BIM EM OBRAS PÚBLICAS

maio 20, 2018

O Diário Oficial da União de 18 de maio de 2018 traz a publicação do Decreto nº 9.377/2018 que institui a Estratégia Nacional de Disseminação do Building Information Modelling – Estratégia BIM BR, com a finalidade de promover o ambiente adequado ao investimento em BIM e sua difusão no país, assim como, encaminhar a operacionalização da exigibilidade gradual do BIM no âmbito do Governo Federal. O Decreto nº 9.377/2018 revoga decreto anterior de junho de 2017 que instituiu o Comitê Estratégico de Implementação do BIM (CE-BIM) e que alavancou a discussão e o encaminhamento da implantação da tecnologia nas obras públicas do país.

Objetivos da Estratégia BIM BR

O decreto define nove objetivos da Estratégia BIM BR, dentre os quais, vale destacar três deles: (1) a proposição de atos normativos que estabeleçam parâmetros para as compras e as contratações públicas com uso do BIM; (2) o desenvolvimento de normas técnicas, guias e protocolos específicos para adoção do BIM e (3) o desenvolvimento da Plataforma e da Biblioteca Nacional BIM.

Contratações públicas com uso do BIM

Quando o governo encampa a proposta de regulamentar a solicitação do uso de BIM nas compras e contratações de obras públicas, deve também reconhecer que uma das principais justificativas dos atuais problemas de atrasos e sobrecustos em obras públicas decorre da má qualidade de seus próprios projetos básicos que acompanham os editais de licitação. Desse modo, a tecnologia BIM, deveria ser adotada desde as fases de concepção e autorização da obra, prévias à licitação, potencializando a precisão e a compatibilização progressiva dos diversos níveis subsequentes dos projetos de engenharia. Ainda sobre a questão das contratações, há que se pensar na facilidade da produção de fatos e provas nos encaminhamentos de pleitos e litígios decorrentes de obras geridas de forma transparente através de modelos BIM.

Tecnologias associadas ao BIM

Ao prever o desenvolvimento de normas técnicas, guias e protocolos específicos para adoção do BIM, a Estratégia BIM BR deveria ainda considerar a incorporação de outras tecnologias associadas que, potencialmente, dariam maior sustentação às relações contratuais baseadas nos fundamentos do BIM. A adoção de Smart Contracts e de sensores inteligentes, sob a plataforma segura da Blockchain, por exemplo, facilitaria significativamente o monitoramento, o controle e a transação de elementos construtivos dos modelos BIM.

Biblioteca Nacional BIM

Por último, a Estratégia BIM BR menciona o desenvolvimento de uma plataforma e uma biblioteca nacional BIM, o que parece ser uma tentativa louvável, ainda que hercúlea e de alto custo, de dispor de elementos construtivos padronizados capazes de modelar a engenharia BIM de todo tipo de obra pública. Vale ressaltar iniciativas, relativamente similares, de elaboração de padrões de Composições Unitárias de Custos, tais como o SINAPI-CEF e SICRO-DNIT. Entretanto, vale ressaltar que o custo e o trabalho contínuo de desenvolvimento e disponibilização dessa biblioteca nacional BIM podem ser defendidos, simplesmente, pela relação econômica proporcionada pela eficiência proporcionada ao controle quando comparado aos montantes associados à corrupção em obras públicas.

Tecnologia recebida com alento

Enfim, o anúncio da Estratégia BIM BR e da criação de seu Comitê Gestor (CG-BIM BR) devem ser recebidos como alento à quem defende a eficiência, a lisura e a transparência das obras públicas nacionais decorrente de melhorias na governança e na gestão, adoção de tecnologias e inovação.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br

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BIM E A NOVA LEI DAS LICITAÇÕES – PROPOSTAS LEGISLATIVAS PARA A CONSTRUÇÃO

maio 20, 2018

As pautas, governamental e parlamentar das últimas semanas, têm sido curiosamente dinâmicas e interessantes à quem se interessa por avanços na legislação pertinente às obras públicas.

A Estratégia Nacional de Disseminação do BIM

O Diário Oficial da União de 18 de maio de 2018 traz a publicação do Decreto nº 9.377/2018 que institui a Estratégia Nacional de Disseminação do Building Information Modelling – Estratégia BIM BR, com a finalidade de promover o ambiente adequado ao investimento em BIM e sua difusão no país, assim como, encaminhar a operacionalização da exigibilidade gradual do BIM no âmbito do Governo Federal. O Decreto nº 9.377/2018 revoga decreto anterior de junho de 2017 que instituiu o Comitê Estratégico de Implementação do BIM (CE-BIM) e que alavancou a discussão e o encaminhamento da implantação da tecnologia nas obras públicas do país.

A nova Lei de Licitações

Concomitantemente, avançam as discussões no Congresso nacional sobre a proposta da nova Lei de Licitações (PLS 1292/95, 6814/17 e apensados). Espera-se que a Comissão Especial que analisa a proposta se reúna na próxima terça-feira (22/maio) para discutir e votar o parecer do relator. O texto da proposta que seguirá para votação ainda não foi divulgado, mas sobre ele pairam expectativas positivas de que contemple avanços decorrentes dos debates mobilizados pela sociedade: a criminalização do superfaturamento de compras públicas, a manutenção da contratação integrada e a implantação do Performance Bond que estende a responsabilização das seguradoras a 100% do valor do contratos, implicando na obrigação da fiscalização da execução das obras públicas e na realização de auditoria contábil nos contratos.

Otimismo decorrente da disposição de tecnologia

Perspectivas otimistas decorrentes dessas duas proposições emergem do debate sobre a disposição de tecnologias digitais BIM em prol da precisão e da compatibilização dos projetos de engenharia contratados, assim como da potencialização dos controles, da fiscalização e da eficiência e transparência na gestão das obras, respaldadas pela modernização e o aumento da segurança jurídica dos contratos.

Dúvidas sobre a natureza virtuosa das propostas

De fato, as obras públicas deveriam ser retomadas imediatamente, sob pena de comprometerem o futuro do país, entretanto, deveriam vir sustentadas sob diferentes alicerces legais, regulatórios, éticos e tecnológicos. O poder público deve fazer a sua parte, assim como as empresas privadas e o mercado da construção deveriam se reorganizar no contexto de uma nova governança efetiva, transparente, ética e confiável. A geração de emprego e renda agradecem. A sociedade ávida por um futuro melhor agradece.

Resta acompanhar os desdobramentos dessas duas novas proposições atentos à capacidade e vontade do atual governo de pautar, e do Congresso Nacional, de dar prosseguimento às discussões necessárias. Resta também avaliar a verdade sobre a natureza virtuosa das propostas mencionadas, considerando serem provenientes de governo e congresso envolvidos em acusações de desvios decorrentes, exatamente, das falhas legais que tais propostas visam corrigir e coibir.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


OBRAS PARALISADAS – UMA QUESTÃO DE PRIORIDADE NACIONAL

maio 13, 2018

Conjugado ao encanto histórico, cultural e natural de nossas cidades, ultimamente, a composição da paisagem urbana cotidiana passou a contemplar cenas contrastantes, sujas e degradadas, de canteiros de obras paralisadas, poluindo o visual, complicando a mobilidade urbana e facilitando a criminalidade.

Obras urbanas paralisadas são perversamente danosas para a sociedade

De sua existência emergem quatro consequências econômicas críticas:

(1) elas drenam o escasso orçamento público voltado à promoção de investimentos numa afronta ao conceito do Custo de Oportunidade; (2) elas não cumprem o uso social e a geração dos benefícios que justificaram a sua autorização; (3) elas promovem efeitos colaterais negativos e sistêmicos devido a aceitação da desordem e da ineficiência, tal como defendido pela Teoria da Janela Quebrada da Escola de Chicago e; (4) elas demandam despesas de custeio para a preservação do patrimônio inacabado, afetando a capacidade operacional dos orçamentos públicos.

Creches inacabadas inviabilizam as perspectivas de trabalho das mães, escolas inacabadas deixam crianças sem aulas, postos de saúde inacabados deixam a população sem atendimento, estradas e ruas não asfaltadas e pontes inacabadas distanciam pessoas e encarecem o escoamento da economia, estruturas inacabadas de distribuição de água potável, energia, internet e de escoamento de rejeitos, deixam o cidadão à mercê de sua sorte. Tudo isso junto colabora, num ciclo vicioso, para o empobrecimento potencial das esperanças de vida melhor, principalmente de comunidades carentes.

Por que as obras são paralisadas?

A falta de planejamento e gestão efetivos são as causas mais nítidas dessa situação indigesta encontrada na maior parte das cidades do país. Relatórios estatísticos dos órgãos de controle oficiais dão conta da magnitude do fato e indicam um mergulho no descaso – somadas, atualmente contabiliza-se mais de 20 mil obras paralisadas em todo o país, representando investimentos já realizados (e, provavelmente perdidos) da ordem de dezenas de bilhões de reais. A saber, ainda, que a (possível) retomada de uma obra paralisada não obedece a uma racionalidade simples, sequencial e complementar – os custos não ficarão restritos, apenas, ao orçamento original restante.

Cortes nas rúbricas de investimentos promovem a paralização de obras

De modo complementar e indireto, visto tratar-se ainda de uma decorrência da falta e da ineficiência da gestão de modo geral, a escassez de recursos para investimentos, justificada pela recente recessão econômica e pela queda da arrecadação de tributos tem sido apontada como a grande vilã causadora da paralização dessas obras – apenas em 2017, os estados cortaram quase 23 bilhões de reais em investimentos em comparação com o teto de 2014, uma vez que não dispõem de autonomia legal ou interesse político para fazer incisões em despesas fixas onerosas e (muitas vezes) ineficientes, tais como a folha de pagamento.

Uma lógica perversa

Essa lógica indica que tem sido politicamente preferível, e legalmente admissível, paralisar obras e conviver com esqueletos incômodos expostos, deixando escoar pelo ralo investimentos realizados, em lugar de promover ajustes de gestão que podem ser midiaticamente contrários a interesses eleitorais.

O problema dessa visão imediatista reside no fato de que sem investimentos não há perspectivas para o futuro. Cortando-se hoje investimentos em escolas, postos de saúde, estradas, pontes, saneamento, etc, aparam-se proporcionalmente o alento da recuperação e desenvolvimento da economia e da melhoria das condições de vida da população.

Na contramão dos fatos – o milagre das eleições

Contrariando o exposto acima, percebe-se um movimento periódico de inaugurações de obras que coincidem, no tempo, com os períodos eleitorais e de desincompatibilização de políticos candidatos. Curiosamente e contrariando o desempenho típico dos projetos, a execução de certas obras são aceleradas e, em decorrência, gastos adicionais são realizados, para propiciarem inaugurações midiáticas no apagar das luzes dos mandatos dos executivos de cargos públicos. Com espanto o país assistiu, no mês passado, uma série desmedida de inaugurações de obras que andavam a passos lentos ou que estavam paralisadas.

Uma proposta irônica de solução

Ironicamente, essa prática curiosa, se fosse levada ao extremo, resolveria os problemas das milhares de obras inacabadas pelo país afora, impactando positivamente os benefícios econômicos decorrentes da entrega dessas obras. A se estender essa prática, quem sabe, se o país estabelecesse reeleições anuais, provavelmente, todo ano haveriam obras sendo inauguradas e o estoque de obras inacabadas seria reduzido em prol de ganhos para a população.

O problema dessa proposta seria avaliar o nível de qualidade das obras entregues. Diferentemente do que aconteceu no mês passado deste ano, as obras teriam que ser atestadas formalmente como efetivamente acabadas antes de sua inauguração. Estados e municípios deveriam propor legislações efetivas que proibissem e punissem exemplarmente as inaugurações de obras inacabadas ou sem condições operacionais regulares, considerando o risco de se potencializar o problema econômico e social do estoque de obras inauguradas e inoperantes, tal como vimos acontecer este ano pelo país afora, em diversos casos, independentemente de geografia ou de identificação ideológica do político.

Uma questão política prioritária

Retomando a racionalidade, a questão das obras inacabadas deveria ser tratada como um problema político nacional prioritário (pauta para uma campanha ao Planalto e/ou ao Congresso), muito mais do que um problema pragmático de gestão. Deixar de investir, ou investir errado, prejudica definitivamente o futuro do país e esmorece as esperanças do povo.

A propósito, sim, existem soluções para o encaminhamento da questão…

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


PLANEJAMENTO ADAPTATIVO PARA INOVAÇÃO

maio 6, 2018

No exercício de planejamento estratégico, as organizações se deparam com a dialética entre realizar um planejamento estático e previsível ou um planejamento dinâmico, flexível e incremental. Essa controvérsia anima debates teóricos acalorados e polariza posições. Aparte dos dois extremos, o Planejamento Adaptativo tenta mediar essa discussão, buscando o equilíbrio entre as abordagens opostas, incorporando o aprendizado dinâmico, decorrente da própria execução do plano, na retroalimentação e adaptação contínuas do próprio plano, sem perder, contudo, o foco no objetivo final que se pretende alcançar. O plano torna-se uma peça flexível e menos importante do que o processo adaptativo de planejamento em si e a produção dos resultados desejados.

O que é planejar?

Planejar é antecipar o futuro visando induzir resultados desejados – de modo geral, trata-se de um exercício de futurologia que procura identificar e reconhecer, antecipadamente, as incertezas que atuam sobre um sistema e identificar (design) cursos de ação mais adequados visando potencializar o alcance de resultados. O sucesso de um planejamento tem sido historicamente avaliado por indicadores de assertividade que medem a robustez do plano aos descaminhos do confronto com a realidade.

O dilema do planejamento para a inovação

Entretanto, se em algum momento da história o futuro já foi relativamente previsível e o exercício do planejamento mais assertivo, atualmente, as “bolas de cristal” do mundo organizacional parecem ter se tornado, todas, aleatoriamente desreguladas e nebulosas. Ainda mais quando se estabelece o foco do planejamento organizacional na busca da diferenciação através da inovação. A questão chave nessa situação, e que gera ansiedade ao gestor/planejador, é responder à pergunta: como planejar de modo assertivo se não se conhece, ao certo e com total clareza, onde se quer chegar e como fazer para chegar?

Planejamento ágil

A melhor resposta atual para o dilema do planejamento emerge do conceito de agilidade. Nesse contexto, o adjetivo ágil não está, necessariamente, relacionado com o fato de se executar mais rápido, mas sim, com o fazer (processo) de modo flexível e adaptável, visando a produção de um resultado desejado, e não com a assertividade do plano original.

Planejamento ágil é um conceito recentemente incorporado pela Administração em resposta efetiva à necessidade de se planejar em ambiente VUCA – (V)olátil, (U)Incerto, (C)omplexo e (A)mbíguo – e, como tal, situa-se como a melhor recomendação atual para se planejar a introdução da inovação nas organizações.

A essência do planejamento ágil fundamenta-se nos seguintes valores: (1) A produção do resultado desejado é mais importante do que a formalização/documentação do que o compõe; (2) Responder às mudanças, adaptar e ajustar planos, a qualquer momento, importa mais do que a avaliação da assertividade do plano original; (3) A interação colaborativa e sinérgica entre os indivíduos interessados tem mais valor do que a hierarquia formal ou os processos rigorosamente estabelecidos – equipes autônomas; (4) Os demandantes dos resultados (clientes) participam ativamente do processo de realização do trabalho, colaborando no entendimento e no encaminhamento das mudanças dos cenários planejados e na tomada de decisões adaptativas.

Enfim, o planejamento ágil subverte a ordem estabelecida e normatizada do planejamento tradicional, previsível, estático e linear, e introduz a adaptabilidade dinâmica e contínua ao processo do planejar-decidir-agir. Uma forma revolucionária de trabalhar, intrinsecamente flexível e colaborativa, mas que, não abre mão de se manter firme na busca do propósito original de entrega do resultado desejado. Que fique registrado, a adoção do planejamento ágil não é sinônimo de comportamento anárquico, mas de comportamento revolucionário botton-up, de passos certeiros, ainda que curtos.

Uma metáfora do planejamento adaptativo ágil

Diferentemente do planejamento de um jogo de Xadrez ou de Damas, ou da construção de uma edificação capaz de superar intempéries (terremotos, enchentes ou assopros do lobo mau), que dispõem de um processo algorítmico conhecido, capaz de ser planejado previamente de modo tradicional ou programado por um computador, considere a lógica dos aplicativos de roteirização de trânsito tão comuns na nossa vida cotidiana (Waze ou Google Maps).

Num primeiro caso, imagine que você insere no aplicativo o endereço que deseja chegar (você sabe exatamente onde quer chegar, mas não sabe qual o melhor trajeto a fazer). O algoritmo do aplicativo planeja e te oferece a melhor rota-tempo considerando distância, tráfego e suas demais preferências – trata-se do planejamento original, da visão que devemos ter clara sobre o resultado que desejamos alcançar. Ao iniciar o movimento, algumas condições não previstas poderão ocorrer, por exemplo, uma interrupção de uma rua. Se você for obrigado a sair do caminho e entrar por uma rua alternativa, imediatamente o aplicativo recalculará a melhor rota e o novo tempo, e assim por diante, sem perder o foco no seu objetivo de chegar ao endereço final desejado. Ou seja, o planejamento incorpora o aprendizado e se adapta dependendo das condições. Seu interesse é chegar, e não o trajeto realizado.

Num segundo caso, imagine que você insere no aplicativo o desejo de encontrar um posto de gasolina mais próximo (você não sabe exatamente onde quer chegar, nem como, mas sabe o que precisa: reabastecer o carro!!!!). O algoritmo do aplicativo identificará um posto de gasolina mais próximo e traçará a melhor rota-tempo planejados. Novamente, se as condições do tráfego mudarem, será recalculada também a rota-tempo. Em algum momento, você chegará a um posto de gasolina, mesmo que não seja o posto identificado no planejamento inicial, e isso resolverá a sua questão principal de abastecimento do carro.

Planejamento adaptativo para a inovação

Agora, imagine o quão pertinente é esse tipo de planejamento adaptativo quando se deseja planejar para inovar. Quando se fala de antecipar o futuro, tudo está por fazer, tudo está aberto, não há dogmas aceitos nem se sabe ao certo como fazer. Não há como prever caminhos ótimos, nem saber prévia e exatamente o impacto ou o resultado de uma ação que se pretende realizar.

Vale aqui então a máxima de que agir é melhor que do ficar estagnado. Não o agir inconsequente, apaixonado e atabalhoado, mas o agir com discernimento adequado, o agir de modo aberto, sinérgico, participativo e colaborativo, levando em consideração as opiniões divergentes e mantendo em mente o sentido benéfico da sintonia com a visão de onde se deseja chegar.

Fazer diferente exige desprendimento e desapego – abrir mão de paradigmas considerados verdades absolutas por nossa própria experiência ou conhecimento. Expor-se a fazer diferente, no contexto do planejamento para a inovação, é ainda uma demonstração clara de comprometimento para com a sua organização e um ato de inteligência pessoal.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br


SOBRE TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO E INCLUSÃO – INSIGHTS SUPERFICIAIS

abril 24, 2018
  1. Me parece ingênuo tratar (ou pressupor) a tecnologia como uma panaceia capaz de acabar com as desigualdades e promover de modo definitivo a inclusão. O Ser Humano, suas configurações orgânica, psíquica e social, e sua trajetória histórica milenar (presente no DNA e comprovado pela epigenética) compõem um sistema muito mais complexo do que podemos conceber atualmente – quem sabe um dia, com a IA e o advento do grande irmão! (provavelmente já estarei na minha horta nesse dia, plantando taioba e ora-pro-nóbis).
  1. Negar o impacto da tecnologia na inclusão social é negar a história. Ilustro simploriamente indicando a energia elétrica acessível (… e suas consequências como a TV, o refrigerador, luz que permite enxergar e estudar a noite, etc.), o telefone, os meios de transporte, a vacinas e o pré-natal, a agricultura e a disponibilidade de alimentos abundantes, etc. Nem por isso eu desconsidero os impactos negativos da tecnologia, principalmente no que diz respeito à degradação do meio ambiente e das relações humanas.
  1. A tecnologia que estamos debatendo aqui neste fórum, a TIC, inegavelmente se apresenta e configura como um recurso simples, rápido e barato de democratização da informação a nível global. Atualmente, informação é poder nas mãos do cidadão. Essa exata tecnologia empoderou a sociedade e permitiu, por um lado, derrubar ditadores sanguinários durante a Primavera Árabe em 2010 (e não por ela, o desastre humanitário na Síria persiste até hoje) e, por outro, eleger lideranças sectárias e abomináveis, na eleição Norte Americana de 2016. O que me leva a pensar que não é a tecnologia, per si, mas sim as ideologias que fazem uso dela, que promovem a exclusão e a desigualdade.
  1. Por último, se eu pudesse apontar um único elemento capaz de promover a inclusão e a igualdade, a nível global, eu diria “de boa” aos meus alunos que esse elemento é a Educação – veja o meu texto de domingo e a minha “viagem” pelos pensadores da Educação (os que eu conheço, apenas). E, assim, se a tecnologia nos possibilitar estender o alcance e a qualidade dessa Educação em prol da boa causa da igualdade e da inclusão, eu a adotaria e a defenderia de modo apaixonado (como tenho feito aqui neste fórum).

Por último, tenho a dizer que adoro o debate, mesmo que eu me posicione na defesa, quase sempre, do contraditório da “vibe” filosófica aqui vigente – eu sou assim, vcs vão aprender a me conhecer, mas sou do bem! Ontem ficamos sabendo de mais uma investida dos “tubarões” sobre nossa região de atuação. Nosso debate aqui é rico e necessário, mas a minha premissa é a de que ele deve sair rapidamente do papel e ocupar coerentemente a nossa ação tática diária (nossa praxis), fundamentada, de modo perceptível, na nossa postura ética, no nosso discurso e nas nossas ofertas de Educação. Enquanto debatemos elucubrações filosóficas, eles agem, e todos nós perdemos.

A propósito dos excluídos virarem pó, recomendo a leitura de Noah Harari e seu best seller, Sapiens. Sem querer expressar a minha opinião, adianto que o autor pressupõe o nascimento de uma nova classe de pessoas, a dos inúteis, desempregados e não empregáveis. Vale a leitura do resumo em: https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2018/01/uma-nova-classe-de-pessoas-deve-surgir-ate-2050-dos-inuteis.html

 

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Rede de Ensino Doctum – amsol@j2da.com.br


AS EDTECHS E A REVOLUÇÃO EM CURSO NA EDUCAÇÃO

abril 22, 2018

No último dia 18 de Abril aconteceu em São Paulo o maior evento de inovação tecnológica aplicada à educação que já se teve notícia no país. O EDTECH 2018 STARTSE atraiu mais de 1200 Educadores dispostos a se despir de suas verdades filosóficas e dar ouvidos aos pitchs de jovens Tecnólogos, Engenheiros e Matemáticos que se revezaram no palco para apontar o futuro da educação e antecipar, de modo tácito, a educação do futuro.

Uma verdadeira orgia entre a filosofia e a prática que se mesclaram e se confundiram democraticamente em busca de sinergias que lhes pudessem conferir potência colaborativa – um encontro de tolerância e êxtase.

Namoro ou amizade?

Mas não se enganem sobre as justificativas apaixonadas do match perfeito e inusitado entre o Educador e o Tecnólogo. Por um lado, a porta da escola já caiu, a tecnologia invadiu a sala de aula e contagiou de modo viral o aluno. O Educador, sozinho, vê-se acuado e não encontra mais eco em suas referências basilares sobre como lidar com um aluno que dispõe de acesso integral à informação (todo tipo dela e em tempo real), ansioso pelo reconhecimento de sua individualidade, pela conquista de sua liberdade e por propósitos concretos para a sua vida. Um aluno que não aceita mais ser coadjuvante de sua vida e, em particular, de seu próprio processo e ritmo de aprendizado durante toda a vida (Lifelong Education).

O Tecnólogo, por sua vez, sabe que tem nas mãos a matéria prima fundamental (bits e bytes) que moldará o futuro, mas não dispõe da devida empatia com esse novo ser (aluno) complexo, desconhece suas conexões neurais e as características de sua psiquê e, por isso, não sabe ao certo a melhor forma de “engenheirar” a mecânica de seu processo de aprendizado. Precisa de ajuda de especialistas para materializar essa construção.

Uma relação de interesses e colaborações – ganha o casal que conseguir se doar mutuamente, aberto a flexibilizar e adaptar dogmas do passado e entender, de forma humanística, as potencialidades futuras de sua parceria simbiótica.

As EdTechs e o futuro

EdTech é o nome dado a empresas inovadoras de tecnologia (startups) dedicadas a oferecer soluções para problemas potenciais do segmento de Educação – produtos, aplicativos e ferramentas em apoio ao aprimoramento dos processos administrativos, estratégicos e pedagógicos das escolas. Por serem jovens e inovadoras, as EdTechs caracterizam-se por operarem sob condição crítica de incertezas, mas dispõem de potencial perceptível de repetitividade e escalabilidade, o que lhes confere a atratividade de investidores devido ao alto potencial de crescimento e ganhos.

São tamanhas as oportunidades que veem sendo abordadas e desenvolvidas no contexto da inovação tecnológica para a educação que chama a atenção uma frase de Thomas Frey, do DaVinciInstitute 2017 @ World EconomicForum que diz: “Eu projeto que em 2030 a maior empresa da internet será uma empresa de educação, e da qual nós nem ouvimos falar ainda.”

Algumas startups nacionais encheram os olhos dos participantes durante o evento EDTECH 2018, ao apresentar produtos em funcionamento usando realidade aumentada e virtual para a simulação de cirurgias médicas, robôs que substituem professores no ensino de programação, o uso de blockchain na acreditação profissional em substituição aos diplomas formais, vídeos instrucionais inteligentes que podem ser clicados e assistidos parcialmente de acordo com o interesse e o ritmo de aprendizado do aluno, sistemas que ajustam automaticamente textos acadêmicos ao formato da ABNT, plataformas específicas de MooC, Ambientes Virtuais de Aprendizagem, provedores de conteúdos digitais interativos, etc.

Tecnologia que democratiza a Educação

Inovações tecnológicas aplicadas à Educação possibilitam vislumbrar benefícios que viabilizam ideais democráticos e humanistas, potencializando a dignidade, as aspirações e as capacidades humanas gerais e individuais. Somente a tecnologia permitirá levar Educação de qualidade, significante, equivalente e de baixo custo a todos os lugares, a todos os indivíduos e a qualquer tempo (onipresença), proporcionando a inserção social e a superação das diferenças em nível global, impactando na efetividade da justiça e na paz – quem lida com Educação deve sempre semear sonhos, mesmo correndo o risco de ser rotulado de utópico!

Estivesse no evento EDTECH 2018 o Professor Paulo Freire, ficaria maravilhado com as possibilidades de aprendizagem e de autonomia dos educandos proporcionada pela tecnologia e seus potenciais impactos contra a exclusão e a opressão. Provavelmente participariam da mesma roda de discussão sobre a “tecnologia e a escola como um espaço de exercício da democracia e da cidadania” os professores Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e, por que não, John Dewey (provavelmente estaria usando os novos fones de tradução simultânea da Google – Pixel Buds).

Viajando além nessa possibilidade, certamente Pestalozzi se interessaria em entender como o uso de realidade aumentada e da “gameficação” impactaria nos sentimentos e estimularia o processo de aprendizagem autônoma da criança. Piaget e Freud certamente investiriam o tempo do coffee break em torno de jovens Tecnólogos, avaliando os impactos da tecnologia sobre o desenvolvimento humano na infância e na psicopedagogia.

Antonio Gramsci provavelmente estaria num canto do auditório tomando notas de tudo o que ali se passava e conjecturando sobre a tecnologia na escola como agente de mudanças sociais.

Enfim, a visão do futuro da educação mediada pela tecnologia não se contrapõe ou indispõe com o trabalho dos grandes pensadores. Pelo contrário, desde que exista abertura intelectual para tanto, as ideias dialogam e se potencializam.

Sim, eu te aceito! Mas…

O movimento revolucionário de conquista da educação pela tecnologia já está em curso. A extensão, a rapidez e a profundidade dos benefícios potenciais da introdução das inovações tecnológicas na Educação possibilitam vislumbrar o futuro da própria educação que, certamente, vem pautado pela disposição de incríveis novos aparatos tecnológicos.

Mas o futuro não reside apenas no amanhã. Ele já pode ser experimentado no hoje – e isso tem provocado medo e reação contrária! Medo do novo e de que a tecnologia possa sugar a essência da Educação, transformando-se, por si, no fim (para o bem ou para o mal) ao invés de se contentar em se manter apenas como um meio viabilizador tolerável.

Sim, o medo e a desconfiança são saudáveis, mas não devem ser empecilhos a ponto de provocar reações contrárias à tecnologia, negar a existência da precariedade e a disfunção da Educação atual, negar as soluções remediadoras e curativas proporcionadas pela tecnologia, ou mesmo, e por tudo isso, se posicionar de modo radicalmente contrário e deixar de participar do processo de fusão evolutiva entre ambas. O casamento entre o Educador e o Tecnólogo está apenas na lua de mel e a relação, supostamente conflituosa, exigirá uma adaptação baseada na vontade de dar certo, na flexibilidade, na compreensão, na paciência e na tolerância mutuas para que renda os bons frutos humanísticos desejados. Lá do céu, que os grandes pensadores da Educação nos mandem sabedoria e lucidez para adaptar seus legados diante da nova situação e que nos estimulem as esperanças quanto ao bom futuro da Educação.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Rede de Ensino Doctum – amsol@j2da.com.br


TREM DO AEROPORTO NÃO CHEGARÁ AOS PRINCIPAIS TERMINAIS DE PASSAGEIROS

abril 16, 2018

No último final de semana foi dada a largada para os testes operacionais da linha de trem que ligará o maior aeroporto do país (Guarulhos) ao centro da cidade de São Paulo. Raridade num país carente de transporte eficiente. Joia da coroa do partido político que se perpetua no poder estadual. Suposta alavanca para as eleições nacionais. Orgulho ufanista paulistano. Coisa de primeiro mundo!

Entretanto, oops! Parece que a história não é bem essa. Apesar do adiantado da obra, a estação final da nova linha 13-Jade da Companhia de Trens Metropolitanos está sendo construída relativamente distante do aeroporto. O trem vai chegar “quase lá”. Ele vai parar um pouquinho antes, há pouco mais de 3 kms dos Terminais 2 e 3, onde se concentra aproximadamente 90% do fluxo diário de passageiros. A dita estação final que compõe o conjunto da obra, foi construída relativamente próxima ao Terminal 1 do aeroporto (o famoso “puxadinho”) – aquele que abriga apenas uma das companhias aéreas significativas.

Não há causa técnica aparente que justifique a interrupção do trecho a uma distância relativamente próxima dos demais terminais, visto tratar-se da extensão em linha reta dos trilhos já construídos, sem bloqueios ou interferências aparentes – aliás, a linha de manobras do trecho já chega quase até o Terminal 2.

Então, depois de 14 anos de promessas e de obras tocadas a ritmo letárgico, pelo menos 2 atrasos significativos prometidos para a população (Copa do Mundo e Olimpíadas), 12 km de trilhos, 8 km de elevados, 2 transposições de rios e R$1,8 bilhão de investimentos, a obra não vai chegar aos principais terminais de passageiros do aeroporto, deixando mais de 120 mil pessoas, literalmente, com as malas nas mãos? Sim, os trilhos chegarão perto, mas isso não vai facilitar muito para quem embarca/desembarca de modo direto – sensação de incompletude comum das obras de infraestrutura públicas do país.

Governo e concessionária dizem que ainda resta construir um monotrilho moderno que ligará a estação final do “puxadinho” aos terminais de passageiros, obra que estaria a cargo da concessionária. Mas não há data prevista para que isso tenha início. Uhmmm!!! A contar pelo tempo que levou para se construir a linha principal, esse monotrilho deverá servir apenas à próxima geração de passageiros. Até lá, e supondo que a linha do trem realmente será entregue em 2018, passageiros de malas nas mãos, terão que se contentar com uma transferência feita através de uma linha de ônibus especialmente contratada para tal – uma linha dedicada que circulará entre os terminais e a estação final, dificultando a logística de acesso ao trem e estendendo o tempo do percurso.

Enfim, apesar do inegável benefício da disposição de uma linha de trem ligando o centro da cidade ao aeroporto internacional, algumas perguntas emergem dessa situação. Seria interessante saber se essa limitação de escopo já estava prevista no projeto original licitado ou se foi motivo de renegociação contratual. Em qualquer desses casos, é curioso suspeitar das justificativas técnicas para tal opção. Mas a pergunta do milhão e que não quer se calar é: Quais seriam os supostos benefícios-cidadão, ou os beneficiários, dessa opção de trajeto interrompido, no mínimo, questionável?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da Schédio Engenharia Consultiva – alonso.soler@schedio.com.br