REALIDADE VIRTUAL NA EDUCAÇÃO

julho 22, 2018

Cena 1: Numa escola pública nos rincões do país

Um grupo de estudantes de pé, no centro da sala de uma escola pública do sertão, como que surfando em uma onda atemporal, distante de grandes centros e carente de todo tipo de recurso, se transporta virtualmente para o centro do conflito da Síria, experimentando os horrores da guerra em um campo de refugiados, caminhando pelas ruas, observando as tendas, ouvindo os sons originais do local, cruzando com moradores e passantes, observando crianças brincando e vendedores oferecendo mercadorias.

Por dez minutos, os estudantes do sertão brasileiro tiveram a sensação de vivenciar a realidade cruel da guerra, o que lhes proporcionou uma experiência emocional incomparável, tal como o seu professor de história sempre quis ensinar, mas se sentia impossibilitado pela restrição de material didático adequado. Os estudantes estavam tendo a sua primeira experiência com Realidade Virtual a partir do documentário Cloud Over Sidra do artista visual Chris Milk, disponível gratuitamente no Youtube – eles usavam óculos 3D de papelão, fabricados por eles mesmos na escola e um aparelho celular comum, emprestado de um professor.

Realidade Virtual – um teletransporte às novas experiências

A Realidade Virtual é um conjunto de tecnologias interativas (tais como óculos especiais e monitores adaptados) que permite a um usuário enxergar objetos ou cenários tridimensionais, proporcionando o seu envolvimento pessoal e sensação de estar presente, levando-o a interagir e vivenciar experiências simuladas artificiais como se fossem reais. Um verdadeiro teletransporte ao mundo virtual, “enganando” os sentidos e democratizando as possibilidades de compartilhamento de novas experiências, ampliando e transformando a mentalidade do usuário e capacitando-o a resolver desafios.

Como assim?

A tecnologia permite, por exemplo, que um professor leve seus alunos aos pólos da terra, ou ao centro de um vulcão, ilustrando o conteúdo apresentado em sala de aula, que passeiem juntos pelo Coliseu Romano, pela Floresta Amazônica ou pelo distrito de Bento Rodrigues, logo após o desastre da represa em Mariana. Permite visualizar de maneira interativa e gameficada as moléculas orgânicas de uma planta, o funcionamento de uma célula, as formações de cadeias carbônicas e todas as funções e anatomia do corpo humano. Permite visitas à beira de um córrego, observando o cenário de entulho, lixo e água parada, a procura de ambientes propícios para a proliferação do Aedes Aegypti. Permite simular situações de risco em medicina, construção civil, segurança do trabalho, treinamentos militares, etc. Um novo mundo de possibilidades que se abre! Tudo sem sair de dentro do ambiente seguro da sala de aula (como no filme Avatar!).

A Realidade Virtual e a nova Educação

O aluno da nova educação do Sec XXI é um nativo digital. Sua vida está intimamente associada à tecnologia e o novo professor deve saber tirar proveito disso, ao invés de alimentar o embate contra os dispositivos eletrônicos nas salas de aula. Nesse contexto, a Realidade Virtual situa-se como sinônimo de modernização e inovação, revolucionando os métodos de ensino sob novas perspectivas e apoiando a transição para a nova era da educação.

Considerando que a Realidade Virtual facilita experiências imersivas e interativas, ela tem o potencial de alavancar o processo de aprendizagem bem como de sua vivência, melhorando a motivação dos alunos e sua consequente compreensão e apreensão dos conteúdos trabalhados em sala de aula.

É preciso se emocionar para aprender

Segundo alguns filósofos da educação, além do visual e do auditivo, a emoção é componente fundamental do processo de aprendizagem. O francês Gilles Deleuze, menciona que o despertar do aluno numa aula acontece quando esta provoca sua emoção: “Uma aula é tanto emoção como inteligência. Sem emoção não há nada”. Em sintonia, o especialista em pedagogia Malcolm Knowles acrescenta que aprender deve ser também “uma aventura, temperada com a excitação da descoberta”.

Nesse sentido, a Realidade Virtual posiciona o aluno como protagonista de seu aprendizado, individualizando suas percepções, sua curiosidade e suas emoções, tornando a experiência de aprendizagem mais envolvente, inspiradora e transformadora de sua vida.

Startups de Realidade Virtual

No Brasil, a Realidade Virtual tem se popularizado e se infiltrado nos sistemas de ensino, privados e público. A dimensão exponencial do mercado nacional de educação e o potencial disruptivo da tecnologia vem chamando a atenção de startups dedicadas ao tema que começam a lançar seus produtos e garantir fatias desse mercado. Dentre estas, três empresas se destacam por sua proposição inovadora de valor: a Beenoculus, a Evobooks e a Uptime.

A Beenoculus é criadora do Beenoculus, um aplicativo que transforma o smartphone em óculos de Realidade Virtual. A Evobooks se propõe a criar experiências de aprendizagem significativas e inovadoras, investindo nas melhores práticas educacionais aliadas à evolução da tecnologia. Já a Uptime é a primeira escola de inglês do mundo a oferecer o aprendizado através de experiências em Realidade Virtual e aumentada.

A boa luta de gigantes

Mas a Realidade Virtual na Educação não é apenas epifania de jovens empreendedores de Edtechs. A briga chegou ao centro do império com Google, Microsoft e Facebook disputando posições no cabo de guerra das plataformas educacionais.

Por um lado, a Google saiu na frente com seu Google Expeditions, aplicativo que compõe a plataforma Google Suite for Education. O Expeditions é uma ferramenta de ensino baseada em Realidade Virtual através da qual os estudantes podem explorar o mundo sem sair da sala de aula. Já são mais de 500 expedições disponíveis, que vão desde a Estação Espacial Internacional, ao Machu Picchu ou ao fundo do mar cercado de tubarões, que já foram acessadas por mais de 2 milhões de estudantes pelo mundo.

Por outro lado, a Microsoft potencializou a sua plataforma Office 365 para Educação, anunciando uma parceria com o projeto WGBH’s Bringing the Universe to America’s Classrooms, para distribuição nacional em Realidade Virtual de conteúdos sobre Ciência da Terra e Espacial e para serem usados em salas de aula por meio de recursos de aprendizagem digital.

Já pelo lado do Facebook, Mark Zuckerberg anunciou a compra da empresa que produz o Oculus Rift, um programa de Realidade Virtual que deverá disputar mercado de escolas e universidades contra o Google Cardboard e o HoloLens da Microsoft.

Tecnologia acessível. Só que não! #sqn

Algumas questões devem emergir dessa discussão de uso da Realidade Virtual na Educação: a primeira diz respeito ao alinhamento dos recursos da nova tecnologia ao projeto pedagógico do curso. Apesar de fomentar o lúdico, a Realidade Virtual não deve ser tratada apenas como um recurso recreativo em sala de aula.

A outra questão importante diz respeito aos custos da adoção da tecnologia. Embora a Google ofereça seus óculos a baixo preço e grande parte do material produzido estar sendo disponibilizado gratuitamente para escolas, resiste a necessidade de se dispor de um smartphone para executar a tecnologia, o que dificulta a adoção da Realidade Virtual nas redes públicas do país.

A tecnologia da Realidade Virtual aplicada à nova educação do Sec XXI já é um fato, este sim, real. Mas até quando o seu custo será considerado inviabilizador da democratização do ensino de qualidade e da inclusão?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Realidadevirtual #IA #blogdosoler

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A TECNOLOGIA E O FIM DO EMPREGO

julho 16, 2018

Atualmente, a adoção de novas tecnologias no ambiente da produção e do trabalho tem sido associada às palavras mudança e disruptura, numa alusão à travessia ao novo, ao mais adaptado e ao melhor – a Indústria 4.0 veio para ficar. Nessa nova era, a tecnologia avança rapidamente sobre o emprego e devora postos de trabalho com apetite voraz.

Preocupação com o futuro do mercado de trabalho

Uma visão do que será o mercado de trabalho daqui a alguns anos assusta trabalhadores, sindicalistas, dirigentes públicos e entidades não governamentais, preocupados com o que será feito com hordas de pessoas sem emprego formal e, consequentemente, sem renda, no mundo. No Brasil, já se contam 13 milhões de desempregados, muitos deles não nativos e desatualizados tecnologicamente e, por isso, encontram dificuldades para retornar ao mercado de trabalho tal como o conheciam há tempos atrás.

A competição dos robôs por postos de trabalho

Alguns exemplos significativos, oriundos dos EUA, ilustram essa perspectiva: caminhões autônomos já cruzam o país, de costa a costa, experiência que ameaça o emprego de milhões de trabalhadores envolvidos com o transporte terrestre de pessoas e de cargas no mundo. O Porto de Los Angeles já opera integralmente sem a ajuda de Estivadores que, outrora, chegaram a somar mais de 16 mil empregados. A Amazon já opera todos os seus armazéns e centros de distribuição por meio de milhares de robôs programáveis, provocando a demissão de mais de 170 mil postos de trabalho nos últimos anos. A indústria automobilística já está quase que integralmente automatizada por robôs, assim como a FoxCom, fabricante do iPhone, que anunciou estar substituindo todos os seus funcionários humanos por robôs em suas fábricas na China. Ainda da China, percebe-se a substituição do homem pela máquina também no segmento da construção civil, através da adoção massiva de construções impressas, de fabricação e montagem de pré-moldados padronizados e com o uso de sensores automatizados em substituição a inspeções tradicionais.

Previsão apocalíptica

Numa visão estritamente econômica, o barateamento exponencial da tecnologia da informação e da robótica viabilizam a substituição da mão de obra humana operacional por robôs de controle automático, proporcionando a extinção de postos de trabalho e do emprego, criando uma visão catastrófica para o futuro do emprego e da humanidade.

Alguns dirão que essa previsão apocalíptica já foi experimentada antes, durante a revolução industrial, quando o artesão perdeu seu lugar para a máquina a vapor e para as linhas de produção, e que tudo se trata apenas de uma questão de ajuste e acomodação das habilidades do trabalhador às novas necessidades. Há ainda quem prefira considerar a situação sob a ótica do otimismo ingênuo, baseado na crença de que tudo se ajusta e se resolve naturalmente, devido a incapacidade de superação humana pela máquina – o ser humano não é, ainda, capaz de brincar de Deus e dotar a máquina de sua inteligência e humanidade.

Novas teorias sociais e econômicas

Extremismos a parte, o emprego, como fonte de geração de renda individual e de sustento familiar, nunca esteve tão ameaçado quanto tem sido atualmente, proporcionando campo fértil para a criação de novas teorias sociais e econômicas, incluindo aquelas que pressupõem o fim do trabalho humano braçal e operacional, abrigo de profissionais pouco qualificados, a prevalência do trabalho criativo de alta especialização e a remuneração assistencial da ocupação pelo ócio. Soluções que, apesar de oferecerem encaminhamentos adequados, tendem a gerar efeitos colaterais danosos, por exemplo, no que tange à discriminação entre os trabalhadores qualificados criativos e os ociosos mantidos pelo estado.

A demonização da tecnologia

De qualquer modo, a tecnologia não deveria ser demonizada por provocar ruídos na estabilidade do modelo vigente de emprego pois, por outro lado, dela advém novas possibilidades e perspectivas de trabalho diferentes e nem sequer imaginadas. O trabalho, a ocupação e as profissões serão outras, não comparáveis ao que experimentamos no passado e no presente. Sem mencionar ainda, as melhorias significativas, decorrentes de sua adoção e em favor do ser humano, aos problemas da fome, da saúde, da expectativa e da qualidade de vida, da segurança, etc.

Educação – o alicerce da edificação da nova sociedade

Apostando em uma perspectiva otimista, resta tecer considerações sobre um dos fatores que compõe o modelo geral de previsão do futuro do emprego – a Educação. Poderia ser ela o alicerce sobre o qual se edificaria uma nova sociedade e novos modelos sociais e econômicos que regulariam as relações evitando caos e catástrofe?

Trazendo a discussão para a realidade do Brasil, é notória a complexidade de se educar e se aculturar uma sociedade já tão defasada e desprovida de competência no assunto. Seria factível contar com essa Educação em extensão e prazo compatíveis aos “estragos” proporcionados ao emprego pela adoção das novas tecnologias? Uma sociedade que não conseguiu erradicar o analfabetismo e cujas estatísticas de analfabetismo funcional são alarmantes, seria capaz de reverter suas deficiências e se posicionar aceitavelmente na nova era da Indústria 4.0?

Se as respostas forem positivas, urge a ação prioritária de estender a educação aos brasileiros de modo massificado e disruptivo, com a mesma voracidade que vimos adentrar a tecnologia em nossas vidas. Só com educação sustentaremos a nossa sociedade.

Prioridade na pauta das discussões

Deve-se sim, priorizar as discussões sobre o futuro do emprego e sobre a educação mais adaptada à nova era, na pauta da sociedade, proporcionando a criação de políticas públicas afirmativas capazes de enfrentar o problema de forma ampla e eficaz. E que se faça uso da própria tecnologia em apoio à busca e ao encaminhamento dessas soluções.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Tecnologia #Trabalho #Emprego #Gestão #Blogdosoler


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: EDTECHS, SOLUÇÃO E OPORTUNIDADE

julho 11, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica Project Design Management – https://projectdesignmanagement.com.br/blog/edtechs-solucao-e-oportunidade/

A tecnologia é a base das mudanças que vêm acontecendo na educação de modo global representadas pelo foco no processo de aprendizagem individualizada do aluno, respeitando suas diferenças neuro e psicológicas; pela significação dos conteúdos baseada na realidade geográfica e social do aluno; pela disponibilização ampla do acesso à educação de qualidade em qualquer lugar e em qualquer tempo (on-learning) e pelo aprendizado contínuo durante toda a vida (long life learning)…

Continue a ler em https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

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Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Inteligenciaartificial #IA #blogdosoler

 


O PROFESSOR ARTIFICIAL

julho 3, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica Project Design Management – https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

 

Em pleno debate sobre a Educação do século XXI, muito se especula sobre o papel do novo Professor e sua provável (??!!) substituição pela máquina dotada de Inteligência Artificial (IA). Em primeiro lugar, é importante frisar que perspectivas “catastróficas” nesse sentido ainda não encontram respaldo na tecnologia vigente e muita água ainda terá que rolar antes que um algoritmo aprendente, por melhor que tenha sido programada a sua evolução, consiga superar as singularidades humanas no papel de mediador de linguagens e oportunidades educativas…

 

CONTINUE A LER EM: https://projectdesignmanagement.com.br/?p=22721&preview=true

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Educação #Inovação #Edtechs #Inteligenciaartificial #IA #blogdosoler


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: AS EDTECHS E A REVOLUÇÃO EM CURSO NA EDUCAÇÃO

junho 27, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica MUNDOPM:

http://projectdesignmanagement.com.br/blog/edtech/

RESUMO: O movimento revolucionário de conquista da educação pela tecnologia já está em curso. A extensão, a rapidez e a profundidade dos benefícios potenciais da introdução das inovações tecnológicas na Educação possibilitam vislumbrar o futuro da própria educação que, certamente, vem pautado pela disposição de incríveis novos aparatos tecnológicos.

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#Educação #Inovação #Edtechs


INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO: AS DIMENSÕES DA INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO DO SEC XXI

junho 27, 2018

Post publicado na coluna de Alonso Soler na revista eletrônica MUNDOPM:

http://projectdesignmanagement.com.br/espaco-aberto/dimensoes-da-inovacao-na-educacao/

RESUMO: O debate sobre a nova educação e as inovações incrementais e disruptivas que estão e vão estimular a sua mudança está aberto. Tudo é potencialmente viável, tudo está por fazer, tudo pode ser visto sob a ótica controversa da relação benefício-custo e nada ainda é verdade. Entretanto, o segmento deve se colocar em marcha. Vale aqui a máxima de que “quem não muda, dança”.

 

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#Educação #Inovação #Edtechs