Tudo é por acaso

Freqüentemente, tenho sido interpelado por amigos com a afirmação categórica: “(…) nada acontece por acaso”. Essa afirmação costuma vir acompanhada por um silêncio filosófico, um olhar místico e um pequeno sorriso confiante no canto da boca – sinais reveladores mistérios sobre os quais poucos teriam acesso. É como se tudo estivesse escrito, previamente definido e que fosse sendo revelado em partes, a medida do desenrolar da vida do homem. Este, por sua vez, se posicionaria como um ser manipulado ao sabor de leis que desconheceria – triste condição para a sua vida, que se resumiria exclusivamente à participação inerte num jogo de passagem.

Desprovido de qualquer intenção de desmistificar ou desacreditar o que ou quem quer que seja, ou de tentar impingir a minha própria ótica sobre a verdade – visto que nenhum de nós a conhece de fato – gostaria de lançar uma fresta de luz pessoal à discussão e provocar um debate que, imagino, poderia ser interessante e instrutivo à nossa busca da lapidação interior. Antecipadamente desculpo-me pela imprecisão filosófica – este trabalho reflete apenas as minhas inquietações pessoais, discussões com pessoas queridas e ‘algum’ estudo.

Desde que desenvolveu a racionalidade o homem persegue o entendimento do mundo que o cerca e questiona os porquês dos acontecimentos. Historicamente o homem tem expressado a sua posição vulnerável diante dos fatos através de argumentos mitológicos, místicos, científicos e, infelizmente, pseudo-científicos.  

Devido a sua incapacidade de entender e de governar a maior parte dos acontecimentos da vida, o homem elaborou, e se ateve historicamente, à crença na existência de seres superiores que governariam os fatos. A crença em um único, ou múltiplos, Deuses é o fundamento básico que alicerça o comportamento humano histórico. Como teria sido a evolução humana sem o amparo psico-sociológico que essa premissa lhe presta diante de sua vulnerabilidade e incapacidade de governar as condições que interferem na sua própria vida? Quão dolorido seria se não dispusesse do alívio conseguido através da justificativa ‘externa’ para a sua condição de vida. Quão bom tem sido atribuir aos outros (e aos céus) as suas próprias responsabilidades?

Dessa crença na existência de uma condição divina superior emanam algumas vertentes relativamente divergentes na forma de aceitação do fundamento. O deísta, por exemplo, crê em Deus, mas não aceita a religião, certos dogmas e a revelação. O deísta é “primo” do agnóstico, que aceita Deus, mas considera-o um ser inacessível.  Já o teísta, crê em Deus, na revelação, nos dogmas, e até antropomorfiza a figura de Deus. O ateu, simplesmente não crê em Deus. Nomenclaturas a parte, a humanidade, de certo modo e com intensidades diferentes, aceita e necessita crer na figura divina. 

Voltando ao nosso tema, algumas vertentes históricas oriundas dessa crença básica, associam os fatos e acontecimentos da vida quase que exclusivamente aos desejos e desígnios de Deus (ou dos Deuses). A mitologia antiga é excepcionalmente rica nessa forma de condução filosófica, pois dispõe o homem apenas como uma peça manipulável num tabuleiro divino, onde os Deuses se manifestam e interagem mutuamente através de ‘jogadas’ baseadas em suas personalidades, desejos, ambições, medos, etc. O acaso, neste caso, não existe. A vida do homem é dirigida única e exclusivamente pelas indicações divinas, previamente escritas e escrituradas num suposto ‘livro da vida’ ou ao sabor da vontade de Deus. A vida passa a ser encarada como uma passagem pelo jogo divino, sem que ao homem, caiba a possibilidade de interagir proativamente com ela.

Esse arcabouço seria ainda o palco ideal das tentativas místicas de explicação e manipulação dos acontecimentos passados ou futuros. Historicamente, o homem sempre teve o interesse de acesso a esse ‘livro da vida’, tentando tirar proveito ‘terreno’ dos trechos a ele atribuídos. Sob essa senda repousam as maquinações místicas históricas e contemporâneas, sejam através das letras, dos números, dos astros, das cartas e de toda a sorte de apetrechos através dos quais criam-se regras específicas e tentativas de interpretação dos acontecimentos da vida. Ou seja, se está escrito e eu sou um dos poucos que consigo ler, posso tirar proveito da informação!

É nesse contexto que eu posiciono e entendo a afirmação de que “nada acontece por acaso”. E é oferecendo um contra-ponto a essa visão que escrevo esse artigo e me coloco na busca especulativa sobre o tema, para a qual peço seu auxílio e contribuição.       

Posteriormente, a evolução da racionalidade do homem, permitiu-lhe flexibilizar um pouco mais essa visão inerte, ao incorporar à crença básica, a possibilidade do arbítrio, a faculdade de tomar decisões segundo a própria vontade. Nessa visão, o homem deixaria a absoluta tutela divina e assumiria parcela de responsabilidade por sua condição de vida.  Caberia a Deus (ou aos Deuses) dispor as alternativas diante do homem, que se encarregaria de decidir o caminho a seguir, baseado na sua percepção da situação e visando otimizar a sua busca pela felicidade, que se tornaria o objetivo máximo de sua vida.

O entendimento de sua participação e contribuição nos fatos e acontecimentos de sua própria vida tem sido uma premissa bem aceita pela humanidade. O homem passou então a crer em uma ‘escala de ponderação’ entre a contribuição divina e a contribuição de seu arbítrio na sorte de sua vida. Vista por essa régua, a visão mitológica posiciona-se num extremo onde a parcela divina é integral na sorte dos acontecimentos da vida do homem. Por outro lado, o Iluminismo, surgido oficialmente no Sec. XVIII, poderia ser posicionado no extremo oposto da régua, através do qual o homem desconsidera qualquer condição de tutela ou participação divina em sua vida e passa a servir-se do próprio intelecto e de sua razão, sem a guia de outros. Sapere aude[1]! (Tenha a coragem de servir-te da tua própria inteligência!) É a máxima do Iluminismo.    

De um extremo a outro da régua, o homem tem evoluído historicamente aceitando posições intermediárias, adequadas à sua condição e necessidades situacionais. A evolução da ciência ao longo da história tem contribuído significativamente para o traslado da posição do homem de uma condição a outra entre os extremos da régua – da aceitação da tutela absoluta à aceitação da razão absoluta. Paradoxalmente, cada vez que o homem se aprofunda e desvenda os mistérios da vida, através da ciência, mais ele tende a acreditar numa condição divina, num Ser Supremo, que foi capaz de orquestrar (ou, arquitetar) com tamanha desenvoltura as relações de partículas e forças, nas dimensões micro e macro, que interferem em sua vida. Ou seja, os resultados da aplicação intensiva da ciência, da tecnologia e da razão, ponto extremo iluminista da escala, retroalimenta a crença na existência divina e motiva o homem a se fixar num ponto intermediário da régua.   

Voltando ao tema do acaso, se partirmos do princípio de que nem tudo é divino e está previamente escrito, mas depende das escolhas do homem e da sua razão. E ainda, se supormos que a razão emana de um emaranhado de condições situacionais e intempestivas, provenientes de experiências prévias, do conhecimento, da fé e da análise das possibilidades, já dispomos de um forte argumento contrário a máxima de que “nada acontece por acaso”.

Indo além nessa especulação, se o livre arbítrio, alicerce das escolhas do homem, é condição bem aceita pela maioria, resta então questionar qual é o mecanismo gerador das alternativas que se apresentam diante da vida desse homem. Ilustrando o raciocínio, de forma instantânea, como numa foto tirada num piscar do diafragma da câmera, pense: “por que ‘aquelas’ específicas alternativas se apresentaram diante de mim naquele segundo ?”, “se tivessem sido outras as alternativas, a minha escolha poderia ter sido outra também” e, possivelmente, “a seqüência de escolhas que fiz durante toda a minha vida, seria, necessariamente a grande responsável por minha condição atual”. Se não entendemos ainda o mecanismo de revelação das alternativas diante da nossa vida cotidiana, podemos imaginar que o emaranhado combinatório dessas alternativas e das possibilidades de escolhas de uma única vida humana, seria tamanho, que talvez não pudesse ser medido em escala de unidades – seria infinito.

O crente poderia dizer que esse mecanismo de revelação de alternativas é oriundo (ou manipulado) por Deus, justificando a sua crença no arbítrio sem, contudo, deixar de atribuir ao Divino a possibilidade de orquestração de nossas vidas. O cientista cético, ainda que confessasse não dispor da resposta precisa, diria que esse mecanismo seria provocado pelas relações quânticas entre as partículas e forças cósmicas que interagem no micro e do macro universo. Ele diria que muito prontamente teremos essa confirmação oriunda da evolução científica. Ou seja, desvendaremos todos os segredos da vida ao dispormos das leis físicas e químicas específicas que a governam absolutamente.

A minha visão pessoal, obviamente amparada por estudos não inéditos e compartilhadas com outros, é a da consideração da existência de um mecanismo gerador do “acaso”, que seria o grande intelecto por trás da disposição das alternativas que se apresentam diante de nossas vidas e, em última instância, influenciador da nossa condição. Nada de Deus (ou Deuses) na revelação das alternativas que serviriam às minhas escolhas, através do meu livre arbítrio. Mas o acaso, ingovernável, desprovido de leis científicas ou místicas conhecidas ou a se conhecer. Uma condição absolutamente incerta, uma lei que não pode ser escrita, eclodindo voluntariamente das impensáveis combinações de disposições de partículas e forças presentes nas relações do micro e do macro cosmos. O acaso inimaginavelmente puro!

Pensado bem, a minha visão aborda a combinação da visão científica de partículas e forças que regem a natureza, numa lei inconcebível e dificilmente modelável e, portanto, mística, por se traduzir em crença.

Quais as conseqüências dessa visão? Engana-se quem entendeu pela descrença em Deus, afinal, de onde emanaria mecanismo tão puro, disposto de inteligência própria, tão democrática e vital para o surgimento e preservação da vida? Seria Deus o criador desse mecanismo? Sentado em algum lugar do cosmos, Ele teria a fórmula secreta do acaso? Possivelmente não! Pois isso revelaria uma incongruência da visão, pelo simples fato da lei existir.   Seria então Deus, o próprio acaso? Possivelmente sim – puro, justo e perfeito. Indutor e facilitador da vida onde quer que seja e em que tempo for. Sob essa ótica, ao contrário de uma visão inerte, reativa e tutelada, tenho considerado que tudo nessa vida, de certo modo, dispõem de uma parcela de contribuição proveniente do acaso. Ou seja, “Tudo é por acaso” – por obra e graça de Deus. Pensando assim, a vida tem me sido revelada como maior, mais complexa e mais bela que qualquer outra coisa no universo. Uma dádiva a ser vivida intensamente, em qualquer condição, ao sabor do divino acaso.    

Certa vez Einsten afirmou que “Deus não joga dados”. Até hoje não se sabe ao certo o que ele quis dizer com isso e as condições que o levaram a fazer a afirmação. Os crentes entendem a frase como uma aceitação do cientista à existência de Deus e à condição divina sobre os fatos e acontecimentos. A mim, caberia entender, que se Deus não joga dados, Ele se traduz no próprio mecanismo que garante imparcialidade aos dados e que garante a presença da vida, como a conhecemos, no planeta.


[1] “Tem a coragem de saber!”: Horácio, Epístolas I, 2, 40

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One Response to Tudo é por acaso

  1. wesley disse:

    eu acredito que tudo que acontece na vida de todos depende de cada caminho que o mesmo segue, pois em tudo que se faz na vida tem duas escolhas, podendo uma ser errada e a outra serta ou ambas sertas etc.E portanto cada escolha que fasemos tem suas consequecias, sejam boas quanto ruins.

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