TERIA SIDO POSSÍVEL PREVER?

De um dia para o outro, caminhoneiros desligam seus motores, bloqueiam as estradas e param o país. Motoboys, perueiros, taxistas, petroleiros, policiais e a população em geral dão apoio ao movimento que estende sua bandeira à diferentes classes de trabalhadores que professam diferentes ideologias políticas, mas que se identificam com as dores e a pauta de reivindicações do movimento original. Caminhoneiros conseguem o feito de unir as divergências políticas que sustentam o poder. Atônito, o governo bate cabeça para entender o que está acontecendo. Não teria sido possível prever?

 

A cena acima remete a condições similares e que foram indutoras de mudanças drásticas na sociedade dos últimos tempos: a Primavera Árabe, a eleição de Trump, o Brexit, etc. Não teria sido possível prever?

 

Provavelmente não. Pelo menos, não teria sido simples prever considerando a estrutura de representatividade da sociedade com a qual os governos estão acostumados a dialogar… e a cooptar. Políticos profissionais, partidos políticos, sindicatos e associações formam a base da democracia representativa que foi assim estruturada, historicamente, devido à impossibilidade de se consultar e de se ouvir a todos ao mesmo tempo.

 

Mas a estrutura de representatividade atual falhou ao sucumbir aos interesses do poder, traindo os interesses de seus representados – ela não sustenta mais as aspirações da nova sociedade. Uma sociedade baseada no acesso irrestrito e imediato à informação, conectada globalmente e de modo imediato, individualizada, autocentrada e que exerce a sua opinião, voz e o seu protagonismo. Uma sociedade que não se enxerga mais representada por ideologias políticas antiquadas que não sustentam seus anseios, causas e demandas.

 

Da descrença, desalento e da ampla disponibilidade e acesso à tecnologia decorre o surgimento da democracia direta, através da qual governantes voluntariosos passam a aprender a se comunicar diretamente com seus liderados e individualizam o atendimento de suas demandas pessoais ou de seus coletivos mais próximos. Utópico? Não, realmente factível, até porque não há outro caminho no horizonte.

 

Voltando a cena inicial de nossa história. Teria sido possível prever os impactos na sociedade da gestão de preços praticada pela Petrobras, enquanto monopólio semi-estatal? Teria sido possível prever o descontentamento dos caminhoneiros em relação ao achatamento de seus ganhos provocados pela elevação do preço do diesel e dos pedágios privados? Teria sido possível prever a dependência do país e o poder de mobilização dos caminhoneiros capazes de parar o país? Teria sido possível prever os interesses dos patrões, sindicatos e dos partidos políticos que pegaram carona na boléia dos caminhoneiros para garantir a manutenção de seus lucros? Teria sido possível prever o engajamento e a solidariedade espontâneos da população ao movimento original dos caminhoneiros mesmo tendo que sofrer com o desabastecimento e outras dificuldades?

 

Sim teria sido possível prever, desde que a administração pública tivesse entendido a mudança na estrutura de representatividade e que tivesse começado a dar valor e se importar mais com os interesses individuais da população e de seus coletivos. A nova gestão pública deve se alavancar na tecnologia para dispor de inteligência capaz de dirigir seus atos e decisões. Deve se render à sociedade e a sua participação direta na administração dos governos. Só se sustenta, o governo que entender e responder ás demandas de sua sociedade.

 

Provavelmente amanhã ou, mais tardar, no início da semana, o governo terá flexibilizado tudo o que o movimento dos caminhoneiros exige e, com isso, terá se desmoralizado por ceder à coação. Os bloqueios serão então desfeitos, o abastecimento será normalizado e o país voltará a caminhar.

 

Mas que fique o alerta. O cabo de guerra com essa nova sociedade está esticado no extremo e prestes a romper caso o governo não demonstre interesse e inteligência em aprender a lidar com ela, ouvir e considerar suas demandas. Não há mais governo que se sustente sem o apoio de sua população. Que assim seja!

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

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