O ENCOLHIMENTO ECONÔMICO DO SETOR DA CONSTRUÇÃO

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou na semana passada (01/Set/2017) o crescimento de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre deste ano em comparação com o trimestre anterior. Três vivas e graças ao setor agropecuário, cujo desempenho individual de 14,9%, em comparação ao mesmo período de 2016, alavancou o resultado nacional. O PIB positivo foi comemorado com entusiasmo e otimismo pela equipe econômica do governo, ávida por boas notícias, sinalizando uma possível “luz no fim do túnel” para a recessão brasileira. Quiça!

Entretanto, o anúncio poderia ter sido bem mais contundente e efusivo!

Infelizmente o desempenho macroeconômico do PIB foi prejudicado pelo contundente resultado negativo apresentado pelo setor da construção civil, cujo desempenho individual, no 2º trimestre de 2017, caiu 7% na comparação com o mesmo período de 2016, configurando assim o pior desempenho entre todos os demais setores produtivos que compõem o indicador. Esse resultado foi ainda pior do que o resultado do trimestre anterior que havia apontado um recuo de 6,3% do setor em comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado do trimestre, associado aos resultados do ano, levou o setor da construção civil encolher ao patamar de oito anos atrás, em 2009, ano em que o país sofria os efeitos da crise financeira global. Dados da série histórica de evolução do PIB mostram que, desde o início da recessão, no segundo trimestre de 2014, a atividade encolheu 21%.

O revés do setor de construção civil foi significativo também para derrubar o desempenho agregado do setor industrial (a construção responde por cerca de um quarto da indústria como um todo) que recuou 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado e ofuscar o desempenho positivo do setor extrativista mineral que cresceu 5,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A retração do setor implica na ampliação do desemprego.

A grande preocupação por trás do recuo do setor da construção reside no impacto provocado ao aumento do desemprego, num país mergulhado em uma crise econômica que não dá trégua sustentável e que registrou uma taxa de desocupação de 13% no 2º trimestre de 2017 (IBGE PNAD Continua). Considerando que o setor da construção responde historicamente por cerca de 8% de participação no total da População Ocupada (PO) nacional, o aumento do desemprego do setor agrava significativamente a situação social de seu trabalhador típico, que se caracteriza pelo baixo nível de escolaridade, pouca qualificação e especialização – a mercê, portanto, da conjuntura e sem muitas alternativas de recolocação e reposicionamento.

A solução ortodoxa para a reversão dessa situação reside na retomada dos investimentos no setor.

Entretanto, o detalhamento do estudo que fundamenta a boa nova do PIB registra que a FCBF (Formação Bruta de Capital Fixo) do setor, um indicador direto que mede a capacidade de investimentos e a confiança dos empresários no futuro, recuou 6,5% no segundo trimestre de 2017 em comparação com o mesmo trimestre de 2016, indicativo claro da retração dos investimentos privados a longo prazo. Como agravante, tal como anunciado neste blog anteriormente (https://blogdosoler.wordpress.com/2017/08/20/impacto-economico-da-paralisacao-de-obras-publicas/ ) o Governo Federal sancionou em agosto passado a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2018 com vetos significativos ao orçamento destinado à conclusão de obras e às ações relativas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Estatísticas apontam para o fato de que os esforços do Governo Federal para reduzir despesas e cumprir a meta fiscal prejudicaram,  principalmente, o setor da construção civil. Como ilustração, um levantamento do Tesouro, publicado em 10/Setembro pelo jornal  Folha de S.Paulo (http://m.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1917123-investimento-publico-despenca-para-o-menor-patamar-em-10-anos-e-afeta-pib.shtml ) mostra que os gastos com investimentos públicos caíram 13% desde o final de 2013, ano anterior ao do início da recessão, mas as despesas com obras, conservação de estradas e o Programa Minha Casa, Minha Vida despencaram 40% no mesmo período – de R$ 32 bilhões gastos em 2013 para R$ 19 bilhões no último ano (julho/2016 a julho 2017).

Em contrapartida e como alento à situação de desânimo que afeta o setor de construção, estendido à área de infraestrutura, e ainda no contexto da intenção de contenção de gastos, o Governo Federal anunciou um pacote de privatizações abrangendo dezenas de empresas e projetos, incluindo os aeroportos de Congonhas (SP), Recife (PE), Maceió (AL), João pessoa (PB), Aracaju (SE) e de outras grandes cidades brasileiras, além de rodovias e portos que, entretanto, segue sendo debatido no Congresso Nacional neste mês de Setembro/2017 sem perspectivas políticas viáveis de aprovação à curto/médio prazos.

Situação difícil de retração, falta de rumos e de perspectivas.

Enfim, sem o aporte de investimentos públicos e privados, o setor da construção segue minguando, sem planos viáveis a curso/médio prazos e sem perspectivas, no aguardo e a reboque de uma solução para a crise política que possa permitir a deflagração do retorno da confiança dos investidores e da retomada do crescimento e do emprego. Oremos!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: