A TECNOLOGIA E O FIM DO EMPREGO

julho 16, 2018

Atualmente, a adoção de novas tecnologias no ambiente da produção e do trabalho tem sido associada às palavras mudança e disruptura, numa alusão à travessia ao novo, ao mais adaptado e ao melhor – a Indústria 4.0 veio para ficar. Nessa nova era, a tecnologia avança rapidamente sobre o emprego e devora postos de trabalho com apetite voraz.

Preocupação com o futuro do mercado de trabalho

Uma visão do que será o mercado de trabalho daqui a alguns anos assusta trabalhadores, sindicalistas, dirigentes públicos e entidades não governamentais, preocupados com o que será feito com hordas de pessoas sem emprego formal e, consequentemente, sem renda, no mundo. No Brasil, já se contam 13 milhões de desempregados, muitos deles não nativos e desatualizados tecnologicamente e, por isso, encontram dificuldades para retornar ao mercado de trabalho tal como o conheciam há tempos atrás.

A competição dos robôs por postos de trabalho

Alguns exemplos significativos, oriundos dos EUA, ilustram essa perspectiva: caminhões autônomos já cruzam o país, de costa a costa, experiência que ameaça o emprego de milhões de trabalhadores envolvidos com o transporte terrestre de pessoas e de cargas no mundo. O Porto de Los Angeles já opera integralmente sem a ajuda de Estivadores que, outrora, chegaram a somar mais de 16 mil empregados. A Amazon já opera todos os seus armazéns e centros de distribuição por meio de milhares de robôs programáveis, provocando a demissão de mais de 170 mil postos de trabalho nos últimos anos. A indústria automobilística já está quase que integralmente automatizada por robôs, assim como a FoxCom, fabricante do iPhone, que anunciou estar substituindo todos os seus funcionários humanos por robôs em suas fábricas na China. Ainda da China, percebe-se a substituição do homem pela máquina também no segmento da construção civil, através da adoção massiva de construções impressas, de fabricação e montagem de pré-moldados padronizados e com o uso de sensores automatizados em substituição a inspeções tradicionais.

Previsão apocalíptica

Numa visão estritamente econômica, o barateamento exponencial da tecnologia da informação e da robótica viabilizam a substituição da mão de obra humana operacional por robôs de controle automático, proporcionando a extinção de postos de trabalho e do emprego, criando uma visão catastrófica para o futuro do emprego e da humanidade.

Alguns dirão que essa previsão apocalíptica já foi experimentada antes, durante a revolução industrial, quando o artesão perdeu seu lugar para a máquina a vapor e para as linhas de produção, e que tudo se trata apenas de uma questão de ajuste e acomodação das habilidades do trabalhador às novas necessidades. Há ainda quem prefira considerar a situação sob a ótica do otimismo ingênuo, baseado na crença de que tudo se ajusta e se resolve naturalmente, devido a incapacidade de superação humana pela máquina – o ser humano não é, ainda, capaz de brincar de Deus e dotar a máquina de sua inteligência e humanidade.

Novas teorias sociais e econômicas

Extremismos a parte, o emprego, como fonte de geração de renda individual e de sustento familiar, nunca esteve tão ameaçado quanto tem sido atualmente, proporcionando campo fértil para a criação de novas teorias sociais e econômicas, incluindo aquelas que pressupõem o fim do trabalho humano braçal e operacional, abrigo de profissionais pouco qualificados, a prevalência do trabalho criativo de alta especialização e a remuneração assistencial da ocupação pelo ócio. Soluções que, apesar de oferecerem encaminhamentos adequados, tendem a gerar efeitos colaterais danosos, por exemplo, no que tange à discriminação entre os trabalhadores qualificados criativos e os ociosos mantidos pelo estado.

A demonização da tecnologia

De qualquer modo, a tecnologia não deveria ser demonizada por provocar ruídos na estabilidade do modelo vigente de emprego pois, por outro lado, dela advém novas possibilidades e perspectivas de trabalho diferentes e nem sequer imaginadas. O trabalho, a ocupação e as profissões serão outras, não comparáveis ao que experimentamos no passado e no presente. Sem mencionar ainda, as melhorias significativas, decorrentes de sua adoção e em favor do ser humano, aos problemas da fome, da saúde, da expectativa e da qualidade de vida, da segurança, etc.

Educação – o alicerce da edificação da nova sociedade

Apostando em uma perspectiva otimista, resta tecer considerações sobre um dos fatores que compõe o modelo geral de previsão do futuro do emprego – a Educação. Poderia ser ela o alicerce sobre o qual se edificaria uma nova sociedade e novos modelos sociais e econômicos que regulariam as relações evitando caos e catástrofe?

Trazendo a discussão para a realidade do Brasil, é notória a complexidade de se educar e se aculturar uma sociedade já tão defasada e desprovida de competência no assunto. Seria factível contar com essa Educação em extensão e prazo compatíveis aos “estragos” proporcionados ao emprego pela adoção das novas tecnologias? Uma sociedade que não conseguiu erradicar o analfabetismo e cujas estatísticas de analfabetismo funcional são alarmantes, seria capaz de reverter suas deficiências e se posicionar aceitavelmente na nova era da Indústria 4.0?

Se as respostas forem positivas, urge a ação prioritária de estender a educação aos brasileiros de modo massificado e disruptivo, com a mesma voracidade que vimos adentrar a tecnologia em nossas vidas. Só com educação sustentaremos a nossa sociedade.

Prioridade na pauta das discussões

Deve-se sim, priorizar as discussões sobre o futuro do emprego e sobre a educação mais adaptada à nova era, na pauta da sociedade, proporcionando a criação de políticas públicas afirmativas capazes de enfrentar o problema de forma ampla e eficaz. E que se faça uso da própria tecnologia em apoio à busca e ao encaminhamento dessas soluções.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

#Tecnologia #Trabalho #Emprego #Gestão #Blogdosoler

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“CODE IS LAW” – A POLÊMICA DO HOMEM DEMITIDO PELA MÁQUINA

julho 1, 2018

Esta semana foi marcada pela polêmica envolvendo a demissão injustificada de Ibrahim Diallo, um desenvolvedor de software de Los Angeles, CA. Por esquecimento, seu chefe não renovou o contrato no novo sistema da empresa, disparando assim, um processo automático e implacável de demissão à revelia da vontade de ambos (https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-44600350).

A polêmica

Três semanas após o ocorrido, Diallo foi reincorporado pela empresa que reconheceu os erros e a imprudência do sistema. Vitimado pelas circunstâncias, Diallo acusou a máquina de “desalmada” e de o tratar com “sede de sangue”, aproveitando a trama para lançar um alerta sobre os perigos da automação e da relação homem-máquina.

O sistema no banco dos réus

Não tardou até que a “máquina” fosse conduzida à condição de ré pelas redes sociais, propiciando debates acalorados em sua defesa e acusação.

Pelo lado da defesa, tecnólogos argumentam que a “máquina” apenas cumpriu aquilo que estava programado e que as falhas percebidas foram, de fato, falhas de origem humana, decorrentes do descumprimento de uma regra explícita do processo, o que levou o sistema a disparar, previsivelmente, uma sequência automática de atividades operacionais que culminaram no “gancho” de Diallo por 3 semanas em casa até que o “estrago” fosse corrigido: cancelamento do acesso ao prédio e ao restaurante, cancelamento de acesso aos sistemas corporativos, exclusão da matrícula da folha de pagamento, pagamento de direitos trabalhistas, encaminhamento legal da demissão, etc. – o custo do estrago foi grande!

Por outro lado, a acusação alega a frieza do encaminhamento dado pela “máquina” no trato de tema tão complexo quanto a demissão de um funcionário – pragmatismo mudo que não possibilitou a manifestação dos protagonistas, nem a consideração de alternativas intermediárias de curso de ação ou redundâncias, desafiando a essência humana da tomada de decisão.

Os defensores da “máquina” contra argumentaram discordando de sua culpa no ocorrido, alegando que a suposta falta de “humanidade” devesse ser atribuída ao designer dos processos da empresa que automatizou decisões e rotinas operacionais.

Os smartcontracts – “code is law”

Na verdade, no centro da história da demissão de Diallo reside a automação de um workflow simples que pode ser entendido como um smartcontract, códigos de computador programados para serem executados de modo independente e autônomo, capazes de automatizar rotinas burocráticas (ações e decisões) relativas a múltiplas partes, a partir de regras acordadas e informações geradas por sensores tecnológicos, sem a interferência subjetiva humana, potencializando rapidez, objetividade e confiança no cumprimento de condições pré-estabelecidas.

O princípio que garante a credibilidade dos smartcontracts é o “code is law”, ou seja, o algoritmo programado se constitui na regra, transparente e imutável, do que será, objetivamente, executado pela “máquina”. A observância do “code is law” nos sistemas de recursos humanos, em geral, pode ser vista como um avanço nas relações trabalhistas, tal como no caso mencionado, uma vez que impede preferências subjetivas, preconceitos e favorecimentos, e privilegia condições igualitárias de trabalho, independentemente da identificação do funcionário.

A singularidade já começou

Outra vertente do debate prefere se ater à adoção da Inteligência Artificial (IA) nos sistemas de gestão das empresas e nas perspectivas ficcionistas e catastróficas da extremização dessa prática. Diferentemente dos smartcontracts que obedecem de modo autônomo a um código programado, a IA consiste no processo de aprendizado e incorporação de informação pela “máquina”, através de capacidades cognitivas e analíticas programadas.

O matemático John von Neumann na década de 1950 já profetizava o fim da singularidade da raça humana quando confrontada com as mudanças aceleradas decorrentes do progresso tecnológico. Neumann foi seguido por outros pesquisadores e autores que, cada vez mais enfaticamente, profetizam o fim da era humana com o avanço tecnológico das superinteligências dos computadores – a teoria da singularidade tecnológica.

Com a palavra…

Uma das mentes mais brilhantes da nossa era, o astrofísico Stephen Hawking diz temer que as máquinas de inteligência artificial evoluam a ritmo muito superior ao dos humanos, e que isso pode levar, em última instância, à extinção da nossa espécie.

Grandes nomes atuais da tecnologia também engrossam o debate sobre profecias apocalípticas relacionadas à inteligência artificial. Elon Musk, CEO e fundador do Paypal, da SpaceX e de outras empresas de tecnologia de ponta, uma das maiores referências atuais quando o assunto é inovação disruptiva, afirmou sem rodeios que o avanço desenfreado da inteligência artificial “é um risco para a existência da nossa civilização” e “mais perigoso do que armas nucleares”.

Por outro lado, há quem acredite que essas visões extremamente pessimistas são irresponsáveis. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, é um exemplo. Ele defende que quem argumenta contra a tecnologia e a inteligência artificial está, de fato, argumentando contra carros mais seguros, contra melhores diagnósticos de doenças, contra a solução da fome no mundo, etc. A fala de Zuckerberg foi dirigida, especificamente, a Elon Musk que, alimentando a confrontação pessoal, se limitou a responder que o entendimento do CEO do Facebook sobre o assunto é … limitado.

A relação “homem-máquina”

Enfim, voltando à demissão de Ibrahim Diallo pela “máquina”, tendo sido realizada por um simples workflow automatizado, ou por um smartcontract alimentado por sensores automáticos e processado através de algoritmos aprendentes de inteligência artificial, o fato é que o hiato entre as perspectivas de benefícios e os riscos da inovação tecnológica é tênue e, cada vez mais, a relação “homem-máquina” será desafiada pela humanidade intrínseca do homem, … assim como, pela infinita capacidade de humanização que vem sendo dada, pelo homem, à máquina.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

Gabriel Diniz, Bacharel em Ciência da Computação pelas Faculdades Integradas de Caratinga, Gerente de Desenvolvimento de Sistemas na Rede Doctum de Ensino – gabriel.antn@gmail.com

#Inovação #Smartcontracts #Inteligenciaartificial #IA #Blogdosoler


‘RESKILLING’ PROFISSIONAL – UMA AGENDA NACIONAL

junho 3, 2018

O WEF – Fórum Econômico Mundial de Davos 2018, elencou o ‘reskilling’ (a reciclagem e a requalificação dos trabalhadores) como uma das prioridades mundiais no combate a ampliação das desigualdades econômicas e sociais mundiais.

Em fomento às discussões, o WEF, em colaboração com o Boston Consulting Group, publicou o relatório de pesquisa “Towards a Reskilling Revolution” (https://www.weforum.org/reports/towards-a-reskilling-revolution), no qual são expostos os desafios e propostas de solução ao problema da reciclagem e requalificação dos trabalhadores em transição de carreiras ameaçadas pela extinção de suas ocupações. O relatório é voltado ao trabalhador individual e às lideranças empresariais e governos que buscam priorizar suas ações e investimentos em desenvolvimento profissional, como forma de contribuir com a construção de empresas e economias mais prósperas, alicerces de sociedades mais produtivas e socialmente mais justas.

A ampliação das desigualdades

Segundo o relatório, as desigualdades de gênero, inter-regionais, geracionais e de renda correm o risco de serem ampliadas em nível mundial, e um dos fatores chave que impulsiona essas preocupações é a natureza volátil e incerta do trabalho demandado pelo mercado, decorrente das mudanças provocadas pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas – a 4a revolução industrial.

Um novo trabalhador e a urgência do ‘reskilling’

A imprevisibilidade da extensão e profundidade dessa disrupção tecnológica e socioeconômica provoca a fragmentação e a polarização do trabalho estável, significativo, adequadamente recompensador e alavancador da mobilidade social, favorecendo, por um lado, os que têm a sorte de viver em determinadas regiões geográficas e dispor de rápida apropriação de certas competências especializadas demandadas, oportuna e convenientemente, pelo mercado, e ameaçando, por outro lado, uma parcela significativa da força de trabalho que descobre, nítida e tardiamente, o descompasso entre seu atual conjunto de competências e as novas demandas de qualificação necessárias para realizar o seu trabalho. Segundo o relatório, a inserção da inteligência artificial, da robótica e de outros aparatos digitais na rotina do trabalho, requer a ampliação das competências humanas no trabalho, de modo que o sucesso do indivíduo na economia do futuro será decorrente de sua capacidade de complementar, sinergicamente, o trabalho eficiente realizado pelas tecnologias mecânicas ou algorítmicas – ele terá que “trabalhar com as máquinas”.

Por que investir no ´reskilling´?

À medida em que as competências demandas pelo mercado de trabalho mudam drasticamente e põem em risco o emprego, eclode a necessidade individual e premente do trabalhador de se engajar no processo de aprendizagem ao longo da vida (long fife learning) visando se manter ou se alavancar em carreiras necessárias, satisfatórias e recompensadoras.

Do mesmo modo, as empresas contratantes terão que investir estrategicamente, e cada vez mais, na formação, requalificação e aperfeiçoamento de seus Colaboradores de modo a suprir suas demandas específicas de trabalho decorrentes da apropriação tecnológica, além de contribuir social e responsavelmente para o futuro do trabalho.

O ´reskilling´do trabalhador é viável? Entretanto, do debate atual sobre o futuro do trabalho e da necessidade de reciclagem e requalificação profissional, emerge uma máxima que postula que “nem todo minerador de carvão recolocado poderá se tornar um engenheiro de software”. O relatório do WEF deixa de lado a retórica e se deita sobre a resposta à viabilidade prática das opções de transição de emprego, oferecendo trilhas alternativas de carreira para profissões atuais que se encontram em situação de risco de desaparecerem em futuro próximo. Mas deixa no ar a questão: seriam essas alternativas viáveis? Ou, as próprias alternativas profissionais elencadas, que conduziriam o trabalhador ao longo de trilhas da requalificação, também estariam sujeitas desaparecer, ameaçadas pelo mesmo processo tecnológico?

O ´reskilling´do trabalhador é desejável? Do mesmo modo, o relatório do WEF alerta que, mesmo dentro da gama de transições viáveis de carreira, pode haver algumas que, no entanto, não representam opções factíveis ou atraentes para os indivíduos que buscam mudar de emprego. Dois parâmetros acercam essas discussão: (a) a disposição – o trabalhador estaria disposto a reordenar a sua vida profissional, aventurando-se a reiniciar sua carreira numa área nova que não domina?; (b) a perspectiva da nova carreira de sustentar financeiramente (ou melhorar) o padrão de vida ao qual o trabalhador em posição de transição de emprego está acostumado a ter. De fato, a opção cruel que se vislumbra das discussões é a de que, ou o trabalhador ingressa e promove a sua transição de carreira, ou essa ficará à margem do novo ambiente profissional. Encontrar forças para recomeçar é a base dessa decisão!

Uma agenda nacional

No caso de governos e decisores políticos, a reciclagem e a requalificação da força de trabalho existente passam a fazer parte de agendas positivas e de políticas públicas, como alavancas essenciais para fomentar o crescimento econômico futuro e aumentar a resiliência da sociedade em face as mudanças tecnológicas que se vislumbram no horizonte.

Não será o seguro desemprego a peça fundamental para contornar o problema, remediando, à custo de impostos, a vida dos “marginalizados” pelo avanço tecnológico, segregando a força de trabalho nacional entre produtivos e os improdutivos e gerando mais desigualdades, mas sim, o ‘reskilling’ dessa força de trabalho, capaz de reinserir trabalhadores ativos no mercado em transformação. Certamente essa é uma das pautas mais importantes do debate público na atualizade, em âmbito mundial.

Em paralelo, vale ressaltar o compromisso das instituições educacionais, públicas ou privadas, com a pavimentação do caminho para a oferta de sistemas educacionais adequados, promotores da transição e indutores da reabsorção desta e da próxima geração de trabalhadores no mercado – obrigação das instituições públicas de investirem na extensão de ofertas de ensino médio e superior destinadas à reciclagem e requalificação, assim como, estratégia de negócios das instituições privadas que conseguirem se antecipar e enxergar oportunidades, no âmbito da educação corporativa, decorrentes do problema.

Como antecipar e gerenciar o ´reskilling´?A pergunta chave que o relatório do WEF se propõe a responder, em nome do trabalhador, do empresário e de governos, diante dessa situação de disrupção é: como antecipar e gerenciar proativamente os realinhamentos e transições do mercado de trabalho de modo a moldar um futuro que possibilite o crescimento econômico e as oportunidades para todos? Cabe aqui a recomendação da leitura atenta do relatório e da extensão da pesquisa do WEF como farol a iluminar a busca de soluções para mais esse grave problema.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


RECOLOCAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DEPOIS DOS 50 ANOS

fevereiro 25, 2018

Recebo diariamente notícias e currículos de amigos que, involuntariamente, despertaram um dia na condição de desempregados. Profissionais do mais alto calibre com vasta experiência em obras, exímios técnicos, excelentes gestores e executivos. Gente que dedicou a vida, que entregou resultados e que fez história nas grandes construtoras. Gente que produziu conhecimento e que formou gente.

Entretanto, gente que na plenitude da vida produtiva, às vezes com filhos tardios à criar e certamente com contas à pagar, foi apartada do emprego, do cargo, do status e da (suposta) segurança financeira, e está tendo dificuldades para se recolocar. Independentemente de sua história de vida, gente que se sente relegada, desacreditada e rebaixada em sua auto-estima.

Gente incluída nas estatísticas!

Não é para menos, dados da Pesquisa PNAD Contínua do IBGE de janeiro de 2018, mostram que o setor da construção perdeu 6,2% da população ocupada em 2017 na comparação com 2016 e 12,3% desde 2014. Reforçando a estatística, o Sinduscon-SP informou que o número de pessoas empregadas na construção civil caiu 5% em 2017 contabilizando 125 mil vagas a menos em relação a 2016, apenas no estado de São Paulo.

Por que chegamos aqui?

As crises política e econômica que se arrastam desde 2014, agravadas pelas operações de combate à corrupção que desmontaram o modelo de negócios ilegal até então vigente, justificam a situação de declínio da atividade econômica do setor da construção que, diante dos novos desafios legais, regulatórios, tecnológicos, de gestão e de escassez de investimentos tenta agora se reinventar de maneira disruptiva.

Boa governança e inovação pautam as discussões estratégicas do setor de construção

Governança e inovação têm sido os alicerces da reformulação do setor da construção que já contabiliza transformações expressivas. Ao mesmo tempo em que se observa maior transparência e adequação legal (compliance) do negócio, promove-se impactos na melhoria da gestão das obras, associadas a resultados de redução de desperdícios, prazos e custos e com maior comprometimento social e ambiental.

Inovações tecnológicas e de gestão

Dentre tantas inovações tecnológicas e de gestão perceptíveis, destacam-se: a modelagem e a compatibilização dos projetos através do BIM; a fabricação de elementos estruturais fora do canteiro de obras (modularização); as estruturas mistas de aço e concreto e a impressão de estruturas em 3D; o uso de materiais inovadores tais como o bioconcreto, o concreto translúcido, o concreto que brilha no escuro, a tinta que absorve energia solar, tijolos inteligentes e ecológicos; a automação dos canteiros de obras com dispositivos móveis e sensores vestíveis inteligentes; o uso de aparatos inteligentes baseados na Internet das Coisas (IoT), na realidade aumentada e nos drones; a disseminação de aplicativos voltados à gestão de obras; a construção enxuta; a priorização dos processos; o controle do ritmo produtivo; a gestão sustentável da água e dos resíduos sólidos, a logística reversa, etc.

O novo profissional da construção

Diante do novo que sustenta a transformação experimentada pelo setor da construção, configura-se o perfil necessário de um (igualmente) novo profissional: íntimo do uso e das potencialidades da tecnologia digital, intuitivo, pragmático, colaborativo, flexível em suas ideias, internacionalizado em sua networking e sensível às causas ambientais e sociais, aberto e disponível a aprender ininterruptamente.

O desafio da recolocação

Não se faz mais obra misturando areia, cimento e aço – aqui reside o grande desafio do profissional maduro que busca recolocação no mercado de trabalho diante das inovações tecnológicas e de gestão adotadas pelas empresas e pelo setor. Independentemente do peso de seu currículo, ele não pode se pautar exclusivamente em sua experiência pregressa e na networking que lhe restou para garantir o retorno ao emprego. Ele deve estar aberto a se reinventar, tanto quanto tem estado as construtoras e o mercado.

Ele deve estar disposto a aprender e reaprender tudo o que desconhece e que um dia pensou dominar. Obrigatoriamente, terá que mergulhar no mundo da tecnologia e da informática, lidar com sistemas e aplicativos de gestão e de automação, aprender a navegar pelo mundo virtual. Terá que reposicionar a sua networking, aproximando-se de novas lideranças presenciais e remotas, reconstruir as suas referências profissionais e agregar valor à nova teia e sinapses do conhecimentos (conteúdo e experiência não lhes faltam).

Entretanto, isso vai exigir que assuma um novo perfil de comportamento, mais curioso, aberto e humilde. Terá que interagir com os mais jovens e com o mundo virtual, perguntar o que desconhece, pedir e aceitar feedbacks, abster de suas certezas, ousar fazer diferente e aceitar o que se impõe como o novo. Terá que trabalhar de modo colaborativo e transmitir confiança e otimismo.

Terá que aceitar não dispor da autoridade do cargo, reportar-se a gente bem mais jovem, não ser chamado para opinar e, invariavelmente, terá que aceitar um salário menor do que o que estava acostumado a receber.

Enfim… não será fácil!

Mas, por outro lado, não é de todo impossível. A vantagem é prolongar a sua longevidade no mercado e alimentar-se da energia vital do contato com os mais jovens e de tudo o que é novo e que representa o futuro. Isso vai fortalecer a auto-estima e iluminar com novas cores a sua vida.

As alternativas profissionais, para quem não desejar se adaptar ao novo modelo, são empreender ou mudar de ramo. Mas creia, isso também não é fácil e também vai exigir uma adaptação profissional.

Diante da situação pergunto aos amigos maduros que me mandam currículo: o que você está esperando para religar a sua juventude e acender o interruptor de seu futuro profissional?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e do LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


CARTAS À NATÁLIA

fevereiro 11, 2018

Natália é uma estudante do último ano de Administração da UNIFEI em Itajubá-MG que está às voltas com as preocupações da batalha pelo primeiro emprego. Li o seu texto “COISAS DE GENTE GRANDE” (https://www.linkedin.com/pulse/coisa-de-gente-grande-natalia-pereira-nunes/?published=t ) e convidei alguns amigos para lhe escrever pequenas cartas que fossem, além de tudo, extensíveis à todos os jovens que se encontram na mesma situação – dicas, comentários e conselhos em resposta às suas preocupações e ansiedades. Alavancado na notoriedade de meus amigos, dedico esse texto aos jovens e à infinita esperança no nosso país.

À NATÁLIA

DE: ANTONIO CESAR AMARU MAXIMIANO – PhD em Administração e Professor da USP

Prezada Natália,

Nem sempre o que um recrutador procura é o que vai ser importante na carreira e na vida. Habilidades sociais, entre elas a habilidade política e a inteligência emocional, são tão importantes quanto as habilidades técnicas. Nas faculdades, só se estudam as habilidades técnicas. Na verdade, apenas a convivência e a experiência ensinam as habilidades sociais, já que não há como “dar aulas” sobre elas…

Nem sempre o que os recrutadores dizem que é importante será de fato importante dentro da empresa. Muitas vezes eles falam em criatividade, capacidade de questionamento, arrojo e, uma vez lá dentro, a conformidade será privilegiada. Entrando, procure conhecer a cultura.

Preserve suas âncoras de carreira: talentos, interesses, competências, atitudes. Procurar se amoldar ao que o mercado quer viola esses atributos seus. Faça o contrário: procure o lugar onde você se encaixa melhor.

À NATÁLIA

DE: MÁRIO DONADIO – Sociólogo, Professor na Fundação Dom Cabral e na Pós Graduação do Mackenzie. Diretor da Uniconsultores

Cara Natália,

Um dia chegará em que você estará empregada. Parabéns! Será preciso então se manter no emprego. Só há duas regras: produzir resultados, entregar com qualidade, dentro do prazo, além do que é esperado e, integrar-se à cultura da empresa.

Enquanto você estiver “entregando” e tiver comportamentos adequados à cultura, estará empregada. Caminhar na carreira é desenvolver sua empregabilidade. Por que esperar que alguém lhe indique portas se você mesma pode encontrá-las; melhor do que isso, criá-las e você mesma abri-las?

Aja como se estivesse em busca de outro emprego. Não seja fiel à sua empresa, seja fiel à sua empregabilidade. Enriqueça seu currículo, faça cursos, desenvolva seu inglês, participe de congressos, se exponha no mercado, faça trabalhos voluntários dentro de sua área de conhecimento, escreva artigos, publique, divulgue… Considere cada emprego como o aprendizado para ter um emprego melhor, que lhe proporcione mais oportunidades de crescimento, melhor salário, melhor qualidade de vida.

À NATÁLIA

DE: GUY CLIQUET DO AMARAL FILHO – PhD em Comportamento Organizacional (Tulane University), Mestre em Mecatrônica (POLI-USP) e Coordenador Executivo da Pós Graduação Lato Sensu do INSPER

 À Natália (e a todos aqueles que estão juntos com ela)!

Duas ideias que podem ajudá-la a iniciar esta nova fase da vida:

A preocupação em acertar a escolha pela carreira profissional é sempre grande, durante toda a vida. Pensamos que acertar de primeira seja sucesso, aceitação social. No entanto, não se aborreça: qualquer opção que tome em sua carreira, sempre poderá mudá-la e nunca será tarde para fazê-lo. Pois o mundo e você mudam, sempre; e o futuro é grande suficiente para receber seus movimentos com braços abertos! A vida lhe aceitará melhor se for flexível e perspicaz o suficiente para acompanhar a evolução humana.

Qual a área melhor para você atuar? Marketing, Vendas, Pessoas, Finanças? Como vai se sentir em cada uma destas? Vale a pena consultar-se sobre como você se percebe em atuar em cada uma delas; acredita que sua habilidade verbal possa ser importante para Vendas? Ou que seu domínio em matemática seja decisivo para uma atuação no mercado financeiro? É importante que se imagine nestas situações para tomar sua decisão. Mas não se iluda; tomará gosto realmente pela sua escolha apenas após atuar por alguns anos, aprendendo as habilidades envolvidas e alcançando resultados com seu esforço. Sim, só terá satisfação quando alguns anos se passarem e perceber quanto aprendeu, podendo só agora realizar. Vai lembrar de alguns erros, e muitos acertos. E, por isto mesmo, sabendo do valor que foi atingir tal estágio, terá mais alegria depois destes anos de experiência do que quando iniciou. Poderá então dizer, de boca cheia: “Sou uma hábil negociadora!” ou “Sou uma maravilhosa gerente financeira”.

Por último, meu voto: tudo dará certo para você, pois mesmo naturalmente incerta quanto ao princípio, confia em sua determinação, inteligência e visão! Sucesso à você, Natália!

À NATÁLIA

DE: ALONSO MAZINI SOLER – Doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), Professor da Pós Graduação INSPER e Sócio da Schédio Engenharia Consultiva

Enfim Natália … segue agora uma palavra adicional na tentativa de tornar mais leve o fardo de suas ansiedades de “adulta”. Permita-me mudar o foco e questionar seus valores e suas expectativas. Será mesmo que são necessários um emprego e uma carreira para conseguir realizar seus sonhos? Será mesmo que comprar um apartamento e um carro representam os seus verdadeiros sonhos?

A mim, faria mais sentido você estar se perguntando: O que eu poderia estar fazendo produtivamente (como meio para a geração de renda) que me desperta paixão, que inquieta a minha mente, que me faz sorrir e acelera os batimentos do meu coração?  Será que o apartamento, o carro e a acumulação de alguns bens ilustram adequadamente o resultado do que eu espero do tempo de vida que eu dedico ao trabalho? Será que eu preciso mesmo de um emprego e uma carreira estáveis e progressivos para eu ser feliz?

Estou te sugerindo que inclua nas suas opções de concepção de futuro outras visões, mais atuais, como a de empreender, por exemplo. Criar o seu próprio trampo, ser seu próprio patrão (será que você vai aguentar?), mergulhar fundo numa jornada que te faz sentido pessoal e que valorize o seu tempo e energia vital, dar-se a chance de errar e acertar quantas vezes for necessário, compor a sua renda de subsistência e construir a sua vida a partir daquilo que te apaixona. Pode ser que isso não te leve a comprar o apartamento e o carro aos 28 anos, mas certamente lhe trará outros benefícios mais preciosos, basta trocar a lente dos óculos com que você enxerga a vida. Mude o foco e surpreenda-se. Tudo vai dar certo!