RESKILLING’ DE PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO

junho 3, 2018

O WEF – Fórum Econômico Mundial de Davos 2018, em colaboração com o Boston Consulting Group publicaram o relatório “Towards a Reskilling Revolution” (https://www.weforum.org/reports/towards-a-reskilling-revolution) no qual são expostos os desafios do problema da reciclagem e requalificação dos trabalhadores diante das mudanças provocadas pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas – a 4a revolução industrial.

O conceito de ‘Job family’

O relatório do WEF foi dirigido para a situação do emprego nos EUA e incorpora a nomenclatura adotada pela rede de informação ocupacional (O*NET), desenvolvida sob o patrocínio do U.S. Department of Labor/Employment and Training Administration (USDOL/ETA).  Assim, os resultados do relatório foram classificados por “job families”, ou grupos de ocupações similares, baseadas na especificação do trabalho realizado e em seus requisitos de habilidades, nível de educação formal, treinamentos e certificações. Dentre estas, destacam-se as ‘job families’: (a) Architecture and Engineering; e (b) Construction and Extraction. Consulte a composição das ocupações das ‘job families’ em destaque pelo link: https://www.onetonline.org/find/family?f=17&g=Go

Otimismo com o crescimento de empregos

O primeiro resultado que chama a atenção no relatório diz respeito as projeções 2016-2026 feitas pelo US Bureau of Labor Statistics que, apesar do intenso debate acerca da interrupção de empregos nos mercados globais de trabalho nos próximos anos, preveem um resultado otimista de crescimento estrutural do emprego de 12,4 milhões de novos empregos contra um declínio de 1,4 milhão de empregos redundantes.  Em consonância com os resultados gerais do país, especificamente sobre as duas ‘job families’ mencionadas acima, a Tabela 1 aponta resultados igualmente otimistas com a geração de empregos.

Tabela 1: Situação das mudanças projetadas nos empregos nos EUA até 2026

Blog - tabela 1

Fonte: US Bureau of Labor Statistics (in: Towards a Reskilling Revolution:  A Future of Jobs for All – World Economic Forum, 2018)

Transições de carreira entre as ‘job families’

Na sequência, o relatório do WEF expõe os resultados da pesquisa realizada através de metodologia baseada em algoritmos de otimização cognitivos e big data em bancos de dados públicos e privados, nos quais observa-se a quantificação de potenciais transições de trabalho entre ‘job families’ apontadas como ‘good-fit’ para as duas ‘job families’ em destaque.

Tabela 2: Transições de trabalho viáveis ​​e desejáveis ​​entre as ‘job families’ até 2026

Blog - tabela 2

Fonte: Burning Glass Technologies and US Bureau of Labor Statistics (in: Towards a Reskilling Revolution:  A Future of Jobs for All – World Economic Forum, 2018) – Nota: Unidade = 1.000s de pessoas

Arquitetura e Engenharia em alta!

Chama a atenção não haverem sido relatadas transições adequadas (‘good-fit’) ocorridas a partir da ‘job family’ de Architecture and Engineering para outras ‘job families’. Considerando que a pesquisa da WEF se ateve apenas as transições de carreiras ditas viáveis (realizadas na direção de trabalhos com menor ameaça de extinção devido aos impactos da disrupção tecnológica) e desejáveis (sob o ponto de vista da disposição e da sustentação financeira proporcionada pela nova carreira), pode-se especular que as ocupações da ‘job family’ de Architecture and Engineering encontram-se em alta e em maior sintonia com as mudanças ditadas pelo trabalho que se vislumbra no futuro, não sendo adequado/conveniente migrar para outras ocupações mais afetadas pela disrupção tecnológica.

Deslocamentos para fora e para dentro da ‘job family’ de Construction and Extraction

Outro resultado interessante aponta para os deslocamentos relatados na ‘job family’ de Construction and Extraction. Por um lado, os resultados apontam para a migração de 1.2 milhões de trabalhadores das ocupações da construção para outras famílias de empregos, especificamente para as ‘job families’: (a) Architecture and Engineering; (b) Arts, Design, Entertainment, Sports and Media; (c) Installation, Maintenance and Repair; (d) Protective Service; (e) Transportation, além da migração entre ocupações dentro da propria família de Construction and Extraction. Por outro lado, a pesquisa revela que a ‘job family’ de Construction and Extraction deverá receber 324,1 milhões de trabalhadores provenientes de outras ‘job families’ ameaçadas pela disrupção tecnológica. Ou seja, a família de carreiras da construção é considerada alvo para a transição de carreiras de trabalhadores de outras áreas e tende a ser ‘invadida’ por profissionais que nela apostam para superar as perdas de emprego em suas ocupações originais.

É melhor ficar na área!

A pesquisa do WEF é útil para apontar a importância e a adequação das ocupações que compõem as famílias de empregos da Engenharia e Construção no processo de disrupção tecnológica provocado ao trabalho pela dita 4a revolução industrial. Em suma, a conclusão é a de que permanecer na carreira tende a ser menos arriscado do que se aventurar fora dela. Obviamente, considerando que permanecer na carreira implica em atualizações constantes e aprendizagem contínua.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

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‘RESKILLING’ PROFISSIONAL – UMA AGENDA NACIONAL

junho 3, 2018

O WEF – Fórum Econômico Mundial de Davos 2018, elencou o ‘reskilling’ (a reciclagem e a requalificação dos trabalhadores) como uma das prioridades mundiais no combate a ampliação das desigualdades econômicas e sociais mundiais.

Em fomento às discussões, o WEF, em colaboração com o Boston Consulting Group, publicou o relatório de pesquisa “Towards a Reskilling Revolution” (https://www.weforum.org/reports/towards-a-reskilling-revolution), no qual são expostos os desafios e propostas de solução ao problema da reciclagem e requalificação dos trabalhadores em transição de carreiras ameaçadas pela extinção de suas ocupações. O relatório é voltado ao trabalhador individual e às lideranças empresariais e governos que buscam priorizar suas ações e investimentos em desenvolvimento profissional, como forma de contribuir com a construção de empresas e economias mais prósperas, alicerces de sociedades mais produtivas e socialmente mais justas.

A ampliação das desigualdades

Segundo o relatório, as desigualdades de gênero, inter-regionais, geracionais e de renda correm o risco de serem ampliadas em nível mundial, e um dos fatores chave que impulsiona essas preocupações é a natureza volátil e incerta do trabalho demandado pelo mercado, decorrente das mudanças provocadas pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas – a 4a revolução industrial.

Um novo trabalhador e a urgência do ‘reskilling’

A imprevisibilidade da extensão e profundidade dessa disrupção tecnológica e socioeconômica provoca a fragmentação e a polarização do trabalho estável, significativo, adequadamente recompensador e alavancador da mobilidade social, favorecendo, por um lado, os que têm a sorte de viver em determinadas regiões geográficas e dispor de rápida apropriação de certas competências especializadas demandadas, oportuna e convenientemente, pelo mercado, e ameaçando, por outro lado, uma parcela significativa da força de trabalho que descobre, nítida e tardiamente, o descompasso entre seu atual conjunto de competências e as novas demandas de qualificação necessárias para realizar o seu trabalho. Segundo o relatório, a inserção da inteligência artificial, da robótica e de outros aparatos digitais na rotina do trabalho, requer a ampliação das competências humanas no trabalho, de modo que o sucesso do indivíduo na economia do futuro será decorrente de sua capacidade de complementar, sinergicamente, o trabalho eficiente realizado pelas tecnologias mecânicas ou algorítmicas – ele terá que “trabalhar com as máquinas”.

Por que investir no ´reskilling´?

À medida em que as competências demandas pelo mercado de trabalho mudam drasticamente e põem em risco o emprego, eclode a necessidade individual e premente do trabalhador de se engajar no processo de aprendizagem ao longo da vida (long fife learning) visando se manter ou se alavancar em carreiras necessárias, satisfatórias e recompensadoras.

Do mesmo modo, as empresas contratantes terão que investir estrategicamente, e cada vez mais, na formação, requalificação e aperfeiçoamento de seus Colaboradores de modo a suprir suas demandas específicas de trabalho decorrentes da apropriação tecnológica, além de contribuir social e responsavelmente para o futuro do trabalho.

O ´reskilling´do trabalhador é viável? Entretanto, do debate atual sobre o futuro do trabalho e da necessidade de reciclagem e requalificação profissional, emerge uma máxima que postula que “nem todo minerador de carvão recolocado poderá se tornar um engenheiro de software”. O relatório do WEF deixa de lado a retórica e se deita sobre a resposta à viabilidade prática das opções de transição de emprego, oferecendo trilhas alternativas de carreira para profissões atuais que se encontram em situação de risco de desaparecerem em futuro próximo. Mas deixa no ar a questão: seriam essas alternativas viáveis? Ou, as próprias alternativas profissionais elencadas, que conduziriam o trabalhador ao longo de trilhas da requalificação, também estariam sujeitas desaparecer, ameaçadas pelo mesmo processo tecnológico?

O ´reskilling´do trabalhador é desejável? Do mesmo modo, o relatório do WEF alerta que, mesmo dentro da gama de transições viáveis de carreira, pode haver algumas que, no entanto, não representam opções factíveis ou atraentes para os indivíduos que buscam mudar de emprego. Dois parâmetros acercam essas discussão: (a) a disposição – o trabalhador estaria disposto a reordenar a sua vida profissional, aventurando-se a reiniciar sua carreira numa área nova que não domina?; (b) a perspectiva da nova carreira de sustentar financeiramente (ou melhorar) o padrão de vida ao qual o trabalhador em posição de transição de emprego está acostumado a ter. De fato, a opção cruel que se vislumbra das discussões é a de que, ou o trabalhador ingressa e promove a sua transição de carreira, ou essa ficará à margem do novo ambiente profissional. Encontrar forças para recomeçar é a base dessa decisão!

Uma agenda nacional

No caso de governos e decisores políticos, a reciclagem e a requalificação da força de trabalho existente passam a fazer parte de agendas positivas e de políticas públicas, como alavancas essenciais para fomentar o crescimento econômico futuro e aumentar a resiliência da sociedade em face as mudanças tecnológicas que se vislumbram no horizonte.

Não será o seguro desemprego a peça fundamental para contornar o problema, remediando, à custo de impostos, a vida dos “marginalizados” pelo avanço tecnológico, segregando a força de trabalho nacional entre produtivos e os improdutivos e gerando mais desigualdades, mas sim, o ‘reskilling’ dessa força de trabalho, capaz de reinserir trabalhadores ativos no mercado em transformação. Certamente essa é uma das pautas mais importantes do debate público na atualizade, em âmbito mundial.

Em paralelo, vale ressaltar o compromisso das instituições educacionais, públicas ou privadas, com a pavimentação do caminho para a oferta de sistemas educacionais adequados, promotores da transição e indutores da reabsorção desta e da próxima geração de trabalhadores no mercado – obrigação das instituições públicas de investirem na extensão de ofertas de ensino médio e superior destinadas à reciclagem e requalificação, assim como, estratégia de negócios das instituições privadas que conseguirem se antecipar e enxergar oportunidades, no âmbito da educação corporativa, decorrentes do problema.

Como antecipar e gerenciar o ´reskilling´?A pergunta chave que o relatório do WEF se propõe a responder, em nome do trabalhador, do empresário e de governos, diante dessa situação de disrupção é: como antecipar e gerenciar proativamente os realinhamentos e transições do mercado de trabalho de modo a moldar um futuro que possibilite o crescimento econômico e as oportunidades para todos? Cabe aqui a recomendação da leitura atenta do relatório e da extensão da pesquisa do WEF como farol a iluminar a busca de soluções para mais esse grave problema.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br