BICIGRINO EM SANTIAGO: O ESCOPO ESTAVA ERRADO

agosto 10, 2009

Chegando à catedral de Santiago, percebi que consegui cumprir rigorosamente todas as etapas de meu projeto, com algumas modificações intermediárias, mas que não afetaram o escopo original. Consegui chegar às muralhas da cidade um dia antes do previsto, a um custo bem menor do que eu havia estimado. Não tive problemas de saúde, nem problema mecânicos com a Babieca. Tudo funcionou perfeitamente. O plano que elaborei funcionou, permitindo-me realizar a jornada com relativa folga e grande êxito.

Entretanto, três meses depois do meu retorno, pergunto-me: Por que não desci da Byke naquele dia maravilhoso durante a trilha? Por que não parei em todas as igrejas ? Todas as catedrais? Por que não estendi o trecho até aquele outro povoado onde eu poderia ter visto tal coisa? Por que não passei mais tempo com aquelas pessoas ? Por que fiquei tão preocupado com o cronograma e com o meu desempenho pessoal, que deixei de ouvir mais profundamente os sons do silêncio da solidão do caminho ? Por que não me atrasei um pouco, para sentir o momento e tudo o que ele estava me proporcionando ? Se Santiago estava comigo, por que a pressa?

Caramba, será que mirei no alvo errado? Será que o escopo de meu projeto era chegar na cidade de Santiago, conforme constava em meu plano ? Ou será que viver e sentir o caminho em si é que deveria ter sido o escopo do meu projeto ? Meu plano teria sido outro. Ouro cronograma, outro orçamento, outros benefícios. Mirei na catedral e deixei de sentir a beleza do pasto. Fiz certo um projeto que tinha o escopo errado. Que pena! … Que bom! Terei que voltar.

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BICIGRINO EM SANTIAGO: SOBRE BURGOS E AS MANCHETES

julho 30, 2009

Assustei-me esta manha com as capas dos jornais retratando um prédio destruído em Burgos. Imediatamente fui remetido às lembranças de minha passagem pela cidade durante minha bicigrinação no último mês de Abril/2009. Esta é a segunda vez que Burgos me acorda depois do meu retorno. A primeira vez foi o caso do peregrino Italiano encontrado morto no albergue Del Cubo – o mesmo em que eu fiquei hospedado.

Para mim essas notícias são motivo de lástima, primeiramente pela consideração à cidade de Burgos, terra de El Cid, linda e acolhedora (ganhei um jantar de graça e uma roda de papo que adentrou a noite por causa do nome da minha bicicleta, Babieca). Trataram-me maravilhosamente bem, desde a chegada triunfal por uma trilha margeando o rio onde pessoas comuns pescavam trutas e que desembocava no pórtico de entrada da cidade, imediatamente próximo da catedral e do albergue – aliás, o de MELHOR infra-estrutura de todo onde eu me hospedei. Burgos seria a cidade que eu escolheria morar se tivesse que me mudar para a Espanha. Cosmopolita sem exageros, conservadora nos hábitos e na preservação de sua história, moderna nas artes e na técnica, além de ter-me parecido economicamente pujante. 

Em segundo lugar, e principalmente, latimo pesarosamente o uso da força e da violência como meio de encaminhamento de propósitos e idéias. Em terras de São Tiago, no centro do caminho que nos empurra para frente e para o alto (ultréia e suséia) em nossa humanidade e religiosidade, parece-me inadmissível aceitar a violência bruta, justificada por posições ideológicas. Burgos não merece essa manchete! São Tiago esteja com todos nós.

Chegada a Burgos

Chegada a Burgos


BICIGRINO EM SANTIAGO: ENCERRAMENTO DO PROJETO – FINISTERRE E MUCHIA

julho 28, 2009
Cabo Finisterre

Cabo Finisterre

Ainda que meu plano fosse apenas chegar em Santiago, durante a viagem conheci diversos peregrinos que pretendiam estender sua jornada até Finisterre e Muchia (diz-se muxía). Ambas as cidades despertam grande interesse místico e estão associadas diretamente ao caminho. Há quem diga que o verdadeiro caminho não acaba na catedral de Santiago, mas sim durante o ritual de queima de roupas em Finisterre. Muito bem! Por essas e outras, adivinhem o que aconteceu? Após todo o ritual da chegada em Santiago, eu resolvi dar uma escapada até Finisterre e Muchia, ainda que esses últimos trechos tenham sido feitos de carro como todo o conforto das carreteras da Galícia e em companhia de minha esposa que estava ali para me receber.

Segundo se divulga, Finisterre é conhecida, desde os primórdios da civilização Celta que habitou a região da Galícia, como o ponto mais a oeste do continente europeu (há quem faça um ajuste na afirmação e diga que trata-se do ponto mais a oeste da península Ibérica, apenas). Alguns rituais místicos sugerem a queima de roupas da peregrinação nas pedras da península de Finisterre como forma de deixar para trás a vida antiga e marcar o início da nova vida. Há ainda místicos que crêem que o verdadeiro caminho de Santiago começa em Finisterre e segue pela contramão das setas amarelas, voltando à França – deve ser difícil!!!!!.

Em Muchia comenta-se sobre a lenda da barca de pedra de onde Maria, Mãe de Jesus, incentivou e reconheceu o trabalho de pregação da ‘Palavra’ que Tiago, sozinho, fazia na região, sem muito sucesso. Dalí nasceu a crença em N.Sa. da Barca que pode ser devotada num convento local.

Da próxima vez, Finisterre e Muchia estarão na minha programação original de peregrinação, a pé ou de byke.

Finisterre

Finisterre


BICIGRINO EM SANTIAGO: RESPOSTAS À PEDRO #2

julho 25, 2009

Continuam as respostas dadas ao Pedro, interessado em ‘bicigrinagem’ no fórum do grupo dos amigos de Santiago:

6) O que mais te deu trabalho em termos de ajuste / reparo da bicicleta? O que vistes, neste sentido, acontecendo com os outros ciclistas?

RESPOSTA: Fui num período de muito frio e chuva. Peguei muita lama, barro e gelo. Isso inviabilizou muitos trechos do caminho pela trilha e me levou a optar por algumas estradas. Pode parecer mentira mas não tive sequer que encher os pneus da Babieca durante todo o percurso. O ar do posto de gasolina que encheu os pneus em SJPP na frança foram esvaziados em Santiago quando desmontei a byke para a volta. Nada quebrou, nenhum pneu furou. Nada aconteceu com ela. Porém, ela foi tratada com todo o carinho. Alguns hospitaleiros brincavam com a minha relação com a Byke ( o Acácio, de Villoria de Rioja, teve que ouvir a estória da Babieca em detalhes). Sempre que eu chegava num albergue, tomava meu banho, lavava as roupas (quando dava) e saia para cuidar da byke. Limpei todos os dias os cabos de câmbio e freio, tirava excesso de lama, lubrificava a corrente, etc. Ou seja, pelo
menos uma hora por dia, cuidando da manutenção preventiva dela. Os ciclistas europeus ficava abismados com tamanho carinho. Eles não estão acostumados, simplesmente usam a byke, se quebrar, mandam consertar.

7) Tendo em vista a prioridade dada aos caminhantes em boa parte dos albergues, usar bicicleta não acabaria sendo uma desvantagem? Como se resolve, via de regra, a questão de guardas das bicicletas quando das paradas em albergues?

RESPOSTA: Provavelmente por causa do período que fui, não havia tanta gente assim fazendo o caminho. Em nenhum albergue que eu cheguei faltou lugar para mim, ou eu deixei de ser considerado, por estar de byke. O tratamento foi absolutamente igual. Ma maior parte dos albergues as bykes ficam estacionadas naqueles canos que prendem rodas. Eu tinha um cadeado pequeno
que dava para prender só a roda. Mas em outros albergues, nem isso. O fato é que a byke muitas vezes ficou sozinha, sem estar presa, e para fora da casa. Não tive, ou fiquei sabendo, de qualquer problema com roubos ou coisa assim. Isso também na hora de entrar num bar para tomar um café, comer ou ir ao banheiro. A byke sempre ficou do lado de fora, com os alforges sem qualquer problema. Por via das dúvidas, leve um cadeado. Mas isso não é problema prioritário para ninguém.

8) Estivestes em albergues públicos e privados? Mais nos públicos ou nos privados? Sentistes que os peregrinos de bicicleta tinham alguma diferença de tratamento em termos de acolhida aos peregrinos que usavam bicicletas?

RESPOSTA: São 3 tipos de albergues: municipais (públicos), monásticos e privados. Tive experiência nos 3 tipos e te digo que não há uma regra geral. Os municipais são geralmente maiores, abrigam mais pessoas e têm estrutura adequada (aquecimento, chuveiro quente, maquina de lavar e secar, maquina de café e de snacks, etc) para atender a grande demanda de gente. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, pois acabam ficando muito impessoais. Os monásticos são mais espartanos em termos de estrutura, mas são mais representativos em termos de história – Ficar no mosteiro de Samos foi o máximo, apesar do frio! Os privados são geralmente menores, alguns tem mais
estrutura e outros menos, geralmente oferecem o jantar dentro do albergue (nos outros você terá que sair para jantar, ou comprar algo para preparar e comer na cozinha do Albergue, se tiver!). Geralmente são mais pessoais, ou seja, você interage mais com o hospitaleiro e com os demais peregrinos daquela noite. Regra geral não há, tem albergue público e privado que são bons e ruins. Sobre o tratamento a ciclistas, conforme disse acima, não senti nem um pontinho de diferença em nenhum tipo de albergue.

9) Qual o ponto mais positivo da tua experiência de fazer o caminho de bicicleta? E o mais negativo? Pensas em fazer novamente o caminho? Em caso afirmativo, farias novamente de bicicleta ou optarias por fazê-lo a pé? Por que?

RESPOSTA: Vou te dar uma única resposta, pessoal, para as duas perguntas acima. O ponto ruim de fazer de byke é que passa rápido demais (já estava com saudade com cheguei ao Monte do Gozo a 3 KM de Santiago), e o fato de eu ter optado por fazer parte dos trechos pelas estradas por questões de segurança, risco e viabilidade do piso – isso reduz um pouco o ‘clima’ do caminho.

Além do mais, acho que o preparo físico do ciclista tem que ser maior. É bem mais difícil fazer uma trilha com piso de pedras e lama de byke, exige mais força e condicionamento. Não empurrei a byke em nenhum momento, mas cheguei a pedalar em velocidade de peregrino andando algumas vezes. Você vê muita gente mais velha fazendo o caminho a pé. Por outro lado, fazendo o caminho
de byke, geralmente você vê gente bem mais jovem e sarada, infelizmente alguns deles desprovidos ‘do clima’ que o caminho oferece. Lembre-se que o caminho é um fim em si mesmo. O importante não é chegar a Santiago, mas peregrinar pelo caminho a Santiago, com a companhia de São Tiago.

Portanto, ainda que eu esteja muito feliz com a minha ‘bicigrinação’ afinal, eu fui sem compromisso com tempo ou com performance, se eu fizer novamente, pretendo fazer a pé, seguindo integralmente o caminho pelas trilhas. De byke, com alforge e sem carro de apoio, fazer todo o caminho pela trilha me parece quase impossível para um ciclista amador como eu.

Mais de babieca na trilha

Mais de babieca na trilha


BICIGRINO EM SANTIAGO: RESPOSTAS À PEDRO #1

julho 18, 2009

Seguem algumas respostas dadas ao Pedro, interessado em ‘bicigrinagem’ no fórum do grupo dos amigos de Santiago:

Olá Pedro. Seguem respostas:

1) Alonso, se entendi bem, embora não sejas um atleta ciclista ou grande praticante, podes ser considerado apenas uma pessoa que sabe andar de bicicleta?

RESPOSTA: Vamos colocar a coisa numa escala de 0 a 10 – eu me acho 6. Não sou apenas uma pessoa que sabe andar de byke. Desde criança eu gosto de pedalar e costumo pedalar nos finais de semana. Moro ao lado da USP e sou da comunidade, por isso, tenho o privilégio de poder usar o campus nos finais de semana e nos feriados. Meus filhos aprenderam a pedalar e a gostar da byke desde cedo e me acompanham, o que me motiva mais ainda a pedalar e a tratar a byke como o lazer preferencial nos finais de semana. Faço passeios
longos com eles e trilhas nos arredores de Sampa. Digamos que costumo pedalar 20 a 30KM em cada passeio desses de final de semana. Portanto, ainda que não seja um profissional, eu acho que tenho uma certa intimidade boa com a Babieca (nome da minha Byke). Além disso, já mencionei, ao fazer o percurso do Caminho do Sol em 3 dias, eu tive a exata noção do que me aguardaria em Santiago. Trilhas, setas amarelas, albergues, convívio, etc. Como meu plano para Santiago era fazer um percurso menos intenso do que o que fiz no Caminho do Sol, fiquei bastante confortável e seguro.

2) A tua bicicleta, mesmo sem ser um modelo semi-profissional, pode ser considerado um tipo não muito difícil de ser visto sendo usada por praticantes de finais de semana?

RESPOSTA: A Babieca é totalmente comum. Qualquer loja de byke, ou de departamentos, atualmente oferece modelos compatíveis com a minha byke (24·marchas amortecedores dianteiros, freios comuns, pneus de trilha).

3) O modelo de bicicleta pode ser encontrado em cidades com população em torno de 250 a 500 000 habitantes? Quanto custaria um modelo da tua bicicleta atualmente?

RESPOSTA: Como lhe disse, qualquer loja tem bykes semelhantes. Deve estar custando algo em torno de R$ 2.000,00 (para menos)

4) Quanto custa, mais ou menos, o restante dos apetrechos necessários? Qual a forma mais adequada de conseguir adquiri-los?Explicando melhor, comprastes material pela internet? Chegastes a verificar se os preços na Espanha seriam mais em conta?

RESPOSTA:

  • Apetrechos Essenciais: Garupeira (suporte para os alforges), Alforges (com capa), Pequeno alforge de guidão com porta mapas, Pequena bolsa de ferramentas debaixo do banco, duas garrafinhas de água, bomba de encher pneus, luz traseira (considerando que terá que andar por estradas), bar end ajustado para cima (me ajudou muito quando comecei a ter dor nas costas) – Mais ou menos uns R$ 600,00
  • Mala byke (para transporte da Byke): Mais ou menos uns R$ 300,00 Ferramentas e peças de manutenção e reposição. Algumas coisas são essenciais. Mas tem que ponderar o que levar por causa do peso. Nada de muito exagero. Apenas o essencial. Posso te passar uma lista.
  • Comprei tudo aqui mesmo para poder fazer testes antes da partida, geralmente nas lojas reais (aqui em Sampa temos muitas opções). Fiz umas duas trilhas antes da partida com os alforges já preparados e com a byke em estado de viagem. Não fiz pesquisa de preços na Espanha. Foi importante para mim, sair daqui conhecendo o meu material, equipamentos e roupas.

5) Considerando que a bicicleta não deve chagar montada na Espanha e que durante o caminho deve ser necessário fazer ajustes e trocas de peças, é preciso ter uma prática razoável para “mexer” na bicicleta ou, dito de outra forma, isto é coisa sem menor importância pois aprende-se na prática ou tem sempre um outro ciclista pronto para fazer o serviço para a gente?

RESPOSTA: Se você optar pelo Mala Byle, terá apenas que tirar as rodas, girar o guidão e tirar os pedals. Coisa mínima que você fará sozinho na montagem quando chegar. No mais, é muito útil que você tenha alguma experiência (no mínimo)com a troca de pneus furados e regulagem de câmbio e freios, para manutenções rápidas no meio de um trecho. Fora disso, ao chegar nas cidades um pouquinho maiores você sempre terá disponível alguma loja de bykes que poderá te ajudar com reparos maiores ou peças. lembre-se que você está na Europa e eles têm muito costume de pedalar. Bicicleta não é segrego nenhum para eles e você poderá ter suporte em todos os lugares. Eu tenho uma lista de lojas de manutenção de bykes na maioria das cidades do caminho. Posso te mandar. O que pode acontecer é ter que esperar um horário conveniente para pegar a loja aberta, as vezes você chega com um problema no final de semana, ou seja, se não fizer a manutenção sozinho, poderá ter que adaptar seus planos de chegada, saída de uma cidade em razão da disponibilidade da loja de bicicletas – mas isso faz parte do caminho. o Caminho não é uma corrida de regularidade. Lembre-se também que na maioria das cidades, as lojas fecham de 12:00 as 16:00 para a siesta.

A propósito, não havia dito, mas o esquema da chegada e retorno é supimpa. Levei a bicicleta semi desmontada na mala byke e uma bolsa grande contendo os alforges, o capacete e etc (tudo dentro de uma bolsa grande). Quando cheguei em Pamplona, um motorista (David, ajudante do Hector) me levou até SJPP e me ajudou a montar a byke. Depois eu enrolei o mala byke e coloquei dentro da bolsa. Fiquei apenas com a Byke, os alforges e equipamentos que estavam dentro da bolsa. Deixei 15euros com o motorista para enviar essa bolsa em meu nome direto para o correio de Santiago. Fiquei com o celular dele e pedi que só enviasse quando eu ligasse – afinal, eu não sabia se conseguiria, se ia dar certo, ou não. Três dias depois, quando já estava no esquema do caminho, liguei e pedi para ele mandar a bolsa para o correio de Santiago. Chegando em Santiago fui ao correio com meu passaporte e peguei a bolsa. Fiz então o processo inverso de desmontar a Byke e colocar no mala byke e botar os alforges e equipamento dentro da bolsa. Voltou para o Brasil do mesmo modo como fui, com o mala byke e com a bolsa. Funcionou perfeitamente.

Babieca no caminho para Puente la Reina

Babieca no caminho para Puente la Reina


BICIGRINO EM SANTIAGO: LENDAS DE SANTIAGO

julho 16, 2009

Durante a minha preparação pesquisei bastante sobre o caminho e suas histórias. Levantei as possibilidades de aprendizado e vivências culturais que o caminho poderia desfrutar. Analisei os povos antigos que habitaram a região – Celtas, Romanos, Visigodos, Cristãos e Muçulmanos – e seus legados arquitetônicos, culturais e místicos. Acho que me preparei adequadamente. Eu sabia o significado do Caminho de Santiago na história recente da humanidade.

Entretanto o que mais me chamou a atenção foram as lendas que se contam do caminho. Uma das mais interessantes menciona que cavaleiros templários, habitantes da região do Bierzo, teriam trazido para ali os despojos retirados do Templo de Salomão em Jerusalém. Conheci na cidade de Ponferrada um castelo, supostamente onde teriam sido escondidos esses tesouros, inclusive a própria Arca da Aliança, onde eram guardadas as tábuas que registravam os 10 mandamentos de Deus entregues à Moisés.

Pelo lado místico, religioso e pela curiosidade que desperta, uma dessas aventuras atrás de lendas foi travada no Cebrero. Lá, naquela cidadezinha fria (a temperatura era negativa no dia que passei por lá) eu pude ver o que se diz ser o Santo Graal. O cálice divino, pelo qual Jesus tomou o vinho pela última vez. O cálice sagrado, tema dos filmes de aventura de Holywood, supostamente está lá dentro da ireja Del Cebrero para quem quiser ver. Diz a lenda que foi deixado lá pelos Templários e que teria provocado o milagre da transformação de vinho em sangue, mediante a postura arrogante de um pároco que desdenhou da fé de um peregrino.  

Uma das coisas mais interessantes que fiz durante o caminho foi seguir as pistas dessas lendas todas – e são muitas! Conhecendo-as e sabendo dos trechos que seriam trilhados a cada dia, eu pude chegar perto de cada uma delas, fotografando quando podia, conversando com pessoas e vivendo todas essas experiências.

Vista da igreja Del Cebrero

Vista da igreja Del Cebrero


BICIGRINO EM SANTIAGO: RISCOS E IMPREVISTOS

julho 14, 2009

Foram 844 KM pedalados em 15 dias. Aproximadamente 57KM por dia. Muito frio, muita chuva, muita lama e muito cansaço. Entretanto pela graça de Santiago, meu companheiro de viagem, nenhum imprevisto prejudicial ocorreu durante a viagem. 

Senti dores duas vezes, a primeira delas nas costas pela posição da byke foi resolvida levantando totalmente o ‘bar end’ e ajustando minha posição durante o pedal. A segunda dor for no ouvido. Preocupei-me com ela pois o frio era intenso e a dor chegou a ficar muito forte. Numa das noites tomei um antiinflamatório que levava comigo, mas resolvi o problema no dia seguinte mudando a posição do óculo cujas hastes passaram a ficar por fora da toca, forçando o bloqueio do vento contra o ouvido.

A Babieca me deu qualquer trabalho. Nem um pneu furado. Apenas troquei um cabo de câmbio já em Melide, um dia antes de chegar ao Monte do Gozo. Nem encher o pneu eu tive que fazer. É claro que eu fazia a manutenção preventia dela todos os finai de tarde. Assim que chegava ao albergue, tomava banho, colocava um aroupa seca e quente e depois cuidava de limpar a byke, tirar o excesso de barro, lubrificar a corrente e os cabos e ajustar os freios e o câmbio. Manutenção básica que me rendeu a tranqüilidade da viagem.

Ainda que nada tivesse ocorrido, eu estava preparado para alguns riscos. Levava comigo, num dos alforges, ferramentas, peças de reposição e manutenção da Byke -pneu sobressalente dobrado, câmaras de ar, sapatas de freio, cabos, aros, pedaço de corrente, etc. levava ainda alguns medicamentos de uso geral como antiinflatório, antihistamínico e analgésico. Levava roupas adicionais, guias de estradas, além dos guias do caminho e telefones para caso de emergência. Meu plano de riscos foi bastante amplo e me tomei ações preventivas para cada risco que achei importante, ainda que cada ação pudesse implicar em aumento de peso nos alforges.

Porém, mais do que a prevenção de riscos durante o planejamento, durante a trilha avaliei riscos o tempo todo e me portei sempre avesso a qualquer imprevisto. As decisões de sair da trilha e tomar o asfalto forma sempre conseqüências de ponderações de riscos. A velocidade nas descidas, ainda que aguçasse o espírito aventureiro foi invariavelmente reduzida por conta da avaliação de riscos. Outro ponto avaliado constantemente era a minha alimentação, que precisava ser rica em carboidratos por conta do esforço e do frio. E ainda, apesar de estar em região mais que propícia, tive que me conter na degustação de vinho da casa (sniff!!!). 

Muito frio, chuva e lama

Muito frio, chuva e lama