O PROTAGONISMO E A AUTONOMIA DO ALUNO NAS ABORDAGENS ATIVAS DE ENSINO

outubro 14, 2018

Reconhecer que o aluno mudou devido ao seu ingresso no ambiente digital e que, consequentemente, mudou também o seu modo de aprender, é um dos grandes desafios do professor do ensino superior na atualidade, tanto quanto, o reconhecimento de que seus métodos tradicionais de ensino foram superados e que eles devem ser adaptados e evoluídos no sentido do atendimento das demandas desse (novo) aluno.

Desse modo, o (novo) professor necessita ampliar e diversificar o seu repertório de abordagens didáticas para que sejam mais ativas, no que se refere a fazerem mais sentido e estarem adaptadas ao contexto de vida, à forma e ao ritmo de aprendizado do seu aluno.

Metodologias ativas de ensino para a aprendizagem

Bacich e Moran (2018) mencionam que as “Metodologias Ativas possibilitam transformar aulas em experiências de aprendizagem mais vivas e significativas para os estudantes da cultura digital, cujas expectativas em relação ao ensino, à aprendizagem e ao próprio desenvolvimento e formação são diferentes do que expressavam as gerações anteriores”.

Novos papeis para o professor, aluno e a escola

Nas abordagens ativas, o aluno torna-se o protagonista principal e o maior responsável pelo seu processo individual de aprendizagem, enquanto o professor, passa a mediar esse processo, através da contextualização, curadoria e construção lógica do conteúdo. O objetivo principal das abordagens ativas é incentivar o aluno a desenvolver a sua capacidade individual de aprendizagem de maneira autônoma.

Assim, a adoção de abordagens ativas no processo de ensino-aprendizagem, pressupõe a mudança de papeis da tríade Professor-Aluno-Escola.

Os papeis do professor e a escola são mais previsíveis e relativamente controláveis

No que tange ao novo papel do professor, este tem sido bem discutido e parece já ter sido bem definido, ainda que esteja distante de estar sendo adotado. O professor interage diretamente e percebe com certa insegurança as mudanças aceleradas de dinâmica havidas na sala de aula, esforçando-se para se adaptar ao novo modelo, muitas vezes, sem dispor de material adequado ou de qualquer apoio ao seu desenvolvimento profissional.

Já o papel da escola nesse processo parece ser dúbio. Por um lado, reconhece que algo não vai bem na dinâmica de ensino e aprendizagem e, por isso, incentiva a proposição de algumas mudanças controláveis, por outro lado, se reconhece impedida de agir de modo mais inovador ou disruptivo por força das legislações que a afetam e dos processos regulatórios do ensino, além do custo operacional adicional proporcionado pela requalificação de seus colaboradores e do aparelhamento material digital de sua operação.

Bem ou mal, os ajustes nos papeis do professor e da escola tendem a residir num patamar previsível e relativamente controlável.

O papel do aluno é mais complexo e difícil

Entretanto, o novo papel do aluno parece ser mais complexo de ser entendido e de ser incorporado à nova dinâmica. Sem que tivesse demandado algo semelhante e sem registro em seu histórico de 20 anos (em média) frequentando uma escola, ao aluno foram atribuídas novas, e infinitamente maiores, responsabilidades relacionadas a sua presumida autonomia e protagonismo.

Deixar de ser um sujeito passivo no processo

Teoricamente, o aluno terá que dispor de seu papel passivo na relação de aprendizagem, deixando de, simplesmente, acompanhar o conteúdo exposto pelo professor por meio de aulas expositivas, melhores ou piores, e de se preocupar prioritariamente com as provas periódicas, culpando o professor e sua aula pelo mal desempenho.

Diferentemente de sua experiência histórica, a partir de então, o aluno será desafiado a percorrer caminhos desconhecidos e individualizados para a absorção do conteúdo fora e dentro da sala de aula – estará mais livre para aprender as matérias na extensão e na profundidade que desejar.

Obviamente, contará com a orientação e mediação do (novo) professor que, se bem integrado ao modelo, se ocupará de indicar as melhores fontes de consulta onde ele poderá se apropriar do melhor conteúdo de forma mais direta, dinâmica, provida de propósitos e compatível com seus aparatos digitais. Será recebido em sala de aula por um professor disposto a sanar as suas dúvidas, aprofundar o conteúdo e contextualizar a matéria.

Por outro lado, para que o processo aconteça de modo efetivo, o aluno precisará dispor de vontade e motivação próprias para se debruçar nas sugestões iniciais do professor e conseguir amealhar as suas dúvidas individuais, além de elaborar as suas produções individuais e coletivas, pois, sem elas, não conseguirá acompanhar a aula presencial do professor – terá que aprender a aprender, rapidamente, ou estará alijado do processo.

O preço da liberdade do aluno de aprender de modo individualizado e com significado é o exercício responsável de sua própria autonomia.

Desse modo, professores e escolas questionam se a mudança que eles terão que promover no processo de ensino-aprendizagem, em prol de uma educação inovadora, será acompanhada adequadamente pela mudança de comportamento do aluno. O aluno, que sempre foi passivo no processo, aceitará as novas responsabilidades decorrentes com seu protagonismo? Essas responsabilidades são realmente condizentes com sua maturidade neuro-hormonal? As propostas e abordagens ativas de ensino dos professores serão bem aceitas e acatadas, sob o risco de inviabilizarem o planejamento de aulas do professor e a condução da matéria? A decisão pela adoção de abordagens ativas poderá acarretar problemas de reclamações e evasão à escola? Etc.

O grande desafio. Que venha o novo!

O grande desafio que emerge é prever como o aluno se comportará diante da responsabilidade de seu protagonismo e autonomia no contexto da educação inovadora, e como o professor e a escola deverão se posicionar de modo a favorecer e facilitar essa mudança.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@ schedio.com.br

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