UMA FICÇÃO SOBRE INOVAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

A cadeia de valor da indústria da construção civil está mudando exponencialmente ao mesmo passo do que se observa na sociedade e seus impactos na economia. O tratamento cognitivo de grandes massas de dados gerando informação, a personalização de produtos, serviços e de relacionamentos, a conexão global e em tempo real, a desimobilização do capital e o compartilhamento de ativos impõem a disruptura do modelo de negócios vigente e trazem o novo à tona. No alicerce dessa transformação reside a disposição rápida e barata da tecnologia que fomenta e dá sustentação à inovação.

Este texto escrito em forma de uma história de ficção pretende ilustrar a extensão e o poder da inovação tecnológica na integração do ecossistema da construção civil, passando pela cadeia da incorporação, marketing, engenharia, construção, financiamento, securitização, registro e legalização de ativos.

Tudo começa…

Nossa história começa no dia em que Max postou nas redes sociais que Adèle lhe pediu em casamento, e ele aceitou.

… dois anos antes…

Na verdade, nossa história não começa aí. O verdadeiro início, numa das vertentes de observação, reside na contratação de um serviço de avaliação e modelagem estatística da previsão da mobilidade econômica da cidade por uma Incorporadora. Dados sócio, ambientais e econômicos, georreferenciados, foram integrados a bases de dados disponíveis de disposição de serviços público, zoneamento urbano e de tendências sócio políticas. De posse do relatório que previa o deslocamento econômico urbano para áreas potenciais, a Incorporadora contratou uma empresa de land hunting (busca de terrenos) através de drones para encontrar espaços de compra. Com uma área adquirida, a Incorporadora contratou estudos sociológicos sobre o comportamento geracional do público alvo potencial daquela nova região, elaborou um projeto arquitetônico que se ajustava às características da demanda e lançou o empreendimento.

… de volta ao casal…

Ao anunciar o casamento pelas redes sociais, as informações disponíveis, pessoais e profissionais, de Max e Adèle foram capturadas e analisadas por uma empresa de inteligência digital de mercado. Diferentes bases de dados, estruturados e desestruturados, foram integradas por Cientistas de Dados e apontaram o casal como potencial comprador daquele empreendimento específico: a renda conjunta do casal era compatível, a localização era próxima do local de trabalho de ambos e o ambiente do bairro era condizente com o perfil descolado e inovador do casal. Hobbies e gostos específicos do casal foram utilizados na pesquisa e a frequência constante a um barzinho de cervejas artesanais na região do empreendimento foi considerado evento significativo na modelagem da oferta.

… a proposta.

Foi uma surpresa para ambos quando receberam individualmente uma proposta comercial, especificamente dirigida aos seus nomes, destacando aspectos que lhes pareciam interessantes na região, apontando a distância ao local de trabalho de ambos, as opções de transporte, valores compatíveis com sua renda e opções de financiamento pré-aprovado que levavam em conta o seu perfil de crédito já ajustado ao seu comportamento psicológico de compra e risco calculado de distrato. Uma proposta personalizada irrecusável, elaborada pela Incorporadora a partir de alternativas recebidas de empresas de marketing digital, financeiras e um escritório de advocacia que fazem uso de computação cognitiva e inteligência artificial.

… o acompanhamento da obra – um novo hobby.

Enquanto aguardavam a data do casamento, Max e Adèle acompanhavam o avanço da construção de seu primeiro imóvel através de sensores inteligentes remotos colocados em pontos específicos da obra e que alimentavam um modelador 3D e um cronograma, disponibilizados para eles através da internet, a qualquer instante e em qualquer lugar. O casal sabia, exatamente, a situação da construção do empreendimento, como um todo, e a de sua unidade, em específico. Adoravam ficar assistindo à evolução de sua unidade, desde a construção da laje, o fechamento da fachada, a alvenaria, as instalações, etc. Conferiam rigorosamente, pela internet, a metragem construída, o uso de tubulações, cerâmicas, fiação, metais e louças conforme as marcas combinadas que constavam no memorial descritivo e sempre tiravam dúvidas com seu representante na obra. O sistema disponibilizado permitia ainda ao casal tirar fotos antecipadas do interior de seu futuro apartamento durante a obra, através de tecnologia de realidade aumentada e realidade virtual, experimentando opções de arquitetura de interiores oferecidas à eles por escritórios de arquitetura parceiros da Incorporadora. Max e Adèle compartilhavam sua alegria pelas redes sociais e isso ajudava a Incorporadora a entender mais sobre eles, seu grau de satisfação e o de seu grupo de amizades, cuja compatibilização de perfil era constantemente monitorada para um ou outro novo empreendimento da empresa.

… a gestão da construção.

Invisível aos olhos do casal, o contrato da Incorporadora com a Construtora e demais contratos de fornecimento e prestação de serviços também eram administrados com a mediação de tecnologia. Todos os projetos foram compatibilizados pelo modelador 3D e desdobrados no cronograma (4D) e no orçamento da obra (5D). A obra foi concebida pré-moldada e o fornecimento das partes foi contratado e monitorado em tempo real através de sensores inteligentes que acompanhavam o pedido nas diferentes fábricas localizadas no país e no exterior. A produção remota das partes, o embarque e a chegada no canteiro foram “puxadas” conforme o cronograma de construção enxuta e geravam marcos instantâneos de atualização do cronograma, atualização do modelador, gerador de medições e realização de pagamentos, tudo via smartcontracts.

… customização da unidade, financiamento e securitização.

A Incorporadora ofereceu ainda ao casal a possibilidade de customização das áreas de sua unidade. Revestimentos, pisos, banheiros e cozinha foram oferecidos em opções customizáveis elaboradas de modo parametrizável às dimensões do ambiente por fornecedores específicos. Ofertas adicionais de customização foram acompanhadas por opções de crédito e seguros adicionais pré-aprovados e com taxas compatíveis com as disponibilidades e perfil de risco do casal.

… legalização cartorária.

Na entrega das chaves, Max e Adèle assinaram um contrato de disposição conjunta do imóvel. O cartório foi substituído pela expressão de transparência e confiança na blockchain, onde toda a história do apartamento foi registrada em blocos distribuídos, imutáveis e rastreáveis de informação, desde o projeto arquitetônico, os cálculos de engenharia, o material utilizado, o acompanhamento da obra, os contratos executados e os pagamentos realizados. A unidade 503 do bloco B, construída pela Incorporadora e comprada, inicial e solidariamente por Max e Adèle, passou a figurar na nuvem como uma entidade digital – a sua história foi registrada de modo transparente e está aberta a ser complementada pelo futuro histórico que lhe couber.

… felizes para sempre!

A entrega das chaves aconteceu dois meses antes da data do casamento e o casal foi feliz durante os dois anos que se sucederam. Certo dia, Adèle postou nas redes sociais que estava grávida. Coincidentemente, ela e Max receberam uma nova proposta de um imóvel maior, com playground e próximo de boas escolas… e a história se repetiu.

Ficção? #sqn – só que não!

Apesar do conservadorismo típico da indústria da construção, as inovações tecnológicas que a cercam florescem de modo exponencial. O ecossistema das startups de construção (construtechs) exibe uma dinâmica rejuvenescida e energizada capaz de mudar rapidamente o modelo de negócios atual. Aliás, a ficção de Max e Adèle não é mais um exercício de futurologia, ela já é real e, certamente, está presente e influenciando a sua própria história, Leitor.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Construção #Inovação #Construtechs

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One Response to UMA FICÇÃO SOBRE INOVAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

  1. O Conservadorismo do Setor é mera e arcaica suposição! Existem no Setor muitas mentes abertas e arejadas voltadas ao Futuro que está Presente com abordagens holísticas à Inovação e Criatividade com vistas à Sustentabilidade e ao Bem-Estar! As inovações tecnológicas que a cercam florescem de modo exponencial. O ecossistema das startups de construção (construtechs) exibe uma dinâmica energizada capaz de mudar rapidamente o modelo de negócios atual. Aliás, a ficção de Max e Adèle não é mais um exercício de futurologia, ela já é real e, certamente, está presente e influenciando a sua própria história, Leitor.

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