização da obra ou do serviço; para prever a realização de prévio estudo de viabilidade técnico-econômica do objeto de concorrência de obra ou serviço de engenharia, pelo qual se demonstre que contribuirá para o desenvolvimento do país; para exigir que contratos de obras e/ou serviços de engenharia somente terão início de execução diante de garantia dada pela Administração da disponibilidade dos recursos financeiros necessários, vinculados ao projeto até a sua conclusão; e para determinar ser obrigatória, no caso de obra e/ou serviço de engenharia, a aferição objetiva do cumprimento do objeto contratado, por meio de empresa especializada e independente.
  • PLS nº 00274, de 2016. Dispõe sobre o seguro garantia de execução de contrato na modalidade segurado setor público, determinando sua obrigatoriedade em todos os contratos públicos de obras e de fornecimento de bens ou de serviços, de valor igual ou superior a R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais), alterando a Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993 para estabelecer o limite de cobertura do seguro garantia em 100% (cem por cento) do valor do contrato, além de prever outras providências.
  • PL nº 6814 de 2017. Institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e revoga a Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993, a Lei  nº 10.520, de 17 de julho de 2002, e dispositivos da Lei nº 12.462, de 4 de agosto de 2011.

Projetos executivos como condição obrigatória no procedimento licitatório

Extraído da pesquisa, observa-se que o principal avanço proposto, e onde encontra-se o maior potencial de aprovação, diz respeito a obrigatoriedade da inclusão de projetos executivos como condição complementar no procedimento licitatório.

No tocante ao andamento desta agenda no Congresso Nacional, é importante atentar que alguns dos projetos estão submetidos ao regime prioritário de tramitação, indicativo da relevância e interesse suprapartidário na matéria. Não é sem motivo que o Projeto nº 6814 de 2017, anteriormente PLS nº 559, de 2013, já aprovado no plenário do Senado, tramita com regime de prioridade agora na Câmara dos Deputados.

Conclusões

Em primeiro lugar, pode-se concluir da pesquisa realizada que a expressiva quantidade de projetos dedicados ao tema dos projetos de engenharia, no contexto das licitações públicas, é relevante, implicando na convergência de conteúdos e, ao que parece, no indicativo de uma espécie de concertação/entendimento sobre a necessidade e oportunidade dessa alteração legislativa para o país.

Em segundo lugar, numa constatação histórica, observa-se um movimento pendular entre as vantagens e desvantagens da elaboração dos projetos básicos e executivos estarem sob a responsabilidade do contratante público ou do contratado.

No princípio, a Lei das Licitações nº 8.666/1993 considerou apropriado atribuir essa responsabilidade ao contratante público.

Entretanto, provavelmente devido a percepção da incapacidade de realização e da assunção de riscos contratuais e problemas de execução decorrentes da elaboração de projetos básicos superficiais, incompletos e ambíguos, o pêndulo voltou-se para o estabelecimento da contratação integrada através da Lei do RDC 12.462/2011, que atribuiu a responsabilidade ao contratado pela elaboração dos projetos de engenharia.

Novamente, provavelmente devido ao aprendizado decorrente das contratações integradas pelo RDC para os eventos esportivos atuais, o Congresso Nacional retorna ao indicativo de enxergar vantagens na responsabilização do contratante público pela elaboração dos projetos básicos e, desta vez, explicitamente, do projeto executivo. Obviamente, as proposições legislativas pesquisadas, propõem avanços complementares (em adição) à legislação vigente e não, simplesmente, revogam um modelo de contratação em favor de outro.

Enfim, de fato, o que sobressai desse movimento legislativo é a indicação da importância do tema e da dinâmica da busca de soluções para o problema atreladas as alterações nas leis. Se, por um lado, essa dinâmica possibilita um certo grau de otimismo, por outro, permanece a sensação de que projetos de reformas, tais como os mencionados, não são, necessariamente, a pauta do atual governo e da atual legislatura. A saber. Cruzando os dedos em favor do país.

 Por:

 Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

Vitor Boaventura Xavier, Advogado e membro do GECEM (Grupo de Estudos em Constituição, Empresa e Mercado) da Universidade de Brasília (UnB) –

vitorboaventura5@gmail.com


GRAVES IRREGULARIDADES DE OBRAS PÚBLICAS

novembro 12, 2017

Na última semana (08/Nov/2017) o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou seu relatório anual de consolidação das fiscalizações de obras, o FISCOBRAS 2017. Nele são apontadas irregularidades graves em 72 das 94 (76,5%) obras públicas federais de grande porte auditadas – dentre estas, 11 receberam indicativo de paralisação de contratos específicos devido ao potencial de prejuízo causado aos cofres públicos. São elas: Canal do Sertão (AL); obras de construção da BR-235 (BA); adequação da travessia urbana em Juazeiro (BA); construção da fábrica de hemoderivados e biotecnologia (PE); construção da Vila Olímpica (PI); usina Termonuclear de Angra III (RJ); obras de construção da BR-040 (RJ); construção do centro de processamento final de imunobiológicos (RJ); corredor de ônibus da Radial Leste – trecho 1 (SP);  corredor de ônibus da Radial Leste – trecho 2 (SP) e o BRT de Palmas (TO).

Irregularidades graves

A tipificação das irregularidades graves apontadas pelo TCU aponta prioritariamente para problemas de qualidade de projetos básicos e executivos (inexistente, deficiente ou desatualizado), problemas de sobrepreço ou superfaturamento (pagamentos acima dos valores de mercado), atrasos na execução das obras e casos de restrição ao caráter competitivo da licitação. Nada de novo aqui. Tratam-se de achados recorrentes apontados também no histórico das versões anteriores do relatório.

A precificação da ineficiência

O anúncio do relatório do TCU é mais um argumento a agravar a sensação de indignação, frustração e revolta que afloram do contribuinte que se percebe à mercê da ineficiência técnica e administrativa que propiciam o mal uso do dinheiro público, que o privam de usufruir das obras que necessita para garantir sua qualidade de vida atual e futura, que indispõem a adaptação da infraestrutura do país às condições necessárias de competitividade e que afetam o desemprego, punindo profissionais dedicados e qualificados que atuam no setor.

Segundo os cálculos do TCU, as medidas de correção propostas, incluindo as paralisações de contratos, podem implicar numa economia de R$ 3,5 bilhões aos cofres públicos.

Apesar de concordar e apoiar as recomendações do TCU, há que se refletir também sobre os impactos da paralização de obras – neste caso, algumas delas já se encontram a 90% da conclusão. Em artigos anteriores, este blog tem tentado alertar para a precificação da paralização de uma obra que, em muitos casos, pode se tornar elevada mediante condições do potencial contencioso contratual e de despesas correntes associadas ao custo financeiro do investimento já realizado, à preservação das estruturas construídas e à contratação de serviços de contornos que atendam a demanda que a obra paralisada deveria garantir. Na conta cabem ainda os custos intangíveis relacionados ao desemprego local, aos transtornos urbanos e insegurança de ambientes degradados e cercados por tapumes, além do custo de oportunidade.

Com a palavra, o Congresso Nacional

Após a aprovação, o relatório do TCU foi enviado ao Congresso Nacional de modo que as informações possam subsidiar a Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) quanto à distribuição dos recursos orçamentários para 2018. Na prática, cabe ao Congresso Nacional decidir se suspende ou não os recursos e se bloqueia os contratos denunciados na Lei Orçamentária Anual de 2018.

Soluções emergentes para o problema

Apesar de crônico, o problema da ineficiência das obras públicas nacionais dispõe de soluções potenciais que precisam ser analisadas e discutidas com profundidade e urgência, sob pena de, em persistindo o problema, este vir a interferir nas perspectivas de futuro do país. Sem considerar o mérito, tais soluções passam por: Reformas na legislação que trata das contratações públicas e nas legislações satélites; ampliação dos poderes e extensão das fiscalizações pelos órgãos externos de controle; punição exemplar pelos crimes de corrupção e prevaricação; certificação externa e acreditada de projetos de engenharia e de fiscalização de obras; a criação do cadastro geral das obras públicas para melhorar a transparência e facilitar o controle da execução dos empreendimentos; o uso de tecnologias emergentes, tais como o blockchain, a computação cognitiva e quântica, etc.

Um novo modelo de contratações de obras públicas

De fato, o problema recorrente da ineficiência das obras públicas extrapola as soluções individuais em discussão dispostas nos âmbitos legal, técnico ou tecnológico. Trata-se de tema complexo que se estende a nossa origem e cultura. A pauta se revela como condicionante das perspectivas de futuro para o pais e, como tal, deveria ganhar prioridade no debate da sociedade.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


APAGANDO INCÊNDIOS ORGANIZACIONAIS. O MUNDO VUCA.

novembro 5, 2017

Por que, apesar de adotarmos estratégias e instrumentos de gestão cada vez mais inovadores e adaptados às necessidades prementes das organizações, apesar de dispormos de informação ampla, rápida e confiável, apesar de podermos contar com pessoal profissional qualificado e conectado com o conhecimento ao nível do “estado da arte”, ainda assim, convivemos íntima e diariamente com a ineficiência e com Gestores constantemente envolvidos no “apagar de incêndios”, perdidos no emaranhado da complexidade das situações administrativas, reagindo impulsivamente aos inúmeros estímulos instantâneos que afetam a rotina operacional de suas áreas funcionais e projetos? Gestores que mais se parecem com “bombeiros”, ou jogadores de counter-strike, que não conseguem ocupar o seu espaço estratégico na organização devido ao “carma” operacional que lhes exaure o tempo e a energia vital-profissional.

Pois é fato que esse comportamento danoso pode levar a organização à morte e a carreira do Gestor ao fundo do poço.

Vale então refletir sobre as causas dessa anomalia.  

Seria a inadaptação das abordagens atuais da gestão estratégica? A falta de uma nova teoria comportamental que consiga potencializar a satisfação e o comprometimento das pessoas com o trabalho? A falta de um novo “app”, associado aos aparatos de IoT (Internet das Coisas), dirigido especificamente à natureza caótica das organizações? Seria devido a rebeldia da Geração Z e dos Millennials? Seria um complô da “providência administrativa” teórica contra a simplificação do ensino de gestão, contra o uso indiscriminado de post-its e pecinhas de Lego Play? Uma merecida paga àqueles que se deixaram levar e acreditaram que a gestão organizacional poderia ser resumida à superficialidade de uma roda lúdica de um jogo ou de um estudo de caso sob CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão)?

Provavelmente não! Inconsciente e inadvertidamente seria mais fácil supor que a causa raiz do problema reside na falta de planejamento, disciplina e diligência dos próprios Gestores! Que, apesar das organizações investirem na disposição de direcionamentos estratégicos, processos e ferramental tecnológico adequado e moderno de produtividade, são as pessoas, em particular os Gestores, que não conseguem se posicionar estrategicamente, delegar adequadamente, organizar o tempo disponível e, raramente, abrem mão de sua “zona de conforto” operacional.

Veredito implacável, cruel e muito comum das organizações que preferem encontrar “culpados” a avaliar holisticamente a situação e se reposicionar à luz das possíveis soluções para o problema.

De fato, o que há de importante nisso tudo é que vivemos no mundo VUCA.

Oops! O que é isso?

O termo VUCA foi cunhado no final dos anos 90 no contexto do vocabulário militar e, atualmente, vem sendo utilizado para descrever as condições gerais atuais do ambiente organizacional e justificar novas abordagens adaptativas de gestão. VUCA é um acrônimo para as condições de volatilidade (Volatility), incerteza (Uncertainty), complexidade (Complexity) e ambiguidade (Ambiguity) que podem ser detalhadas do seguinte modo:

V = Volatilidade (Volatility). Termo associado à natureza, à velocidade, ao volume e à magnitude das mudanças do ambiente organizacional, que não dispõem mais de padrões previsíveis. A volatilidade está associada com a frequência e a intensidade das turbulências que recaem sobre a atual gestão organizacional.

U = Incerteza (Uncertainty). Termo associado à falta de previsibilidade e padrão da ocorrência dessas turbulências.

C = Complexidade (Complexity). Termo associado à grande quantidade de causas intrínsecas, interconectadas e de lógica difícil se compreender, assim como os fatores atenuantes (internos ou externos à organização) envolvidos nos problemas.

A = Ambiguidade (ambiguity). Termo associado a falta de clareza sobre os significados de um acontecimento. Dificuldade e entender até que ponto as turbulências podem ser considerada problemas ou oportunidades.

Esses quatro elementos tendem a representar o contexto atual e futuro no qual as organizações estão submetidas. Estamos vivendo num mundo VUCA! A relevância do entendimento desse mundo VUCA está relacionada ao modo como as pessoas tomam decisões preventivas e corretivas, planejam o futuro, gerenciam riscos, se relacionam com a (suposta) rotina operacional, propõem mudanças e resolvem problemas.

Enfim, o mundo VUCA nos ajuda a racionalizar melhor a problemática do Gestor “apagador de incêndios”.

Será que o comportamento “indócil” do Gestor está mesmo associado à falta de competências organizacionais e humanas, ou será que ele está refém de um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo? E assim, sem dispor de recursos ou saber responder adequadamente à essas condições o Gestor se consome no trabalho, se encolhe na extensão de sua atuação e se obscurece no intrincado das atividades operacionais, tal como um tarefeiro ordinário.

No mundo VUCA, o planejamento estratégico, tal como o conhecemos dos livros, se torna questionável, ainda que sua adoção continue recomendada, assim como a adoção de “boas práticas” e ferramentas de produtividade, mas as organizações devem estar cientes e se pautar no fato de que não existem mais padrões previsíveis a serem considerados e perseguidos e que os cenários futuros estão cada vez mais difíceis de serem concebidos a médio ou longo prazos. O Gestor precisa tomar ciência de que o mundo das organizações se tornou VUCA e que o seu comportamento típico, intempestivo, impulsivo e reativo, focado prioritariamente no operacional, não se trata, necessariamente, de uma anomalia de seu conjunto de competências de gestão, mas sim, espelha sua falta de conhecimento de como saber lidar com a nova situação.

Flexibilidade e resiliência são as palavras chave dessa estória.

Cabe ao Gestor desenvolver aptidões para lidar com essas mudanças e adaptações contínuas, respeitando disciplinadamente seu tempo estratégico, aprofundando-se no estudo das incertezas e tirando proveito delas, sem prejuízo à sua saúde, motivação e carreira.

Por:

Luciana Seluque, Engenheira Mecânica Universidade Mackenzie/SP, Pós Graduada em Gerenciamento Estratégico da Produção UNIFACS. Professora da Pós Graduação da Devry | Metrocamp e voluntária do PMI SP – lucianaseluque@hotmail.com

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br