CRÍTICA À CONDUÇÃO DO PROJETO ENEM-2010

Nos últimos dias tenho feito uso das redes sociais para manifestar minha posição crítica acerca dos fatos lamentáveis ocorridos na aplicação da prova do ENEM-2010. Deixo claro que não tenho a intenção de polemizar e, tampouco, tecer críticas políticas partidárias maniqueístas sobre a essência do exame, mas de me ater aos aspectos pragmáticos da execução desastrosa de um projeto de âmbito nacional que afeta a vida e a esperança de milhões de jovens brasileiros.

Não desabono a existência do exame. Pelo contrário, admito e defendo o ENEM como um grande avanço em relação à democratização do acesso ao ensino público superior, ao mesmo tempo em que promove a integração nacional e o nivelamento das nossas diferenças culturais e geográficas. Quando poderíamos pensar que um bom estudante de Roraima, desprovido de maiores recursos, poderia cogitar pleitear uma vaga numa universidade pública no Rio Grande do Sul, ou vice versa? Que bom para o estudante, para os professores, para os colegas, para a universidade e para a comunidade que o acolhe. Juntos aprenderão a aceitar e conviver com o espectro diverso da nossa população. 

Não se trata ainda, simplesmente, de uma crítica vazia às ações corretivas que o Ministério vem defendendo veementemente na mídia, propondo a aplicação de provas substitutivas apenas àquela parcela de candidatos que foi diretamente impactada pelo problema da inversão de gabaritos. Reconheço que se estivesse ‘nos sapatos’ do Ministro, também estaria procurando soluções que minimizassem os impactos políticos, midiáticos, econômicos, logísticos e psicológicos (para os candidatos) dessas ações – Penso que ele tem o dever de apresentar seus planos corretivos imediatamente.

Contudo, acredito que direcionar o foco do posicionamento oficial apenas ao plano das ações corretivas emergenciais acarreta o acobertamento do fato de que, definitivamente, erros grosseiros aconteceram durante a aplicação da prova, provenientes, quem sabe, de incompetência administrativa, ação criminosa ou simplesmente devido ao acaso. Ou, quem virá a saber, se não partirmos para uma investigação administrativa adequada que possa deixar um legado de lições aprendidas? É nesse ponto que reside a minha indignação e crítica ao pronunciamento oficial do Ministério (ou à falta desse). Deixar de analisar os erros havidos com certo grau de profundidade (Quem os cometeu ? Como aconteceram ? Por que aconteceram?) e tomar ações mitigatórias contundentes para que não mais voltem a acontecer, implica na aceitação de uma situação de ineficiência administrativa que, considero  inadmissível. 

Como um profissional de projetos experiente, facilmente consigo identificar no ENEM as características fundamentais de um projeto: temporário, resultados exclusivos e sujeito à elaboração progressiva. Consigo ainda perceber o alto grau de complexidade e a importância estratégica desse projeto para o país, indicações mais que suficientes para a recomendação de alta prioridade e de uma gestão rigorosamente diligente da sua execução. Entretanto, ao tomar conhecimento dos problemas grosseiros, quase infantis, havidos na aplicação da prova, tenho a sensação de que a gestão do projeto ENEM não foi feita com o devido rigor e competência que haveria de se esperar.  

Tecnicamente falando, questiono se foi elaborada uma EAP (Estrutura Analítica de Projeto) adequada? Se o plano do projeto (se é que houve um plano) contemplou a elaboração de uma análise abrangente de interessados? De uma análise de riscos? Se esses riscos foram devidamente mitigados através de ações preventivas? Se os fornecedores contratados foram escolhidos por critérios de competência histórica? Se os contratos previam cláusulas devidas de segurança da informação e redundâncias das operações? Se houve monitoramento e controle adequado das atividades do projeto? Se houve diligenciamento das atividades atribuídas aos fornecedores? 

A meu ver, avaliando apenas as informações que nos chegam da mídia e, por isso, correndo o risco de tecer críticas infundadas, considero que esse projeto foi mal gerenciado, produzindo o catastrófico resultado que vem sendo desenrolado. 

Isso me leva a questionar não apenas a competência de quem esteve à frente e gerenciou o projeto, mas, sobretudo, a importância que a ele foi dada pelo Ministério ou a importância que vem sendo dada ao trato com a coisa pública pelo governo. Parece fácil alegar que a prova poderá ser repetida quantas vezes for necessária, mas, quem pagará a conta desta e das próximas demonstrações de ineficiência? Obviamente nós, os contribuintes. Sem contar que as críticas mais contundentes serão rechaçadas sob a alegação de fundamentação política partidária. Será que é só isso que importa na construção de um país mais cidadão?

E o que dizer aos candidatos? Jovens que vêm se preparando durante todo o ano, acalentando o sonho de entrar numa faculdade e vislumbrar uma vida melhor. Jovens que, provavelmente, em sua grande maioria, e pela idade, se encontram num turbilhão de transformações hormonais, bombardeados e pressionados pelas exigências psicológicas e sociais da escolha da profissão, agravados pelo fato de muitos ainda não estarem suficientemente maduros para tal, são colocados gratuitamente frente a mais este desafio. Eles não merecem tamanha negligência! 

Como entusiasta da eficiência administrativa e como cidadão, defendo aqui a proposta de uma avaliação meticulosa dos fatos havidos com o ENEM-2010 (post mortem), que se preste a alimentar a melhoria contínua da qualidade da gestão dos projetos públicos e de seus conseqüentes retornos.   

Alonso Mazini Soler

Profissional de Projetos

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6 Responses to CRÍTICA À CONDUÇÃO DO PROJETO ENEM-2010

  1. Caballero disse:

    Olá Alonso,

    excelente a sua proposta de análise de causa raiz. Basta lembrar que problema semelhante ocorreu também na última edição do ENEM em 2009.

    O governo não aprendeu com o erro.

    Um abraço,
    Sérgio Caballero

  2. Rosária Russo disse:

    Alonso:
    Concordo com você em gênero, número e grau. Acrescentaria que uma das áreas que percebo que foram negligenciadas foi a da qualidade. A matriz das provas já continha erro, que não foram pegos por uma revisão adequada.
    É difícil para as pessoas admitirem os erros, mas só se aprende avaliando onde ele ocorreu e como corrigi-lo para o próximo projeto. 2011 já está aí…

  3. Fabiano Falbo disse:

    Muito bom o texto. Retrata do exatidão a ineficiência, e mais que isso, a complacência com erros e a irresponsabilidade na gestão das questões públicas.
    Fato é, que não podemos mais ser condecendentes com gestões descompromissadas da máquina publica.

    Parabéns pelo texto!

    Abs
    Fabiano

  4. Nilson S disse:

    Numa frase só, que ratifica o dito pelo Soler, M.Gandhi disse: “Tolo é aquele que se esquece da crise, depois que ela passa.”

  5. Paulo Toledo disse:

    Prezado Prof. Alonso,

    Achei interessante e oportuna sua crítica a condução do “projeto” Enem, suas colocações são claras e expõe a ausência de planejamento e outros requisitos essenciais na iniciativa do governo Federal para democratizar o acesso de brasileiros às universidades públicas de qualidade através do Enem, e que mais uma vez nos proporcionou um show de incompetência, acusações, bravatas presidenciais , descalabros e desmentidos, “quouosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra”.
    Assim sendo, quero nesta oportunidade humildemente discordar de algumas opiniões suas sobre o famigerado Enem e expressar também minha inidignação, conforme a seguir:
    1- Grandes avanços no ensino superior brasileiro seriam:
    a. Melhora radical nos ensinos médio e público no Brasil: o que está colocado para as nossas crianças e jovens atualmente é uma verdadeira aberração, com heróicas exceções por conta de alguns abnegados, responsáveis e idealistas professores e diretores de uma minoria de escolas , ou seja, faz-se necessária uma revisão total na qualidade, grade curricular, instalações físicas escolares, capacitação de professores, funcionários e diretores .
    b. Extinção imediata do sistema de cotas raciais – uma vergonha chegarmos a esse ponto de segregação, o ensino até a universidade deve ter qualidade suficiente para que haja igualdade de condições de concorrência para todos indiscriminadamente.
    c. Avaliação responsável do ensino superior particular, que com raras exceções – as Universidades tradicionais – é de péssima qualidade, fábricas de diplomas somente.
    d. Recriação do PróUni, que transformou as universidades particulares que estavam falindo porque não tinham a mínima condição de ensinar em negócios rentáveis às custas da “res pública”.
    Posso enumerar dezenas de avanços, mas abreviarei minhas considerações por aqui.
    2- Não vejo nenhuma utilidade prática no Enem, a não ser para os donos de cursinhos preparatórios faturarem, da forma que está colocado ele apenas é mais um vestibular, concorrendo com a iniciativa particular cobrando taxas dos estudantes, e quem levará as melhores vagas na grande maioria serão os estudantes egressos de colégios particulares.
    3- É necessária e urgente a criação de um grupo de estudos que proponha uma nova forma de avaliação para ingresso nas universidades pública, totalmente diferente do modelo tradicional e estático de exame vestibular.
    4- O ministro da educação não apresentará nenhum plano corretivo, não há vontade política para isso e sua visão está centrada no Enem, impedindo-o de olhar em outra direção, o impacto público do Enem é mais interessante e o apelo de marketing é maior.
    5- Não haverá nenhuma investigação a não ser a de praxe da Polícia Federal, comum em grandes investimentos do governo federal (acho que é mais barato do que contratar uma auditoria), as de pequeno porte passam batidas e lições aprendidas nem pensar.
    6- Quanto ao Enem ser gerenciado como um projeto, esqueça, projetos tem um mínimo de organização na definição do escopo e atribuições de responsabilidades, orçamentos definidos, cronogramas ajustados, objetivos claros e são aderentes ao planejamento estratégico da empresa, e planejamento é uma palavra que não consta no dicionário do governo, a não ser aqueles destinados a locupletar beneficiários políticos e apaniguados de plantão.
    7- Também gostaria que houvesse algum gerenciamento de projetos nos patrocinados pelo governo Lula/Dilma, mas conheço apenas iniciativas estaduais de utilização das melhores práticas, caso exista qualquer intenção nessa direção no âmbito federal, certamente será sufocada por interesses eleitoreiros corruptos e não prosperará.
    8- Sou um entusiasta da eficiência administrativa em qualquer circunstância, mas no caso do Brasil, eficiência administrativa pública é um tabu alimentado pelos desvios de verbas, superfaturamentos, corrupção e favorecimentos pessoais, quem terá a coragem e o pulso necessários para quebrar este circulo vicioso?
    Idem, estou indignado: primeiro pela negligência com que o ensino e nossos impostos são tratados pelo governo, segundo, pelas declarações do Presidente Lula, dizendo que faria quantos Enems fossem necessários, acho que ele pensa que dinheiro público é capim e que com a eleição do sucessor e a continuidade do poder, está acima de prestar conta de seus atos e governar para todos, que o sucesso não lhe suba a cabeça nem o poder se torne um vício.

    Abraços

    Paulo Toledo

  6. Paulo Kubota disse:

    Muito bom a análise do problema. O que me parece é que a equipe de um ano para outro não são os mesmos e isso cria as ineficiências e a desconexão com as lições aprendidas (como diz Soler, baseando-se estritamente nas publicações da mídia).

    Relativo à competência da equipe de projeto me preocupa o fato de ter tido tantos concursos públicos para ter pessoal técnico de alto nível em todas as instituições da máquina federal, possa ser a raiz do problema, sem contar com as influências dos políticos em inserir pessoas sem nenhum preparo técnico.

    Parabéns pelo texto.

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