RECOLOCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DEPOIS DOS 50 ANOS

fevereiro 25, 2018

Recebo diariamente notícias e currículos de amigos que, involuntariamente, despertaram um dia na condição de desempregados. Profissionais do mais alto calibre com vasta experiência em obras, exímios técnicos, excelentes gestores e executivos. Gente que dedicou a vida, que entregou resultados e que fez história nas grandes construtoras. Gente que produziu conhecimento e que formou gente.

Entretanto, gente que na plenitude da vida produtiva, às vezes com filhos tardios à criar e certamente com contas à pagar, foi apartada do emprego, do cargo, do status e da (suposta) segurança financeira, e está tendo dificuldades para se recolocar. Independentemente de sua história de vida, gente que se sente relegada, desacreditada e rebaixada em sua auto-estima.

Gente incluída nas estatísticas!

Não é para menos, dados da Pesquisa PNAD Contínua do IBGE de janeiro de 2018, mostram que o setor da construção perdeu 6,2% da população ocupada em 2017 na comparação com 2016 e 12,3% desde 2014. Reforçando a estatística, o Sinduscon-SP informou que o número de pessoas empregadas na construção civil caiu 5% em 2017 contabilizando 125 mil vagas a menos em relação a 2016, apenas no estado de São Paulo.

Por que chegamos aqui?

As crises política e econômica que se arrastam desde 2014, agravadas pelas operações de combate à corrupção que desmontaram o modelo de negócios ilegal até então vigente, justificam a situação de declínio da atividade econômica do setor da construção que, diante dos novos desafios legais, regulatórios, tecnológicos, de gestão e de escassez de investimentos tenta agora se reinventar de maneira disruptiva.

Boa governança e inovação pautam as discussões estratégicas do setor de construção

Governança e inovação têm sido os alicerces da reformulação do setor da construção que já contabiliza transformações expressivas. Ao mesmo tempo em que se observa maior transparência e adequação legal (compliance) do negócio, promove-se impactos na melhoria da gestão das obras, associadas a resultados de redução de desperdícios, prazos e custos e com maior comprometimento social e ambiental.

Inovações tecnológicas e de gestão

Dentre tantas inovações tecnológicas e de gestão perceptíveis, destacam-se: a modelagem e a compatibilização dos projetos através do BIM; a fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); as estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; o uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; a automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis e sensores vestíveis inteligentes; o uso de aparatos inteligentes baseados na Internet das Coisas (IoT), na realidade aumentada e nos drones; a disseminação de aplicativos voltados à gestão de obras; a construção enxuta; a priorização dos processos; o controle do ritmo produtivo; a gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

O novo profissional da construção

Diante do novo que sustenta a transformação experimentada pelo setor da construção, configura-se o perfil necessário de um (igualmente) novo profissional: íntimo do uso e das potencialidades da tecnologia digital, intuitivo, pragmático, colaborativo, flexível em suas ideias, internacionalizado em sua networking e sensível às causas ambientais e sociais, aberto e disponível a aprender ininterruptamente.

O desafio da recolocação

Não se faz mais obra misturando areia, cimento e aço – aqui reside o grande desafio do profissional maduro que busca recolocação no mercado de trabalho diante das inovações tecnológicas e de gestão adotadas pelas empresas e pelo setor. Independentemente do peso de seu currículo, ele não pode se pautar exclusivamente em sua experiência pregressa e na networking que lhe restou para garantir o retorno ao emprego. Ele deve estar aberto a se reinventar, tanto quanto tem estado as construtoras e o mercado.

Ele deve estar disposto a aprender e reaprender tudo o que desconhece e que um dia pensou dominar. Obrigatoriamente, terá que mergulhar no mundo da tecnologia e da informática, lidar com sistemas e aplicativos de gestão e de automação, aprender a navegar pelo mundo virtual. Terá que reposicionar a sua networking, aproximando-se de novas lideranças presenciais e remotas, reconstruir as suas referências profissionais e agregar valor à nova teia e sinapses do conhecimentos (conteúdo e experiência não lhes faltam).

Entretanto, isso vai exigir que assuma um novo perfil de comportamento, mais curioso, aberto e humilde. Terá que interagir com os mais jovens e com o mundo virtual, perguntar o que desconhece, pedir e aceitar feedbacks, abster de suas certezas, ousar fazer diferente e aceitar o que se impõe como o novo. Terá que trabalhar de modo colaborativo e transmitir confiança e otimismo.

Terá que aceitar não dispor da autoridade do cargo, reportar-se a gente bem mais jovem, não ser chamado para opinar e, invariavelmente, terá que aceitar um salário menor do que o que estava acostumado a receber.

Enfim… não será fácil!

Mas, por outro lado, não é de todo impossível. A vantagem é prolongar a sua longevidade no mercado e alimentar-se da energia vital do contato com os mais jovens e de tudo o que é novo e que representa o futuro. Isso vai fortalecer a auto-estima e iluminar com novas cores a sua vida.

As alternativas profissionais, para quem não desejar se adaptar ao novo modelo, são empreender ou mudar de ramo. Mas creia, isso também não é fácil e também vai exigir uma adaptação profissional.

Diante da situação pergunto aos amigos maduros que me mandam currículo: o que você está esperando para religar a sua juventude e acender o interruptor de seu futuro profissional?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e do LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

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CARTAS À NATÁLIA

fevereiro 11, 2018

Natália é uma estudante do último ano de Administração da UNIFEI em Itajubá-MG que está às voltas com as preocupações da batalha pelo primeiro emprego. Li o seu texto “COISAS DE GENTE GRANDE” (https://www.linkedin.com/pulse/coisa-de-gente-grande-natalia-pereira-nunes/?published=t ) e convidei alguns amigos para lhe escrever pequenas cartas que fossem, além de tudo, extensíveis à todos os jovens que se encontram na mesma situação – dicas, comentários e conselhos em resposta às suas preocupações e ansiedades. Alavancado na notoriedade de meus amigos, dedico esse texto aos jovens e à infinita esperança no nosso país.

À NATÁLIA

DE: ANTONIO CESAR AMARU MAXIMIANO – PhD em Administração e Professor da USP

Prezada Natália,

Nem sempre o que um recrutador procura é o que vai ser importante na carreira e na vida. Habilidades sociais, entre elas a habilidade política e a inteligência emocional, são tão importantes quanto as habilidades técnicas. Nas faculdades, só se estudam as habilidades técnicas. Na verdade, apenas a convivência e a experiência ensinam as habilidades sociais, já que não há como “dar aulas” sobre elas…

Nem sempre o que os recrutadores dizem que é importante será de fato importante dentro da empresa. Muitas vezes eles falam em criatividade, capacidade de questionamento, arrojo e, uma vez lá dentro, a conformidade será privilegiada. Entrando, procure conhecer a cultura.

Preserve suas âncoras de carreira: talentos, interesses, competências, atitudes. Procurar se amoldar ao que o mercado quer viola esses atributos seus. Faça o contrário: procure o lugar onde você se encaixa melhor.

À NATÁLIA

DE: MÁRIO DONADIO – Sociólogo, Professor na Fundação Dom Cabral e na Pós Graduação do Mackenzie. Diretor da Uniconsultores

Cara Natália,

Um dia chegará em que você estará empregada. Parabéns! Será preciso então se manter no emprego. Só há duas regras: produzir resultados, entregar com qualidade, dentro do prazo, além do que é esperado e, integrar-se à cultura da empresa.

Enquanto você estiver “entregando” e tiver comportamentos adequados à cultura, estará empregada. Caminhar na carreira é desenvolver sua empregabilidade. Por que esperar que alguém lhe indique portas se você mesma pode encontrá-las; melhor do que isso, criá-las e você mesma abri-las?

Aja como se estivesse em busca de outro emprego. Não seja fiel à sua empresa, seja fiel à sua empregabilidade. Enriqueça seu currículo, faça cursos, desenvolva seu inglês, participe de congressos, se exponha no mercado, faça trabalhos voluntários dentro de sua área de conhecimento, escreva artigos, publique, divulgue… Considere cada emprego como o aprendizado para ter um emprego melhor, que lhe proporcione mais oportunidades de crescimento, melhor salário, melhor qualidade de vida.

À NATÁLIA

DE: GUY CLIQUET DO AMARAL FILHO – PhD em Comportamento Organizacional (Tulane University), Mestre em Mecatrônica (POLI-USP) e Coordenador Executivo da Pós Graduação Lato Sensu do INSPER

 À Natália (e a todos aqueles que estão juntos com ela)!

Duas ideias que podem ajudá-la a iniciar esta nova fase da vida:

A preocupação em acertar a escolha pela carreira profissional é sempre grande, durante toda a vida. Pensamos que acertar de primeira seja sucesso, aceitação social. No entanto, não se aborreça: qualquer opção que tome em sua carreira, sempre poderá mudá-la e nunca será tarde para fazê-lo. Pois o mundo e você mudam, sempre; e o futuro é grande suficiente para receber seus movimentos com braços abertos! A vida lhe aceitará melhor se for flexível e perspicaz o suficiente para acompanhar a evolução humana.

Qual a área melhor para você atuar? Marketing, Vendas, Pessoas, Finanças? Como vai se sentir em cada uma destas? Vale a pena consultar-se sobre como você se percebe em atuar em cada uma delas; acredita que sua habilidade verbal possa ser importante para Vendas? Ou que seu domínio em matemática seja decisivo para uma atuação no mercado financeiro? É importante que se imagine nestas situações para tomar sua decisão. Mas não se iluda; tomará gosto realmente pela sua escolha apenas após atuar por alguns anos, aprendendo as habilidades envolvidas e alcançando resultados com seu esforço. Sim, só terá satisfação quando alguns anos se passarem e perceber quanto aprendeu, podendo só agora realizar. Vai lembrar de alguns erros, e muitos acertos. E, por isto mesmo, sabendo do valor que foi atingir tal estágio, terá mais alegria depois destes anos de experiência do que quando iniciou. Poderá então dizer, de boca cheia: “Sou uma hábil negociadora!” ou “Sou uma maravilhosa gerente financeira”.

Por último, meu voto: tudo dará certo para você, pois mesmo naturalmente incerta quanto ao princípio, confia em sua determinação, inteligência e visão! Sucesso à você, Natália!

À NATÁLIA

DE: ALONSO MAZINI SOLER – Doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), Professor da Pós Graduação INSPER e Sócio da Schédio Engenharia Consultiva

Enfim Natália … segue agora uma palavra adicional na tentativa de tornar mais leve o fardo de suas ansiedades de “adulta”. Permita-me mudar o foco e questionar seus valores e suas expectativas. Será mesmo que são necessários um emprego e uma carreira para conseguir realizar seus sonhos? Será mesmo que comprar um apartamento e um carro representam os seus verdadeiros sonhos?

A mim, faria mais sentido você estar se perguntando: O que eu poderia estar fazendo produtivamente (como meio para a geração de renda) que me desperta paixão, que inquieta a minha mente, que me faz sorrir e acelera os batimentos do meu coração?  Será que o apartamento, o carro e a acumulação de alguns bens ilustram adequadamente o resultado do que eu espero do tempo de vida que eu dedico ao trabalho? Será que eu preciso mesmo de um emprego e uma carreira estáveis e progressivos para eu ser feliz?

Estou te sugerindo que inclua nas suas opções de concepção de futuro outras visões, mais atuais, como a de empreender, por exemplo. Criar o seu próprio trampo, ser seu próprio patrão (será que você vai aguentar?), mergulhar fundo numa jornada que te faz sentido pessoal e que valorize o seu tempo e energia vital, dar-se a chance de errar e acertar quantas vezes for necessário, compor a sua renda de subsistência e construir a sua vida a partir daquilo que te apaixona. Pode ser que isso não te leve a comprar o apartamento e o carro aos 28 anos, mas certamente lhe trará outros benefícios mais preciosos, basta trocar a lente dos óculos com que você enxerga a vida. Mude o foco e surpreenda-se. Tudo vai dar certo!