FELIZ NOVO ANO, BRASIL

fevereiro 18, 2018

À meia noite da primeira segunda feira da quaresma, o meridiano que adentrará o continente através da Ponta do Seixas/PB, no extremo leste do país, trará consigo o anúncio, de fato, do novo ano de 2018. Contrariando o calendário Gregoriano, o Brasil se acostumou a adotar o calendário paralelo de Momo, que estabelece um vácuo temporal e um apagão consentido de atitudes e decisões importantes, entre o marco oficial de 31 de dezembro e o término das festanças estendidas do carnaval.     

O novo ano que começa é uma incógnita que vem precedida de previsões pessimistas de ampliação do cinza e do frio. Quiçá, uma boa opção para o seu posicionamento na história seria “entrar mudo e sair calado”, atravessando o país e chegando em 31 de dezembro no extremo oposto, na nascente do Rio Moa/AC, o mais rapidamente possível, sem alardes ou lembranças de sua passagem. Afinal, 2018 é apenas uma ponte obrigatória para o país chegar em 2019 sob nova direção.

Ou, na melhor das hipóteses, o novo ano de 2018 poderia incorporar a energia vital de sua juventude e se rebelar contra os desígnios de sua propalada natureza triste, morna e choca, e desse modo, assumir uma personalidade positiva, enérgica e radiante, enfrentando com coragem e retidão os desafios que assombram a sua jornada de 10 meses entre a Paraíba e o Acre, deixando legados desejados ao futuro do país e carimbando o seu passaporte virtuoso para a história.

Nessa condição, sugiro à 2018, em forma de oração, desafiar abertamente algumas (supostas) utopias nacionais em voga: que ilumine a intervenção federal do Rio de Janeiro com as luzes da legalidade e da humanidade, e que aponte alternativas para a superação da violência e da criminalidade urbana em todo o país. Que nos permita dispor de escolhas de lideranças políticas capazes de unificar e pacificar o país nas eleições presidenciais. Que nos esclareça na eleição de um congresso novo e diferente, mais ético e comprometido com as causas e o bem-estar da sociedade. Que devolva a responsabilidade e a decência às instituições que compõem os Três Poderes da república. Que não permita a aprovação, de forma obscura e questionável, da exclusão de direitos sociais conquistados pela luta democrática. Que reaqueça o potencial econômico do país permitindo o alento dos jovens, devolvendo o trabalho e a autoestima aos desempregados. Que fomente a tolerância e o respeito aos extremismos de nossa sociedade polarizada, permitindo a concepção de um ideal de país que satisfaça necessidades e que minimize diferenças. Que nos permita acolher de forma humana a desgraça alheia dos refugiados Venezuelanos, Haitianos, Sírios, e todos os outros que foram marginalizados de sua cidadania por ditadores sem escrúpulos. Que puna exemplarmente todos os criminosos de colarinho branco, políticos, empresários e funcionários públicos, permitindo-nos voltar a acreditar na justiça dos homens.

Que 2018 reacenda a nossa esperança no país. Que assim seja. Amém!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP, Professor da Pós Graduação do Insper e sócio da Schédio Engenharia Consultiva– alonso.soler@schedio.com.br

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CARTAS À NATÁLIA

fevereiro 11, 2018

Natália é uma estudante do último ano de Administração da UNIFEI em Itajubá-MG que está às voltas com as preocupações da batalha pelo primeiro emprego. Li o seu texto “COISAS DE GENTE GRANDE” (https://www.linkedin.com/pulse/coisa-de-gente-grande-natalia-pereira-nunes/?published=t ) e convidei alguns amigos para lhe escrever pequenas cartas que fossem, além de tudo, extensíveis à todos os jovens que se encontram na mesma situação – dicas, comentários e conselhos em resposta às suas preocupações e ansiedades. Alavancado na notoriedade de meus amigos, dedico esse texto aos jovens e à infinita esperança no nosso país.

À NATÁLIA

DE: ANTONIO CESAR AMARU MAXIMIANO – PhD em Administração e Professor da USP

Prezada Natália,

Nem sempre o que um recrutador procura é o que vai ser importante na carreira e na vida. Habilidades sociais, entre elas a habilidade política e a inteligência emocional, são tão importantes quanto as habilidades técnicas. Nas faculdades, só se estudam as habilidades técnicas. Na verdade, apenas a convivência e a experiência ensinam as habilidades sociais, já que não há como “dar aulas” sobre elas…

Nem sempre o que os recrutadores dizem que é importante será de fato importante dentro da empresa. Muitas vezes eles falam em criatividade, capacidade de questionamento, arrojo e, uma vez lá dentro, a conformidade será privilegiada. Entrando, procure conhecer a cultura.

Preserve suas âncoras de carreira: talentos, interesses, competências, atitudes. Procurar se amoldar ao que o mercado quer viola esses atributos seus. Faça o contrário: procure o lugar onde você se encaixa melhor.

À NATÁLIA

DE: MÁRIO DONADIO – Sociólogo, Professor na Fundação Dom Cabral e na Pós Graduação do Mackenzie. Diretor da Uniconsultores

Cara Natália,

Um dia chegará em que você estará empregada. Parabéns! Será preciso então se manter no emprego. Só há duas regras: produzir resultados, entregar com qualidade, dentro do prazo, além do que é esperado e, integrar-se à cultura da empresa.

Enquanto você estiver “entregando” e tiver comportamentos adequados à cultura, estará empregada. Caminhar na carreira é desenvolver sua empregabilidade. Por que esperar que alguém lhe indique portas se você mesma pode encontrá-las; melhor do que isso, criá-las e você mesma abri-las?

Aja como se estivesse em busca de outro emprego. Não seja fiel à sua empresa, seja fiel à sua empregabilidade. Enriqueça seu currículo, faça cursos, desenvolva seu inglês, participe de congressos, se exponha no mercado, faça trabalhos voluntários dentro de sua área de conhecimento, escreva artigos, publique, divulgue… Considere cada emprego como o aprendizado para ter um emprego melhor, que lhe proporcione mais oportunidades de crescimento, melhor salário, melhor qualidade de vida.

À NATÁLIA

DE: GUY CLIQUET DO AMARAL FILHO – PhD em Comportamento Organizacional (Tulane University), Mestre em Mecatrônica (POLI-USP) e Coordenador Executivo da Pós Graduação Lato Sensu do INSPER

 À Natália (e a todos aqueles que estão juntos com ela)!

Duas ideias que podem ajudá-la a iniciar esta nova fase da vida:

A preocupação em acertar a escolha pela carreira profissional é sempre grande, durante toda a vida. Pensamos que acertar de primeira seja sucesso, aceitação social. No entanto, não se aborreça: qualquer opção que tome em sua carreira, sempre poderá mudá-la e nunca será tarde para fazê-lo. Pois o mundo e você mudam, sempre; e o futuro é grande suficiente para receber seus movimentos com braços abertos! A vida lhe aceitará melhor se for flexível e perspicaz o suficiente para acompanhar a evolução humana.

Qual a área melhor para você atuar? Marketing, Vendas, Pessoas, Finanças? Como vai se sentir em cada uma destas? Vale a pena consultar-se sobre como você se percebe em atuar em cada uma delas; acredita que sua habilidade verbal possa ser importante para Vendas? Ou que seu domínio em matemática seja decisivo para uma atuação no mercado financeiro? É importante que se imagine nestas situações para tomar sua decisão. Mas não se iluda; tomará gosto realmente pela sua escolha apenas após atuar por alguns anos, aprendendo as habilidades envolvidas e alcançando resultados com seu esforço. Sim, só terá satisfação quando alguns anos se passarem e perceber quanto aprendeu, podendo só agora realizar. Vai lembrar de alguns erros, e muitos acertos. E, por isto mesmo, sabendo do valor que foi atingir tal estágio, terá mais alegria depois destes anos de experiência do que quando iniciou. Poderá então dizer, de boca cheia: “Sou uma hábil negociadora!” ou “Sou uma maravilhosa gerente financeira”.

Por último, meu voto: tudo dará certo para você, pois mesmo naturalmente incerta quanto ao princípio, confia em sua determinação, inteligência e visão! Sucesso à você, Natália!

À NATÁLIA

DE: ALONSO MAZINI SOLER – Doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), Professor da Pós Graduação INSPER e Sócio da Schédio Engenharia Consultiva

Enfim Natália … segue agora uma palavra adicional na tentativa de tornar mais leve o fardo de suas ansiedades de “adulta”. Permita-me mudar o foco e questionar seus valores e suas expectativas. Será mesmo que são necessários um emprego e uma carreira para conseguir realizar seus sonhos? Será mesmo que comprar um apartamento e um carro representam os seus verdadeiros sonhos?

A mim, faria mais sentido você estar se perguntando: O que eu poderia estar fazendo produtivamente (como meio para a geração de renda) que me desperta paixão, que inquieta a minha mente, que me faz sorrir e acelera os batimentos do meu coração?  Será que o apartamento, o carro e a acumulação de alguns bens ilustram adequadamente o resultado do que eu espero do tempo de vida que eu dedico ao trabalho? Será que eu preciso mesmo de um emprego e uma carreira estáveis e progressivos para eu ser feliz?

Estou te sugerindo que inclua nas suas opções de concepção de futuro outras visões, mais atuais, como a de empreender, por exemplo. Criar o seu próprio trampo, ser seu próprio patrão (será que você vai aguentar?), mergulhar fundo numa jornada que te faz sentido pessoal e que valorize o seu tempo e energia vital, dar-se a chance de errar e acertar quantas vezes for necessário, compor a sua renda de subsistência e construir a sua vida a partir daquilo que te apaixona. Pode ser que isso não te leve a comprar o apartamento e o carro aos 28 anos, mas certamente lhe trará outros benefícios mais preciosos, basta trocar a lente dos óculos com que você enxerga a vida. Mude o foco e surpreenda-se. Tudo vai dar certo!


TRANSPARÊNCIA E PREVENÇÃO DA CORRUPÇÃO

fevereiro 4, 2018

A ONG Transparência Internacional (TI) acaba de publicar o estudo “Transparência em Relatórios Corporativos – As 100 Maiores Empresas e os 10 Maiores Bancos Brasileiros” (http://transparenciacorporativa.org.br/trac2018/ ). O estudo, inédito no contexto exclusivamente nacional, se propõe a avaliar a situação das maiores corporações brasileiras em seus padrões de transparência e de prevenção à corrupção.

Sobre o estudo da Transparência Internacional

O relatório esclarece como as 100 maiores empresas brasileiras e os 10 maiores bancos (segundo o ranking Valor1000, do jornal “Valor Econômico”) divulgam informações sobre: suas práticas anticorrupção (PAC), sua estrutura organizacional e ramificações societárias (TO) e seus dados financeiros relativos à atuação em outros países (RPP) – três aspectos fundamentais da avaliação da transparência corporativa e indicativos basilares da boa governança corporativa e da mitigação do risco de corrupção. As empresas receberam notas de acordo com a extensão e a qualidade da divulgação desses itens e foram ranqueadas por dois índices: O Índice Geral considerou apenas as duas primeiras dimensões (PAC e TO) e foi aplicado às empresas que não têm operações no exterior. O Índice de Multinacionais Brasileiras, levou em conta os três critérios conjuntamente.

Destaques dos resultados

Como resultados gerais, o relatório aponta o desempenho ruim das empresas pesquisadas. O grupo que não têm operações no exterior, teve o Índice Geral calculado em 5,7 em uma escala de 0 a 10: PAC (65%) e TO (48%). Já o grupo de multinacionais teve resultado ainda pior. O Índice de Multinacionais Brasileiras foi calculado em 4,5: PAC (74%), TO (58%) e RPP (3%).

Observando atentamente os resultados gerais, pode-se verificar que a diferença entre os dois grupos de empresas (operações restritas ao Brasil e multinacionais) e o baixo desempenho dos índices de transparência das multinacionais estão diretamente relacionados à falta de divulgação de informações básicas sobre sua atuação fora do Brasil, o que dificulta o monitoramento da sociedade acerca do entendimento da estratégia de investimentos e atuação das empresas nacionais em países com propensão a práticas antiéticas.

O relatório completo do estudo apresenta os resultados individualizados de cada empresa pesquisada, permitindo a análise nominal da transparência de cada empresa, assim como, da aglutinação por setor econômico. Nesse quesito deve-se ressaltar os resultados positivos apresentados pela Neoenergia, concessionária de energia elétrica, e pela Votorantim Cimentos, do segmento de materiais de construção, que obtiveram a pontuação máxima (100%) nas duas primeiras dimensões analisadas (práticas anticorrupção – PAC e estrutura organizacional – TO) e encabeçaram o Índice Geral. Outro destaque positivo vai para os resultados do setor de energia que abriga quatro dentre as dez empresas mais bem colocadas no Índice Geral.

O setor de construção de infraestrutura está representado na pesquisa pelas empresas:

  • Odebrecht. Índice de Multinacionais = 5: PAC (100%), TO (50%) e RPP (0%),
  • Construtora Queiroz Galvão. Índice de Multinacionais = 4,5: PAC (85%), TO (50%) e RPP (0%) e
  • Construtora Andrade Gutierrez Índice de Multinacionais = 3,8: PAC (88%), TO (25%) e RPP (0%)

Percebam a nota zero dessas empresas multinacionais no quesito RPP que trata da divulgação de dados financeiros relativos à atuação em outros países, o que derruba o Índice consolidado, apesar dos resultados acima da média nos quesitos PAC (divulgação de práticas anticorrupção) e TO (divulgação de estrutura organizacional e ramificações societárias).

A transparência das empresas da Lava Jato

O relatório chama a atenção para os resultados acima da média obtidos por empresas emblemáticas investigadas e condenadas por escândalos de corrupção recentes, entre as quais destacam-se a Odebrecht (Índice Geral = 7,5), a JBS (Índice Geral = 8,1) e a Petrobras (Índice Geral = 8,4).

De relance esses resultados podem parecer incoerentes, mas a explicação passa pelo esforço recente e intensivo dessas empresas de promover mudanças internas capazes de abonar a retomada de sua credibilidade no mercado e de suas operações. Muitas dessas iniciativas resultaram das contrapartidas de compliance e transparência contempladas nos acordos de leniência pactuados com autoridades públicas que lhes garantiram o retorno à participação nas licitações públicas e financiamentos através de bancos públicos de fomento.

Cabe ainda mencionar avanços institucionais significativos que interferiram no modo de gestão dessas empresas, tais como a Lei Anticorrupção nº 12.846/2013, que prevê a responsabilização objetiva de empresas que praticam atos lesivos contra a administração pública nacional ou estrangeira, e o impacto categórico das operações Lava Jato e Zelotes, entre outras e suas ramificações, que levaram à prisão grandes empresários e políticos notórios envolvidos em casos de corrupção – fato que até então parecia utópico num país onde as práticas de corrupção era reconhecidas como endêmicas.

Mas a transparência e o compliance que vêm pautando as mudanças no modo de gestão dessas empresas e sustentando sua governança, e que estão espelhadas nos resultados da pesquisa, não decorrem apenas de fatores compulsórios legais. A participação das empresas no combate à corrupção tende a ser considerada ainda, uma obrigação corporativa ética respaldada por países e mercados em âmbito global, e defendida por instituições multilaterais, organizações e a sociedade civil. A nova ordem global tende a não mais admitir comprar ou fazer negócios com empresa envolvidas em escândalos econômicos, ambientais ou sociais. Para sobreviver, a empresa deve se adaptar. E as empresas sabem disso e estão tentando se reestruturar nesse contexto.

O legado dos escândalos

Apesar do retrocesso econômico e social vivenciado no Brasil e da consequente dor imposta aos milhões de desempregados, os escândalos de corrupção no país, estão deixando legados que podem ser vistos de modo positivo – o fortalecimento das instituições, a mensagem explícita da lei acima do poder e dos poderosos e o amadurecimento do modo gestão das empresas, baseado na governança corporativa e em seus pilares de sustentação. Legados que permitem projetar cenários otimistas para o futuro, sem os constantes percalços de novas crises provocadas pela gestão e relacionamento antiéticos de empresas públicas e privadas.

#NãoPodeFicarNoPapel

O relatório da Transparência Internacional menciona suas limitações – não se trata da disposição ética (ou não) das empresas pesquisadas, mas apenas da publicação transparente de informações relevantes acerca de seus programas anticorrupção, o que por sí só, já é um passo fundamental que permite o monitoramento atento da sociedade acerca do comportamento ético das empresas.

Mas não basta publicar as informações de modo transparente. O relatório conclui enumerando iniciativas de encaminhamento para que as empresas evoluam rapidamente em sua disposição anticorrupção. Vale a pena conferir. Não pode ficar apenas no papel!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


2018 AINDA É UMA INCÓGNITA PARA O SETOR DA CONSTRUÇÃO

janeiro 28, 2018

Melhora a confiança do empresário do setor de construção

A Sondagem da Construção é uma pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE) que permite o monitoramento e a antecipação de tendências econômicas para o setor. O Índice de Confiança da Construção (ICST) é o indicador-síntese dessa pesquisa e é composto por quesitos que conjugam a situação atual dos negócios e as expectativas dos empresários sobre a demanda futura. Na semana passada (26/janeiro) foi divulgado o resultado de janeiro de 2018 do ICST que subiu 1,5 pontos diante do mês anterior, e atingiu o melhor resultado (82,6 pontos) desde de janeiro de 2015 (85,4 pontos).

Melhora a perspectiva de retomada do emprego

A confiança dos empresários do setor da construção, apontada pelo indicador, sinaliza a retomada da atividade nos meses anteriores e a percepção de otimismo em relação ao futuro, o que, certamente, impacta positivamente o nível de recuperação do emprego no setor, que terminou 2017 com um déficit de 103,9 mil vagas. Ainda sobre o quesito emprego, a pesquisa divulgou que passou de 26,2%, em dezembro, para 18,8%, em janeiro, a proporção de empresas informando a diminuição do quadro de pessoal, um sinal evidente de alento para o trabalhador do setor.

Mercado: Bolsa em queda e dólar em baixa

Ainda na semana passada, a perspectiva de otimismo do setor da construção alimentou-se também da reação positiva do mercado ao anúncio da condenação do ex-presidente Lula pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e a sua possível impugnação ao pleito presidencial de 2018. Desde então, a bolsa de valores vem operando em alta, atingindo o patamar histórico de 85.000 pontos e o dólar vem sendo comercializado a preço estável com tendência de queda, sinalizando a clara posição do mercado contrário às perspectivas estatizantes e antirreformas defendidas pelo ex-presidente e seu partido e apostando na retomada do crescimento econômico com Lula fora do páreo.

A volatilidade do ânimo  

Obviamente o otimismo dos empresários do setor de construção, assim como o comportamento da bolsa e do câmbio são caracterizados pela subjetividade e pelo imediatismo, e estão sujeitas a extrema volatilidade. Complementarmente, ainda que sejam variáveis significativas do modelo, não serão apenas as apostas otimistas do mercado a alavancar a economia e a retomada de seu curso virtuoso. Tudo pode mudar ao sabor das repercussões de curto prazo dos próximos lances da política e seus reflexos na confiança dos investidores e nos demais fundamentos da economia. Tal como na metáfora das paixões de carnaval, tudo pode acabar na quarta-feira.

2018. Desalento ou boas novas? 

Por essas e outras, o ano de 2018 ainda é, definitivamente, uma grande incógnita para o setor da construção. Considerando que algumas lideranças políticas andam defendendo a desobediência civil generalizada e a ruptura com os padrões democráticos e institucionais, ainda no 1º trimestre o ano de 2018 poderá ser declarado natimorto, derrubando o ânimo do mercado e do setor, para desespero do trabalhador desempregado ou, por outro lado, quiçá, poderá recuperar os seus sinais vitais e revelar-se promissor à gradual recuperação do setor de forma sistêmica e sustentável. A estrutura republicana nacional e a responsabilidade (ou falta dela) de representantes e instituições serão o fiel dessa balança a precipitar o desalento ou a declarar as boas novas sobre o ano recém iniciado.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


O BRASIL BARATO

janeiro 22, 2018

Já consta do sistema eletrônico do Planalto, aguardando a aprovação do presidente Temer a regulamentação da Lei nº 13.448 de Junho de 2017 que estabelece diretrizes para a relicitação dos contratos de concessão nos setores rodoviário, ferroviário e aeroportuário e que fazem parte do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) da Administração pública federal. A notícia, aguardada com ansiedade pelo mercado, permitirá aos atuais concessionários oficializar a “devolução” de projetos de infraestrutura que se mostraram inviáveis financeiramente e se transformaram em verdadeiros “micos” devido à frustração dos cenários e perspectivas econômicas otimistas nos últimos anos.

Relicitação de concessões

Nos termos da Lei, a relicitação compreende a extinção amigável do contrato de parceria e a celebração de um novo ajuste negocial para o empreendimento.

Na cesta dos projetos que aguardam a autorização para dar prosseguimento ao trâmite de devolução e relicitação encontram-se a concessão do Aeroporto de Viracopos em Campinas, SP (Aeroportos Brasil Viracopos) e alguns trechos das rodovias BR-153 (Galvão Engenharia), BR-040 (Via 040 – Invepar), BR-163 (Rota do Oeste – Odebrecht Transporte), BR-050 (MGO Rodovias) e BR-060/153/262 (Triunfo Concebra).

O que consta no pacote da relicitação?

A regulamentação prevê que a relicitação implicará em um novo valor de outorga a ser pago pelo novo investidor. Pelo lado do atual concessionário, este poderá ser indenizado pelos investimentos realizados e não amortizados, calculados pelas agências reguladoras e acordados através das câmaras privadas de arbitragem visando conferir maior agilidade ao processo. Já os possíveis financiamentos tomados pelos antigos concessionários a taxas de juros consideradas adequadas, poderão ser repassados ao novo investidor, desde que com o aval do agente financiador.

Implicações da relicitação

Por um lado, a relicitação parece ser uma solução adequada para a continuidade das obras e a manutenção de serviços fundamentais ao país e ao cidadão, que foram contratados através de parcerias público-privadas e que se tornaram inviáveis devido a circunstâncias alheias à vontade das partes.

Por outro lado, a relicitação de grandes projetos de infraestrutura realizada em tempos de acirramento das crises política e econômica, rebaixamento do grau de investimentos do país, discussão acelerada sobre o descumprimento da regra de ouro e o provável aumento da dívida pública, tende a frustrar as expectativas de novos investimentos barateando os novos valores de outorga e fazendo com que as concessões, provavelmente, sejam negociadas na “bacia das almas” (em valor e condições) ao capital estrangeiro, ou que esses projetos simplesmente, continuem paralisados no papel e que os serviços sejam mantidos no patamar mínimo de aceitação, em prejuízo ao cidadão contribuinte.

O fato é que essa situação força uma escolha entre o péssimo e o pior. A lição aqui aprendida é óbvia: é necessário menos interferência política e mais uso de quadros técnicos competentes e independentes para lidar com os projetos de parceria vinculados ao Estado.

Mas, não seria essa uma prescrição demasiadamente utópica num país em que a ignorância dos eleitores é alta e o senso de oportunismo dos políticos é grande? Evidente que sim. Mas se a sociedade civil não abraçar essa utopia vamos continuar pagando caro para enxugar o gelo da incompetência de um Estado dominado por interesses políticos e partidários.

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br

Álvaro Camargo, Mestre em Administração de Empresa pelo Mackenzie, Professor de Pós Graduação na Fundação Getúlio Vargas e Consultor de Empresas – falecom@alvarocamargo.com.br – www.linkedin.com/in/alvarocamargo


CARTAS NA MESA PARA 2018

janeiro 15, 2018

No apagar das luzes de 2017 o Banco Credit Suisse divulgou ao mercado o seu boletim de análise da conjuntura do país, intitulado “Brasil – Cenário melhor, mas ainda incerto para 2018 e 2019”. A mensagem do relatório é fundamentalmente positiva o que provoca alento e esperança: o ambiente global continuará favorável para o Brasil em 2018, a retomada gradual da atividade econômica continuará em curso em 2018 e o investimento direto no país continuará alto em 2018. Entretanto, a fonte faz uma ressalva ao cenário econômico favorável devido às incertezas no cenário político – a incapacidade do governo, impopular, de aprovar medidas relevantes no congresso em ano de eleições gerais e a baixa previsibilidade do resultado do pleito presidencial.

Diante das perspectivas, desde o início do ano, as cartas do jogo começaram a ser apresentadas, esboçando o cenário real que teremos nas mãos para enfrentar o ano novo.

Em sinalização às boas novas, o BNDES acabou de anunciar a ampliação do crédito para investimentos em infraestrutura na ordem de R$ 23Bi em 2018, assim como, o recente acordo entre o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o chamado “banco do BRICS” e o Banco Santander Brasil, abre novas possibilidades de concessão de linhas de crédito com juros baixos à projetos de financiamento de infraestrutura no país com baixas taxas de juros, sinalizando um caminho a participação dos bancos privados no segmento que, até então, mantinha-se quase que exclusivamente restrito aos bancos púbicos de fomento.

A tendência positiva, entretanto, foi resfriada na semana passada pelo revés do anúncio do rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência Standard & Poor’s que, apesar de ter sido bem recebida pelo mercado (a bolsa fechou estável e o dólar caiu), tende a gerar consequências negativas à retomada econômica do país, no que tange ao aumento da desconfiança do investidor externo e o encarecimento de empréstimos e financiamentos para a Petrobras e os bancos estatais que poderão ter seus ratings consequentemente reavaliados para baixo.

Mas, a cartada decisiva, e ansiosamente aguardada, virá no próximo dia 24 de janeiro com a decisão do julgamento de Lula. O mercado aposta contra Lula e a sua impugnação no peito presidencial, pois enxerga nele o retrocesso dos (pequenos e frágeis) avanços macroeconômicos que sustentam hoje as perspectivas positivas – a certeza de intervenções políticas nas empresas estatais, o retorno do inchaço do aparelho público e o abandono das reformas estruturantes necessárias.

Jogo em andamento, o bom de tudo isso é que, desta vez, o Brasil poderá estar pronto para dar a alargada ao ano novo de 2018 imediatamente após o carnaval. Façam as suas apostas!

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br


A REFORMA TRABALHISTA E O TRABALHO POR PROJETOS

janeiro 7, 2018

A reforma trabalhista do governo, em vigor desde novembro passado, criou uma nova categoria de serviço que não estava contemplada na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho): o contrato intermitente de trabalho. A partir de então, as empresas podem contratar funcionários para trabalhar esporadicamente e pagá-los apenas pelo período da prestação de seus serviços.

A quem interessa o Trabalho Intermitente?

Pelo novo regime, o trabalhador poderá ser contratado e ficar à disposição da empresa até ser convocado para o trabalho, quando, aí sim, prestará o serviço solicitado e receberá sua remuneração pelo tempo (horas) efetivamente trabalhado, acrescida de direitos trabalhistas proporcionais. Conceitualmente, esse novo modelo de trabalho tende a ser útil para o tipo de indústria que enfrenta picos sazonais de demanda e de mão de obra durante o ano, para o comércio durante os finais de semana e datas festivas, ou para as empresas de serviços que sejam demandadas esporadicamente por seus clientes.

Contratações intermitentes, autônomos e pejotas.

A diferença entre o novo contrato de trabalho e a contratação de um profissional autônomo ou uma pessoa jurídica (pejota) reside no vínculo de subordinação. O trabalhador intermitente receberá ordens e terá o seu trabalho supervisionado pelo empregador, tal como um trabalhador em tempo integral, enquanto o profissional autônomo ou o pejota agem com independência e se responsabilizam pelas entregas combinadas. Por outro lado, a similaridade no trabalho entre eles reside na necessidade do empregador de dispor de um profissional que se ocupe exclusivamente de um trabalho ou de uma entrega específica, requerida num intervalo de tempo determinado – ou seja, o trabalho por projetos.

As criticas à nova modalidade de contratação afirmam tratar-se de uma tentativa de legalizar em larga escala o “bico” e a consequente redução de direitos trabalhistas conquistados.

Sem nos ater às interpretações sobre o sentido dos avanços ou retrocessos da nova lei, o fato é que as contratações intermitentes, os autônomos e pejotas permitem ao empregador associar, diretamente, os gastos com mão de obra às receitas – paga-se por aquilo que se vende e isso, supostamente, reduz custos, previne riscos e facilita a geração de trabalho e renda.

Trabalhar por projetos é, pois, condição inevitável e posta à mesa.

Cabe então a discussão sobre como o trabalhador deveria se posicionar diante dessa nova configuração nas relações de trabalho, diante do fato de que ele passará a ter que lidar com clientes, e não mais com empregadores. Deverá saber precificar e vender seu tempo e suas competências. Necessitará se organizar para tratar com diversos contratos concomitantes para que a somatória de seu “tempo vendido” seja compatível com a sua renda pretendida. Que não mais será um empregado, e sim patrão de si mesmo,  empresário pessoal de suas habilidades e competências.

Cabeça de patrão.

Cabeça de patrão exige um novo modelo mental, independente, proativo e empreendedor, além de novas competências pessoais e profissionais – pressupõe arriscar-se no mercado e a tentar matar “o leão do dia”, todos os dias, sem poder depender exclusivamente do empregador.

Para tanto, a especialização e a diferenciação são os fundamentos da nova postura profissional – saber “empacotar” de modo mercadológico as capacidades, experiências e as potencialidades de sua vida profissional pregressa num catálogo de serviços pessoal e no contexto de uma atituite empreendedora. Aprender a planejar suas finanças e seu tempo, aprender a se vender, se disciplinar para entregar o prometido com nível adequado de qualidade. Perseverar e superar as dificuldades, reconhecendo que o contexto trabalhista do pleno emprego provavelmente nunca mais retornará, ainda que isso não signifique capitular e deixar de lutar.

Lamentar-se ou continuar caminhando?

Sob o ponto de vista do trabalhador, não será fácil mudar o seu posicionamento nas relações de trabalho, considerando que essa transição para o mundo dos projetos não lhe foi apresentada como uma opção. À eles cabe se lançar na marcha da adaptação com desprendimento, abertura para uma nova vida, estudo e desenvolvimento contínuos.

Já para aqueles que há tempos se aventuraram no mundo dos projetos e deles aprenderam a tirar o seu sustento, essa nova realidade soa como um alento e com a certeza de que já pavimentaram parte do futuro que se vislumbra.

Estamos todos preparados?

Por:

Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP e Professor da Pós Graduação do Insper – alonso.soler@schedio.com.br