RECOLOCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DEPOIS DOS 50 ANOS

Recebo diariamente notícias e currículos de amigos que, involuntariamente, despertaram um dia na condição de desempregados. Profissionais do mais alto calibre com vasta experiência em obras, exímios técnicos, excelentes gestores e executivos. Gente que dedicou a vida, que entregou resultados e que fez história nas grandes construtoras. Gente que produziu conhecimento e que formou gente.

Entretanto, gente que na plenitude da vida produtiva, às vezes com filhos tardios à criar e certamente com contas à pagar, foi apartada do emprego, do cargo, do status e da (suposta) segurança financeira, e está tendo dificuldades para se recolocar. Independentemente de sua história de vida, gente que se sente relegada, desacreditada e rebaixada em sua auto-estima.

Gente incluída nas estatísticas!

Não é para menos, dados da Pesquisa PNAD Contínua do IBGE de janeiro de 2018, mostram que o setor da construção perdeu 6,2% da população ocupada em 2017 na comparação com 2016 e 12,3% desde 2014. Reforçando a estatística, o Sinduscon-SP informou que o número de pessoas empregadas na construção civil caiu 5% em 2017 contabilizando 125 mil vagas a menos em relação a 2016, apenas no estado de São Paulo.

Por que chegamos aqui?

As crises política e econômica que se arrastam desde 2014, agravadas pelas operações de combate à corrupção que desmontaram o modelo de negócios ilegal até então vigente, justificam a situação de declínio da atividade econômica do setor da construção que, diante dos novos desafios legais, regulatórios, tecnológicos, de gestão e de escassez de investimentos tenta agora se reinventar de maneira disruptiva.

Boa governança e inovação pautam as discussões estratégicas do setor de construção

Governança e inovação têm sido os alicerces da reformulação do setor da construção que já contabiliza transformações expressivas. Ao mesmo tempo em que se observa maior transparência e adequação legal (compliance) do negócio, promove-se impactos na melhoria da gestão das obras, associadas a resultados de redução de desperdícios, prazos e custos e com maior comprometimento social e ambiental.

Inovações tecnológicas e de gestão

Dentre tantas inovações tecnológicas e de gestão perceptíveis, destacam-se: a modelagem e a compatibilização dos projetos através do BIM; a fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); as estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; o uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; a automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis e sensores vestíveis inteligentes; o uso de aparatos inteligentes baseados na Internet das Coisas (IoT), na realidade aumentada e nos drones; a disseminação de aplicativos voltados à gestão de obras; a construção enxuta; a priorização dos processos; o controle do ritmo produtivo; a gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

O novo profissional da construção

Diante do novo que sustenta a transformação experimentada pelo setor da construção, configura-se o perfil necessário de um (igualmente) novo profissional: íntimo do uso e das potencialidades da tecnologia digital, intuitivo, pragmático, colaborativo, flexível em suas ideias, internacionalizado em sua networking e sensível às causas ambientais e sociais, aberto e disponível a aprender ininterruptamente.

O desafio da recolocação

Não se faz mais obra misturando areia, cimento e aço – aqui reside o grande desafio do profissional maduro que busca recolocação no mercado de trabalho diante das inovações tecnológicas e de gestão adotadas pelas empresas e pelo setor. Independentemente do peso de seu currículo, ele não pode se pautar exclusivamente em sua experiência pregressa e na networking que lhe restou para garantir o retorno ao emprego. Ele deve estar aberto a se reinventar, tanto quanto tem estado as construtoras e o mercado.

Ele deve estar disposto a aprender e reaprender tudo o que desconhece e que um dia pensou dominar. Obrigatoriamente, terá que mergulhar no mundo da tecnologia e da informática, lidar com sistemas e aplicativos de gestão e de automação, aprender a navegar pelo mundo virtual. Terá que reposicionar a sua networking, aproximando-se de novas lideranças presenciais e remotas, reconstruir as suas referências profissionais e agregar valor à nova teia e sinapses do conhecimentos (conteúdo e experiência não lhes faltam).

Entretanto, isso vai exigir que assuma um novo perfil de comportamento, mais curioso, aberto e humilde. Terá que interagir com os mais jovens e com o mundo virtual, perguntar o que desconhece, pedir e aceitar feedbacks, abster de suas certezas, ousar fazer diferente e aceitar o que se impõe como o novo. Terá que trabalhar de modo colaborativo e transmitir confiança e otimismo.

Terá que aceitar não dispor da autoridade do cargo, reportar-se a gente bem mais jovem, não ser chamado para opinar e, invariavelmente, terá que aceitar um salário menor do que o que estava acostumado a receber.

Enfim… não será fácil!

Mas, por outro lado, não é de todo impossível. A vantagem é prolongar a sua longevidade no mercado e alimentar-se da energia vital do contato com os mais jovens e de tudo o que é novo e que representa o futuro. Isso vai fortalecer a auto-estima e iluminar com novas cores a sua vida.

As alternativas profissionais, para quem não desejar se adaptar ao novo modelo, são empreender ou mudar de ramo. Mas creia, isso também não é fácil e também vai exigir uma adaptação profissional.

Diante da situação pergunto aos amigos maduros que me mandam currículo: o que você está esperando para religar a sua juventude e acender o interruptor de seu futuro profissional?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e do LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

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3 Responses to RECOLOCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DEPOIS DOS 50 ANOS

  1. Deborah Dias disse:

    rss Primeiro eles precisam aprender onde desliga o botão do ego e liga o “como trabalhar em equipe” encarar a geração Y e os “Millenniuns” (a geração que (pensa) tudo saber.
    Tendo jogo de cintura, é possível e quando enfim a o cenário da construção sair do buraco estarão todos prontos para a nova jornada.
    Muito bom seu artigo!

  2. José Hilton Guedes Borges disse:

    Muito bom o comentário, parabéns.

  3. Fernando Pane disse:

    Pode não ser agora, mas um dia, de um jeito ou de outro, vai ser.
    Obrigado pela dica.
    …Custa nada saber se o interruptor está em ordem…

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