FELIZ NOVO ANO, BRASIL

fevereiro 18, 2018

À meia noite da primeira segunda feira da quaresma, o meridiano que adentrará o continente através da Ponta do Seixas/PB, no extremo leste do país, trará consigo o anúncio, de fato, do novo ano de 2018. Contrariando o calendário Gregoriano, o Brasil se acostumou a adotar o calendário paralelo de Momo, que estabelece um vácuo temporal e um apagão consentido de atitudes e decisões importantes, entre o marco oficial de 31 de dezembro e o término das festanças estendidas do carnaval.     

O novo ano que começa é uma incógnita que vem precedida de previsões pessimistas de ampliação do cinza e do frio. Quiçá, uma boa opção para o seu posicionamento na história seria “entrar mudo e sair calado”, atravessando o país e chegando em 31 de dezembro no extremo oposto, na nascente do Rio Moa/AC, o mais rapidamente possível, sem alardes ou lembranças de sua passagem. Afinal, 2018 é apenas uma ponte obrigatória para o país chegar em 2019 sob nova direção.

Ou, na melhor das hipóteses, o novo ano de 2018 poderia incorporar a energia vital de sua juventude e se rebelar contra os desígnios de sua propalada natureza triste, morna e choca, e desse modo, assumir uma personalidade positiva, enérgica e radiante, enfrentando com coragem e retidão os desafios que assombram a sua jornada de 10 meses entre a Paraíba e o Acre, deixando legados desejados ao futuro do país e carimbando o seu passaporte virtuoso para a história.

Nessa condição, sugiro à 2018, em forma de oração, desafiar abertamente algumas (supostas) utopias nacionais em voga: que ilumine a intervenção federal do Rio de Janeiro com as luzes da legalidade e da humanidade, e que aponte alternativas para a superação da violência e da criminalidade urbana em todo o país. Que nos permita dispor de escolhas de lideranças políticas capazes de unificar e pacificar o país nas eleições presidenciais. Que nos esclareça na eleição de um congresso novo e diferente, mais ético e comprometido com as causas e o bem-estar da sociedade. Que devolva a responsabilidade e a decência às instituições que compõem os Três Poderes da república. Que não permita a aprovação, de forma obscura e questionável, da exclusão de direitos sociais conquistados pela luta democrática. Que reaqueça o potencial econômico do país permitindo o alento dos jovens, devolvendo o trabalho e a autoestima aos desempregados. Que fomente a tolerância e o respeito aos extremismos de nossa sociedade polarizada, permitindo a concepção de um ideal de país que satisfaça necessidades e que minimize diferenças. Que nos permita acolher de forma humana a desgraça alheia dos refugiados Venezuelanos, Haitianos, Sírios, e todos os outros que foram marginalizados de sua cidadania por ditadores sem escrúpulos. Que puna exemplarmente todos os criminosos de colarinho branco, políticos, empresários e funcionários públicos, permitindo-nos voltar a acreditar na justiça dos homens.

Que 2018 reacenda a nossa esperança no país. Que assim seja. Amém!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e sócio da Schédio Engenharia Consultiva– alonso.soler@schedio.com.br

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CALIBRANDO O TERMÔMETRO PARA 2018

janeiro 2, 2018

Sou um professor. Lido diariamente com a juventude e adoro o que faço. Reconheço que a ela cabe forjar, e a ela pertence, o futuro – aliás, ela é o futuro! E isso se traduz em força e poder. Afinal, está nas mãos dos jovens “consertar os erros” das gerações passadas e fazer valer a sua própria perspectiva de acerto, justiça e sucesso. Entretanto, enfatizo que, infelizmente e em contrapartida, esse poder de mudar o mundo e forjar um futuro melhor consome parte de sua liberdade, uma vez que exige a responsabilidade da participação e do protagonismo, pesando sobre as suas costas o resultado futuro de suas decisões e atitudes atuais – e isso costuma gerar ansiedade, medo, e frequentemente, frustração.

Como professor e pai eu tenho estado aberto a dialogar e facilitar esse processo de transição e metamorfose da juventude: de casulo à borboleta, de atirador de pedra à vidraça, de demandante coletivo à decisor solitário. Este texto ilustra um diálogo com uma jovem que, como outros tantos, quer mudar o mundo.

Você é jovem Natália, você pode tudo!

O que percebo sobre mim mesma é que estou em formação, estou em busca de um caminho no qual possa obter as realizações que considero inspiradoras e desafiadoras. Considero-me jovem, porém, ao mesmo tempo sinto que tenho preocupações que me tornam, por vezes, mais séria do que seria necessário: preocupo-me com emprego que não tenho, com salário, com moradia, com um plano de saúde, com segurança, etc.

Mas essas são, provavelmente, as mesmas preocupações de seus pais, de seus avós, e dos pais de seus avós. Como expressar o novo nas suas prioridades?

Acredito que posso expressar o novo por meio de minhas inquietações, pois preocupo-me com as condições do ambiente em que vou viver. Preocupo-me se terei ar e água minimamente limpos para respirar e beber. Pergunto-me se algum dia poderei voltar a confiar que o poder público trabalhará em prol da minha comunidade, ou se o mesmo irá me proporcionar um pronto socorro onde poderei presenciar pessoas sendo atendidas de forma humana e sem longas horas de espera. Questiono-me se verei uma escola pública verdadeiramente voltada à educação de massa, cujos resultados se estendam além da motivação puramente política que esconde sua implementação precária e seu mau planejamento e funcionamento. Um Estado que se envergonhe de dizer que não sabe quando irá efetuar o pagamento de seus funcionários, como se isso fosse um mero favor passível de adiamento e parcelamento. 

Mas está em suas mão ajustar a direção das coisas. Essa energia reinvindicatória pode ser usada para promover mudanças.

Sinto essa necessidade de agir e de interagir ainda mais com o mundo a minha volta, entretanto, ao mesmo tempo vejo que são muitas as perguntas que faço a mim mesma. Talvez essa inquietação seja algo inerente da minha geração, entretanto, esta mesma força que me leva a questionar faz com que eu veja o presente sem o mesmo o brilho de quando eu era criança – quando tudo se resumia a um mar de possibilidades. Na realidade, quanto mais amadureço mais a vida se mostra dura e menos amável. Não me entenda mal, admiro a vida e o espectáculo de acordar e ter mais uma chance, contudo, sinto-me temerosa quanto ao que vejo e quanto a alguns retrocesso percebidos. Sinto que temos uma infinidade de caminhos para seguir, no entanto, algumas vezes, sinto como se a bússola que deveria me guiar para o futuro estivesse confusa, sem norte e prestes parar. Pressinto que estou entrando em um labirindo do qual não sei se conseguirei sair, pois reconheço o futuro que desejo, mas não sei ao certo se sei como construí-lo.

Mas você concorda que o mundo, hoje, é melhor do que o que foi no passado? E que o futuro será melhor que o presente? Temos mais acesso à tecnologia e à informação e isso nos liberta e nos une de modo global – nos torna mais conscientes e fortalece a nossa cidadania.

Sim, hoje as pessoas possuem um volume exorbitante de informação a sua disposição que pode ser compartilhada e utilizada de acordo com sua própria vontade e capricho. Mas, apesar de isso ser um importante avanço tecnológico e social ele propicia uma “falsa” liberdade de expressão que resulta em desrespeito para com o próximo – racismo, homofobia e violência, infelizmente, têm se tornado mais comuns e recorrentes atualmente.

  Todos tem muito a dizer, mas pouco a filtrar e a ouvir. Muitos se acham no direito de compartilhar ódio e preconceitos pelo simples fato de que as ferramentas de tecnologia estão ali dispostas, e que não se pode coibir essa tal “liberdade de expressão”. Esqueceram-se de que há limites entre uma opinião ponderada e a ofensa velada e que  todos, inclusive os estrangeiros residentes no país, tem certos direitos fundamentais que, não apenas garantem o direito a liberdade de expressão, mas como também o direito a resposta e a punição quando a tal “liberdade” causar dano moral, material ou prejuízo à imagem.

Acredito que o enorme volume de informação disponível pode confundir, alienar e proporcionar o desinteresse das pessoas para com a construção do seu futuro – um mal que cresce silenciosamente, enquanto se saúda o novo mundo da informação.

Teremos eleições no Brasil em 2018. A política responderá como um alento às nossas mazelas?

Todos dizem que devemos escolher um partido! E para isso, devemos olhar o histórico! Para mim, sinceramente, não existe escolha, eu não queria nenhum deles, não queria nenhum partido, pois ao meu ver todos eles me olham com desdém e se portam como se minha inteligência merecesse ser subjugada. Novamente, neste quesito, sinto-me perdida em um labirinto estranho, visto que quanto mais acompanho a política menos me encanto por ela. Onde estão os homens e as mulheres fortes, inteligentes, estrategistas e humanos que trabalhariam pelo desenvolvimento da minha nação? Onde estão os ideais que me orgulhariam? Para onde foram os debates fundamentados na experiência e não em discursos meramente demagogos e inflamados? Gostaria realmente de dizer que seremos capazes de mudar o mundo apenas com essa eleição, mas infelizmente o labirinto em que me encontro se comprime e me leva a pensar que talvez tenhamos um longo caminho pela frente.

Quais são suas expectativas para 2018?

É difícil dizer algo direto sobre minhas espectativas para 2018 pois, de um modo vago, espero apenas que as coisas melhorem em todos os aspectos. Quero um país que eu possa admirar e confiar. Mas acima de tudo quero um futuro onde as pessoas respeitem umas as outras, não porque devem, mas sim porque sentem a naturalidade deste ato.

Estou ciente de que meus desejos são vagos, porém, no final das contas desejo apenas ter mais certeza quanto ao futuro que teremos pela frente.

E qual a sua parcela de responsabilidade no alcance de suas próprias  expectativas? O que pretende fazer???

  Acredito nas pequenas ações que se multiplicam e contaminam, tornando-se grandes e transformadoras através de exemplos. Creio que quando hesito em jogar algo no chão meu exemplo é visto e replicado. Sinto que quando me nego a ser desonesta, mesmo em ações cotidianas, alguém também estará vendo e se fortalecendo por aquilo. Creio na força de um bom dia e na força de um olhar com bondade para a dor alheia. Acredito que quando me revolto com o que vejo e me posiciono para defender meu ponto de vista, novas ideias surgem e até mesmo as minhas prórpias ideias sofrem certa mutação, pois acredito que devemos construir sempre em conjunto, com pessoas que muitas vezes nem mesmo voltarei a encontrar.

Sei que preciso agir e escutar mais, estou ciente de que minha geração está acostumada a falar e permanecer sentada, quero aprender com o mundo e talvez, quem sabe, ser capaz de ensinar um pouquinho. Mas insisto, acredito no poder das ações diarias e aparentemente pequenas, acredito que devemos sim dialogar sobre tudo e deixar para traz o velho preconceito de que a paz só será mantida se não falarmos sobre polêmicas e controvérsias deste nosso mundo.

Por:

Natália Pereira Nunes, Estudante de Administração na UNIFEI – Itajubá/MG –  natalia_pn@yahoo.com.br

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br