O BURACO DAS RODOVIAS É MAIS PROFUNDO!

Na semana passada (24/Ago) a CNT (Confederação Nacional do Transporte), entidade máxima representativa do setor de transporte e logística nacional, divulgou um estudo técnico aprofundado que mapeia os principais problemas estruturais das rodovias brasileiras e oferece respostas à pergunta:  “Por que os pavimentos das rodovias do Brasil não duram?” (http://www.cnt.org.br/Imprensa/Noticia/cnt-divulga-estudo-por-que-pavimento-rodovias-brasil-nao-duram-resultados ).

Há que se considerar que pelas rodovias nacionais trafegam cerca de 90% dos passageiros e 60% das cargas que se submetem e pagam caro pela má condição das estradas. A principal justificativa do estudo da CNT baseia-se no fato de que, apesar da vida útil estimada do pavimento asfáltico utilizado no país estar prevista para 8 a 12 anos, na prática, os problemas estruturais (buracos, ondulações, fissuras e trincas) já começam a aparecer, em alguns casos, apenas sete meses após a conclusão da rodovia. Em decorrência desses problemas, a pesquisa aponta o aumento do custo operacional do transporte rodoviário de cargas em 24,9% em média – apenas o uso excedente de combustível devido a má condição do pavimento, foi estimado em 775 milhões de litros de diesel ao ano, o que acarreta para o transportador um dispêndio adicional de R$ 2,34 bilhões.

As conclusões do estudo são notórias e impactante, apontando problemas relacionados à utilização de metodologias ultrapassadas nos projetos de engenharia das estradas, deficiências técnicas de execução, falhas no gerenciamento das obras, falta de fiscalização de tráfego e de manutenção das rodovias.

Projetos baseados em método de dimensionamento empírico e desatualizado.  O estudo compara os métodos de dimensionamento de pavimentos adotado no Brasil com os métodos adotados em outros países (Estados Unidos, Japão e Portugal). Neste quesito, verificou-se que o Brasil adota um método empírico, desatualizado e que não contempla a incorporação de novas técnicas e conhecimentos disponíveis, especificidades climáticas regionais, novos materiais, novos tipos de veículo e de composição do tráfego.

Tecnologias e processos construtivos inadequados. O estudo constata que a falta de qualidade da execução das obras figura como uma das variáveis que impactam a durabilidade do pavimento, decorrentes da falta de técnica apurada por parte das empreiteiras e da negligência com normas técnicas durante a execução das obras. Aponta ainda que as obras de rodovias concessionadas, tendem a ser executadas de modo tecnicamente melhor e gerencialmente mais eficiente do que as públicas, considerando os interesses financeiros diretos das concessionárias.

Falta de manutenção e de gerenciamento. Segundo o estudo, a falta de manutenção preventiva das estradas é uma das principais causas da degradação dos pavimentos, decorrentes da cultura nacional de falta de planejamento de manutenções e de orçamento inadequado ou não provisionado

Fiscalização inadequada. O estudo detalha três momentos quando a falta de fiscalização adequada impacta a durabilidade do pavimento: durante a execução do pavimento, no recebimento da obra e durante a sua operação, cujo foco reside no controle de sobrepeso na rodovia.

Diante do quadro técnica e detalhadamente exposto, percebe-se o desnude de mais uma situação grave que acerca as obras públicas do país e o descaso pelo zelo que deveria ser dado ao investimento em infraestrutura de transporte, um dos pilares da competitividade de um país, e ao custo econômico da falta de eficiência e na indisponibilidade final dessas obras, tal como este blog vem tratando há meses. O estudo prossegue apontando oportunidades de melhoria para os problemas identificados.

A crise econômica, a escassez de recursos financeiros atual e a falta de políticas públicas efetivas, podem até ser usadas para justificar a redução momentânea de investimentos no setor, mas não são motivos para acobertar o reconhecimento da ineficiência da gestão das obras rodoviárias no país. Como receber, sem indignação e espanto, a situação retratada pelo estudo da CNT, diante das perdas potencialmente contabilizadas pelos problemas analisados, assim como, diante da obviedade profissional de suas soluções?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

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