FUNDAMENTOS DO CAMINHO CRÍTICO

junho 26, 2017

Em 1957 a indústria química Norte-Americana DuPont possuía o computador mais potente da época, o Univac I que, entretanto, estava sendo pouco utilizado. Aproveitando a disponibilidade da máquina, os matemáticos Morgan Walker e James Kelly passaram a investigar a correlação tempo-custo dos projetos de construção das fábricas da empresa. Walker e James sabiam que acelerar todas as atividades de um projeto não era a maneira mais eficiente de obter prazos reduzidos ao término de cada obra. Eles perceberam então que a solução do problema residia na escolha das atividades “certas” para acelerar que impactassem, simultaneamente, na redução do prazo da obra sem incorrer em significativo aumento de custo. As atividades “certas” foram batizadas pelos matemáticos como “cadeia principal”, o que posteriormente, seria imortalizado como “Caminho Crítico” e que seria a base para o Critical Path Method (CPM) ou “Método do Caminho Crítico”.

 

Entende-se por “caminho” uma sequência qualquer de atividades de uma rede de precedências (termo adotado livremente neste texto como sinônimo de cronograma) que liga o início ao término do projeto. Por definição, “O Caminho Crítico é a sequência de atividades que representa o caminho mais longo de um projeto e que determina a menor duração possível de um projeto” (PMBOK 5a Edição, pag. 176).

 

As atividades que pertencem ao “Caminho Crítico” são chamadas de “Atividades Críticas” e devem ser concluídas no tempo planejado para que a conclusão do projeto não atrase o prazo total previsto.

 

Conhecer previamente este conjunto de atividades, permite que ações de gestão sejam dirigidas exatamente para elas. O “Caminho Crítico” indica as atividades que devem ser monitoradas com maior cuidado pois representam risco de não se concluir o cronograma previsto. Os atrasos nas atividades críticas são circunstâncias discretas que acontecem de forma cronológica e acumulam-se ao atraso geral da conclusão do projeto.

 

O Cálculo de um “Caminho Crítico” não é, entretanto, tão simples, quando se imagina que um cronograma de grande projeto pode, normalmente, chegar a ter milhares de atividades – o número de combinações possíveis de “caminhos” numa rede assim, impossibilita a análise visual. Desse modo, para se obter o “Caminho Crítico” de um cronograma com muitas atividades é necessário aplicar uma análise matemática através de um algoritmo computacional adequado – esse método é chamado de “Método do Caminho Crítico” e seu algoritmo é aceito internacionalmente e está programado na maior parte dos softwares de programação existentes. Por definição, o “Método do Caminho Crítico” (CPM – Critical Path Method) é “um método usado para estimar a duração mínima do projeto e determinar o grau de flexibilidade nos caminhos lógicos da rede dentro do modelo do cronograma” (PMBOK 5a Edição, pag. 176).

 

O cronograma CPM facilita a identificação de atividades críticas e não-críticas. Assim, pelo menos em teoria, o cronograma CPM dá ao Profissional de Planejamento a capacidade de determinar se a circunstância de atraso de uma atividade é capaz de atrasar todo o projeto, ou se apenas consome folga existente no cronograma, supondo que a flutuação não é especificamente propriedade de nenhuma das partes nos termos do contrato. Por esta razão, as avaliações de atraso, utilizando técnicas de programação CPM, são preferidas para a identificação e quantificação de atrasos no projeto.

 

Deve-se salientar que o “Caminho Crítico” é um instrumento dinâmico de planejamento e controle do projeto e como tal, sua utilização é realizada de forma prospectiva, do início para o final da rede de precedências, durante todo o tempo de execução do projeto, visando analisar e controlar preventivamente os atrasos.

 

No primeiro momento, durante a fase de planejamento do projeto, caberá ao Profissional de Planejamento, calcular o “Caminho Critico” a partir do cronograma executivo acordado do projeto (linha de base) e, a partir dele, analisar as precauções necessárias para que as atividades nele contidas não sofram atrasos – por exemplo, a mobilização de recursos adequados e em tempo compatível, a garantia de liberações de trabalho e áreas, e as interferências do trabalho dessas atividades com outros projetos ou atividades.

 

 

Por: Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia

Professor do Insper

 alonso.soler@schedio.com.br


A NECESSÁRIA RETOMADA DOS INVESTIMENTOS NO SETOR DE CONSTRUÇÃO

maio 29, 2017

Projetos de infraestrutura paralisados provocam o desaquecimento da economia, a manutenção de altos índices de desemprego e a perda de oportunidades ao país. Ninguém nega que urge o destravamento dos investimentos em projetos de construção, principalmente pelos bancos públicos de fomento, entretanto, a busca por uma solução adequada ao entrave deve passar, necessariamente, pela pauta da ética, da eficiência e da transparência.

Projetos em curso, congelados pelo impedimento das grandes construtoras nacionais, deveriam ser retomados após os devidos ajustes legais de leniência e seguidos de minucioso exame do sistema de governança e compliance adotado pelas empresas.

Sistemas de gestão rigorosos e transparentes deveriam regular a relação entre o contratante público e a construtora responsável pela obra, distanciando-as tanto quanto possível, através da adoção do preposto intermediário (gerenciadora de obras), esclarecendo as responsabilidades e riscos das partes e permitindo a atuação interveniente contínua dos órgãos oficiais de fiscalização, bem como das seguradoras.

Avaliações da situação de desempenho dos projetos paralisados, realizadas por entidades externas e isentas, deveriam esclarecer de modo transparente os problemas havidos e suas responsabilidades, sem deixar de apontar alternativas de soluções para a retomada, estendendo-se essa análise às considerações acerca dos membros chave da equipe de gestão da obra, qualidade dos projetos de engenharia e suas compatibilidades, interferências com empresas concessionárias, situação de licenciamentos e desapropriações, situação financeira e de disposição de recursos, estratégia de suprimentos e produção de equipamentos, contratos com terceiros, etc.  Do mesmo modo, novos projetos propostos deveriam passar por avaliações de seu grau de definição antes de se concretizar a adjudicação da construtora e do contrato.

Enfim, o país espera pela retomada dos investimentos no setor de construção, contudo, não admite que esta seja simplista e que repita os erros de um modelo histórico corrompido, mas sim, que venha sustentada consistentemente por um modelo de gestão mais ético, eficiente e transparente.

 

Por: Alonso Mazini Soler, D.ENG – Professor do Insper

 amsol@j2da.com.br


CRISE POLÍTICA E O MARTÍRIO DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO

maio 22, 2017

Ainda sob o efeito da ressaca do recente tsunami político que abalou o país com as delações da JBS, cabe fazer um rescaldo imediato e avaliar os impactos específicos provocados na atividade econômica da indústria da construção que representa, atualmente, o segundo maior setor econômico do país, logo atrás da agroindústria, com 16% do PIB e 3,5 milhões de empregos, ou 6% do total.

 

A crise política do país que se estende e agudiza, sem trégua, ao longo dos últimos anos, tem impactado significativamente os resultados desse segmento que se caracteriza, principalmente, por ser altamente dependente de grandes investimentos. Sem segurança institucional, principal efeito perceptível da crise política, sem perspectivas de crescimento econômico sustentável e sem a oferta de financiamentos adequados, elevam-se os riscos dos investidores e inviabilizam-se os projetos de construção, paralisando o segmento e impactando negativamente seus potenciais resultados econômicos e sociais.

 

Nesse contexto, a mais nova crise política divulgada, estopim de uma crise institucional sem paralelo na história do país, promove um desserviço significativo à retomada das grandes obras de infraestrutura e uma nova carga de desalento à massa de desempregados do setor da construção. Investidores privados, nacionais e internacionais, contabilizam seus riscos e se retraem ou transferem seus capitais para outros locais com maior previsibilidade e segurança de retorno. Instâncias da administração pública direta, não conseguem investir em obras devido ao estado caótico de suas contas que apontam para a insolvência generalizada. Estatais se retraem com receio de tornarem-se alvos de novos capítulos de operações criminais. Bancos privados deixam de ofertar crédito sem o aval de bancos públicos. Bancos de fomento se mantêm paralisados em suas operações de crédito para a construção, aguardando uma solução de governança que lhes permitam retomar as operações em conjunto com empreiteiras que se encontram expostas no centro da crise. Seguradoras não dispõem de obras para garantir, mas mesmo que as tivessem, devido aos riscos que representam, cobrariam prêmios incompatíveis com a viabilidade dos projetos.               

Enfim, enquanto não houver solução, ou um encaminhamento bem aceito pela sociedade, para a crise política e institucional do país, não haverá investimentos disponíveis e não haverá a retomada da indústria da construção, reverberando negativamente o seu martírio no conjunto da economia. Que se encontre uma solução para Brasília, rápida e contundente, para que o setor da construção volte a representar uma força econômica de sustentação do país. 

 

 

Por: Alonso Mazini Soler, D.ENG – Professor do Insper

 amsol@j2da.com.br


A VIABILIDADE DE OBRAS PÚBLICAS

maio 15, 2017

Reportagem veiculada pelo Jornal Bom Dia Brasil em 07 de Maio de 2017 denuncia o mal uso de recursos públicos através de obras acabadas de UPAS e Centros de Saúde que permanecem inoperantes devido a, supostamente, crise e falta de planejamento – “Um bilhão de reais aplicados e zero resultados” (https://globoplay.globo.com/v/5852960/programa/).

Um dos fundamentos que sustentam a autorização de um projeto de construção é o seu estudo de viabilidade técnica, econômica e financeira. Os estudos de viabilidade técnica proporcionam a definição da exequibilidade da obra e a consideração de alternativas de métodos construtivos mais adequados diante das condições geográficas, técnicas e humanas presentes. Já os estudos de viabilidade econômica e financeira visam a elaboração de estimativas da relação benefício/custo e dos riscos do investimento – ambos os estudos, dão racionalidade e transparência à decisão de se realizar (ou não) a obra.

O Prof. Harold Kerzner, um ícone do Gerenciamento de Projetos, afirma que “as organizações tendem a não autorizar projetos cujos benefícios não superem os seus custos” – o que parece óbvio numa perspectiva racional financeira. Mas conclui dizendo: “benefícios podem ser considerados em termos financeiros ou não financeiros”, o que reflete o carácter econômico de um projeto de construção que, principalmente nas obras públicas, tendem a produzir benefícios considerados intangíveis – aqueles que não podem ser, diretamente, estimados através do retorno monetário, mas sim, através de resultados que promovem ganhos e melhorias ao cidadão e à sociedade.

No exemplo mencionado acima, a decisão de construção de um Centro de Saúde público, deve ser avaliada sob a ótica da relação benefício/custo – isso implica na consideração do benefício intangível que essa obra proporcionará à comunidade após a sua entrega e início da operação, em comparação com a estimativa do valor do orçamento de custos aplicado na obra propriamente dita. Trata-se de uma decisão complexa nas mãos do executivo autorizador, pois estará comparando um benefício intangível, necessário e eticamente defensável, contra o fator tangível dos recursos monetários para realizar a obra. Um bilhão de reais aplicados pelo Ministério da Saúde na construção de Centros de Saúde devem ser comparados à melhoria proporcionadas ao atendimento médico e à saúde da população atendida.

Mas, nem só a relação benefício/custo da realização da obra deve ser considerada pelo estudo de viabilidade. Existe um outro fator tangível, monetário, que deve ser quantificado e priorizado na equação de autorização de uma obra. Trata-se da avaliação da viabilidade operacional do “bem” construído, após a sua entrega.

Voltando ao exemplo acima, o executivo autorizador do investimento – neste caso, o Ministério da Saúde – deveria ter se perguntado: O estado (ou o município) que receberá o Centro de Saúde, dispõe de recursos humanos qualificados para manter a sua operação? Qual é o custo dessa operação? Existe “espaço” no orçamento estadual/municipal para manter essa operação? As despesas de operação do novo Centro de Saúde estão sendo consideradas no planejamento orçamentário do estado/município agraciado com a obra? Esses números deveriam ter sido estimados e viabilizados, antes da autorização para o início da obra.

Enfim, faz parte do estudo de viabilidade técnica, econômica e financeira do projeto de construção a avaliação da viabilidade de sua operação. A desconsideração dessa informação obscurece e distorce a racionalidade da decisão de aprovação da obra, incorrendo em desmandos e afrontas ao bom uso do recurso público. Tal como levantado pela reportagem mencionada acima, de que adianta o investimento de 1 bilhão de reais se a população não está usufruindo dos benefícios das novas UPAS e Centros e Saúde? Esse caso se traduz, indiscutivelmente, pela desconsideração ao recurso público proporcionada pela falta de planejamento.

Por: Alonso Mazini Soler, D.ENG.

 amsol@j2da.com.br


PARALISIA GERAL. SEM OBRAS PÚBLICAS DE INFRAESTRUTURA, NÃO HÁ FUTURO!

maio 8, 2017

Os resultados da Operação Lava Jato, suas derivações e congêneres, que têm dado transparência ao maior escândalo de corrupção sistêmica do país, estão permitindo à Controladoria Geral da União (CGU) e ao Tribunal de Contas da União (TCU) a aplicação de sanções, através da declaração de inidoneidade, às maiores construtoras do país. Na prática, isso significa que tais empresas estão proibidas de firmar contratos com o Governo Federal para a realização de obras, ressalvando-se, os termos de mitigação de penalidades decorrentes dos acordos de leniência promovidos pelo Ministério Público Federal (MPF).

 

Se, por um lado, as sanções impostas às construtoras nacionais fortalecem a sensação da aplicação do direito e da legalidade, por outro, deixam consequências avassaladoras à economia.

 

Fragilizadas em suas finanças e em sua reputação nacional e internacional, sem a possibilidade de captar novos contratos e financiamentos públicos, as construtoras se vêm obrigadas a reduzir e adaptar o tamanho de sua operação, vender ativos, promover demissões em massa e a destruir o seu patrimônio intangível, fundamentado no acervo de conhecimentos técnicos e gerenciais de seu capital humano.

 

Por outro lado, o Governo Federal, reconhece que necessita retomar rapidamente as grandes obras de infraestrutura, sob o risco de, em não o fazendo, comprometer o crescimento econômico futuro do país, aprofundar os níveis alarmantes de desemprego (14 milhões de desempregados) e reduzir, ainda mais, a arrecadação de impostos gerados pela produção. Não parece viável, ainda, a abertura do mercado para construtoras estrangeiras, uma vez que reformas constitucionais complexas teriam que ser aprovadas pelo congresso para que estas pudessem se adaptar as nossas legislações trabalhistas, fiscal e contábil, geralmente arcaicas e improdutivas.

 

Outro player que merece atenção são os agentes financeiros. Inidôneas, as construtoras nacionais estão impedidas de dispor de financiamento público pelos agentes de fomento – por força de lei, o BNDES, por exemplo, não pode autorizar novos empréstimos à elas mesmo que disponha do capital e que vislumbre, nas grandes obras de infraestrutura, o perfeito alinhamento estratégico com a sua missão desenvolvimentista, geradora de empregos e redutora de desigualdades sociais e regionais. Já os financiamentos privados, geralmente usados como aporte inicial para as obras (empréstimos ponte), tornam-se inviáveis quando desvinculados da garantia de financiamentos de longo prazo do BNDES. Fato que se sustenta na insegurança jurídica do país, na taxa Selic que, ultimamente, gira em torno de 14% a.a. e no score de risco prejudicado da construtora, considerada inidônea, tomadora do empréstimo. A falta de aporte de capital de terceiros, encarece do custo do capital dos projetos das construtoras, inviabilizando as obras e paralisando a economia.

 

Vale a pena, ainda, mencionar as seguradoras, protagonistas do projeto de lei do seguro garantia (performace bonds) que as posiciona como corresponsáveis pela conclusão integral das obras em nome dos agentes públicos beneficiários do seguro. Sob sua ótica, o prêmio do seguro, solicitado por um tomador considerado inidôneo pelo Governo Federal tende a ser um inviabilizador da realização da obra.

 

Enfim, a ninguém interessa o encolhimento das grandes construtoras, a destruição da indústria da construção nacional, a interrupção dos repasses do BNDES ou a paralisia das obras de infraestrutura do país.  Assim como, a ninguém interessa a continuidade do modelo histórico viciado, revelado pela Operação Lava Jato. Portanto, resta a busca e a proposição de uma solução represente algo novo – um modelo de rápida aplicação, pautado na eficiência da realização das obras e na garantia de seu desempenho, na governança ética e robusta à atos de corrupção, no atendimento às leis (compliance) e na transparência. Quem se habilita a encaminhar essa discussão?

 

Por: Alonso Mazini Soler, D.ENG. – Pós Graduação, Insper

 alonso.soler@schedio.com.br